Debate na TV

PROPOSTA PARA DEBATE ENTRE PRESIDENCIAVEIS NA TV

Proponho uma série de testes ao vivo, de aptidões básicas , a ser elaborada pelo TSE, e assistido pela população eleitoral em rede nacional.
Parte-se do princípio “tradicional” de que político, a grosso modo, é um ser que não tem aptidão pra nada, nasceu pra fazer reunião, audiência, mandar e ser “óbidicido”, que ordena a mulher fazer cafezinho, etc…
Quem não tirar nota mínima, não serve pra ser autoridade, só iria fazer lambança no “pudê”, então que vá lamber sabão. Tá fora.

Lápis, borracha e papel.
tarefa : desenhar um saci-pererê e uma cuca.
Tempo-limite : 1 minuto.

Folha de compensado, serrote, um martelo e pregos.
Tarefa : construir uma casinha de cachorro.
Tempo-limite : 7 minutos.

Trocar um pneu furado de carro popular. Colocar o estepe.
Tempo-limite : 3 minutos.

Baliza de kombi, de ré, em ladeira íngreme, entre 2 caminhões.
Tempo-limite : 4 minutos.

Ovo, queijo, manteiga, salsinha, sal, frigideira, espátula,
Tarefa : fazer uma ( ou um… ) omelete.
Tempo-limite : 3 minutos

( 22 de Novembro de 2013 )

Play for a Change

Play for a change…
Porque ainda gosto do mundo ? Porque ainda gosto da humanidade, apesar de tudo de ruim que ela demonstrou ?
O que há comigo, que insisto em olhar a vida e as pessoas com compaixão ?
Porque eu ainda penso que o mundo, sem a humanidade, seria incrivelmente monótono e sem graça ?
Porque não fico amargo de uma vez, vendo tudo errado, constatando que os vizinhos fazem “gato” de luz, de água, que só eu pago luz e água na minha rua ?
Porque, em mais um final de ano, não consigo ficar descrente, vendo pobreza e miséria, roubalheira sem fim, criminalidade de alto a baixo, enganação eterna, a humanidade escrava dos seus vícios ?
Num mundo tão duro , porque ainda choro ?
Porque olho pra frente e há um chamado irresistível rumo ao futuro e à esperança ?
Porque ainda me contagia o clamor da alegria simples, do povo simples do mundo, cuja maior beleza é deixar pra lá a preocupação e celebrar o dom da vida ?

( 22 de Novembro de 2013 )

Corrupção

A corrupção que corroi as contas publicas é uma tragédia de uma sociedade que não se organizou para se proteger. Quando as empreiteiras se unem para sobrefaturar e tornar a esfera publica da sociedade vulnerável aos carteis, quando os indivíduos olham as reservas financeiras do governo como um cofre a ser assaltado, quando persiste a visão generalizada das tetas inesgotáveis a serem mamadas, uma sociedade se mostra rudimentar e precária, num estagio primitivo de organização. De nada adianta atribuir esse ciclo vicioso apenas aos agentes do “poder publico”, como os “politicos”, os “burocratas”, pois a “polis” é feita pelo conjunto como um todo . Uma sociedade em que só se fala em direitos e mais direitos, muitos destes colidindo com outros direitos antagônicos, onde os deveres associados a cada direito são colocados de lado, e por fim esquecidos, é uma sociedade que está a caminho do caos e do esfacelamento. O direito à educação , que deveria motivar o dever do cidadão beneficiário estudar, é subvertido por outros direitos, o direito de contestar a escola ,o direito de negar o currículo escolar, o direito de enfrentar e humilhar o professor, o equivoco de um “direito” do aluno passar sem méritos acaba subtraindo do professor o direito e o dever de reprovar, a sociedade está toda ela vulnerável, sem a menor disciplina. Disciplina e deveres acabam por ser identificados convenientemente, confortavelmente, com costumes do passado, e a modernidade da evolução social se transforma numa geléia gosmenta de direitos sem deveres, típica da decadência e do atraso, que nem Keynes, Stiglitz , Carl Marx, nem Antonio Gramsci, jamais iriam aprovar, porque são pensadores aplicados , disciplinados, focados na necessidade de compreensão, civismo e luta de valores éticos. Não tenho nem amor e nem ódio a nenhuma das duas correntes . Se não me fascinam, também não me incomodam. Percebo que também são pouco e mal lidos, muito usados como escudo para a mais pura pilantragem envolvendo o “pudê”. A mediocridade convém aos imediatistas traidores, sejam de esquerda, de centro ou de direita, no final fica tudo podre, chafurdando na monotonia da estupidez egoísta, roubalheira sem fim, de sempre… As ideologias interpretadas na base da corrupção e da preguiça acabam por cultivar sempre a mesma cupidez, a mesma gula fiduciária das estruturas que na sua origem tanto provocavam rancor. Todos gritam e ninguém tem razão. Autoridade pública desmoralizada, descrédito geral. Governos e desgovernos, incompetência é impotência de quem só pensa em eleição, em seu projeto de poder. Quebra-quebra boçal nas ruas, pixação e vandalismo aos bens culturais de todos quer se justificar pelo assalto sistemático dos gabinetes. O lumpen pobre, ignorante, cobre a cara para depredar, o lumpen rico, aculturado cobre a cara com o capuz jurídico e se abriga covardemente nos foros privilegiados. Só “direitos”. O direito de uso do espaço público deveria vir acompanhado pelo dever subsidiário da defesa incondicional desse mesmo espaço publico. Os bancos depredados não estão nem aí…Quando alguém quer assaltar uma agencia, a segurança particular está ali para evitar. Na depredação, largam a bagaça na mão da policia. Poderiam proteger as agencias, já que lucros estratosfericamente imorais, não faltariam…Porque cruzam os braços ? Porque está tudo assim ? A quem interessa ? No meu íntimo, me recuso a ter vergonha da minha Pátria, porque a minha Pátria , na verdade, está mesmo é dentro de mim, na memória dos meus pais, dos meus avós, um conjunto de trabalhadores como eu. Ninguém teve moleza. É no dia a dia que se faz a Historia.

( 17 de Novembro de 2013 )

( 17 de Novembro de 2013 )

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Me solicitaram sugestões a partir do texto que postei, sobre direitos em excesso, e deveres zero.
A primeira sugestão é não desanimar e parar imediatamente com o discurso monótono do desalento, ceticismo, de ficar xingando o Brasil. O mundo é inteiro igual, o ser humano não é nada mais especial nos EUA, por exemplo, onde a sociedade é truculenta e onde O.J. Simpson não foi condenado pelo evidente assassinato da mulher, um escandalo na época.
Itália ? porca miséria… uma politica de piadas. França ? berço da Democracia, está sempre guinando para a extrema direita, xenofobia, exclusões raciais e étnicas, oligaquia perversa, Japão ? truculência total, escravidão e desumanidade no dia a dia. China e India, os novos milagres do mundo, sem comentários… É bom lembrar que se vc olhar uma foto de 1940 do Largo do Café ( como as que tem no Bar Brahma ) voce pode pensar que era uma beleza, tudo limpo, as pessoas “decentes” , tinham “compostura” …Voce não vai ver um preto, um mulato, um japonês sequer. Só um povo branco, burguês, de terno de casimira inglesa, de chapéu ( muitos panamás ) fumando charuto, algumas poucas mulheres de tailleur, uma sociedade “visível” completamente apartada da realidade. Onde estão os negros, ali ? Onde estão as massas do proletariado , invisível ? Olhe hoje. A inclusão não é uma conquista partidária, de uma corrente. Foi sangrenta, teve luta no dia a dia. Mas andou.
As pessoas até 30 anos atrás faziam piada de preto, de árabe, de judeu, de japonês – ( é bem diferente que piada de português , porque esta não é piada étnica ) .
Hoje não tem mais graça , aliás, pra mim e pra os meus filhos, nenhuma graça.
Mudou.

No tempo da Ditadura ( pouco tempo atrás ) o samba que se ouvia nas paradas de sucesso era : “Do Lado Direito da Rua Direita….” ( Originais do Samba, com Mussum e tudo… ) Pode ? Para pra pensar…

A questão é que o Brasil agora vai aprender a conviver e lidar com a liberalidade da Democracia.

É ruim ? Incomoda ver o povão ter sua expressão, as periferias, o gosto da maioria ?
A mim, não incomoda.

É fácil ficar chamando as décadas de 60, de 70, de privilegiadas, porque havia “cultura popular de qualidade” – fácil porque era uma sociedade de exclusão !!!
A coisa complica quando voce precisa conviver com as diferenças.
Não troco o meu tempo PRESENTE por nada ! Não me engano, o passado hoje parece doce porque está lá distante, já passou e está dominado na nossa cabeça, porque o passado é mais confortável, porque não implica em desafio, Parece doce, mas era escroto ! muito mais escroto.

Quem não estiver preparado pra conviver com a inclusão social, e quer a volta da aristocracia, está ferrado porque o mundo não quer mais o que já foi.
E eu quero o futuro.

No futuro, cada desalento, cada roubalheira que estourou na mídia, cada perversidade que é divulgada,cada êrro, cada acerto, cada confusão, cada discussão, cada controvérsia, tudo, mas tudo mesmo, terá sido um tijolinho na construção da democracia. Na História, nada se perde, e essa construção é lenta.

Temos que cuidar é pra não haver em hipotese alguma retrocesso de ARBÍTRIO. Essa a cagada histórica, porque o Brasil tutelado ficou infantilizado e parou no tempo da construção de sua democracia.
A violencia nas ruas é um sinal de tudo o que não queremos ver, uma anarquia que apetece tanto aos deslumbrados “revolucionários” moldados em outro tempo, década de 60 em que o quebra-quebra tinha o charme gauche da Contracultura.
Grande bosta de tempo ! Guerra Fria, exclusão, racismo, linha dura, roubalheira total, e ninguém podia abrir o bico.

Então, a melhor opção é lutar. Seguir adiante.
Mas se não é pra acreditar nas mentiras, se é pra se indignar, eu gosto ainda mais porque o caminho é esse.
Se é pra contestar, brigar todo dia, toda hora, melhor ainda.
Essa pedra só ficará redonda se rolar, bater, lixar, rolar, bater, lixar.
No fim, fica redondinha.

( 18 de Novembro de 2014 )

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Segundas sugestões.
Aceito desde já as críticas que rebateram meus posts.
É importantíssimo o embate de idéias, não só a positividade babando ôvo.
Vamos sim falar de EDUCAÇÃO que está um LIXO NO BRASIL.
Penso que fizeram uma mixórdia com Paulo Freire e sua a “Pedagogia do Oprimido”, adaptaram convenientemente para uma “inclusividade” que é PURA VAGABUNDAGEM .
UM DESASTRE.
Uma juventude praticamente analfabeta funcional, passando de ano sem saber porra nenhuma.
O Brasil está escrevendo “você” com c cedilha.
E os doutos filólogos em breve vão oficializar : VOÇE.
Isto é UMA TRAGÉDIA.
A sociedade está se tornando completamente boçal.
Ninguém “repete de ano” mais.
É preciso dar um basta nessa vergonha !
Sem o risco de repetir de ano, ninguém estuda mais nada.
Esse é um problema imediato em que voltamos lá para as cavernas.
Não tem argumento : o ensino no Brasil virou uma piada.
Não era uma piada, não, no tempo em que nossos pais eram crianças. Estudavam pra valer.
Veja bem qual é o fundamento disso

Voce pode cagar qualquer coisa, qualquer conceito, idéia, pensador, interpretando de forma errada, de acordo com as conveniências de sua mente tendenciosa ou de acordo com algum diabólico projeto de hegemonia.

Faça você mesmo uma pequena listinha de personagens que foram indevidamente incorporados, adaptados, que tiveram seu discurso adulterado pra compor essa geléia de ideologias que ridiculamente se chama de “visão contemporânea”.

Faça esse exercício. É muito salutar.

( 19 de Novembro de 2013 )

Orquestra Imperial

Orquestra Imperial, uma experiência inesquecível
Pra mim, foi uma passagem das mais agradáveis da minha carreira, ter tocado ontem no Bola Preta…Um grupo extremamente competente, unido pelo puro prazer da música, pelo lúdico mais salutar e resgatador da alegria, curtição total… Uma “cozinha” admirável, muito energética,nas mãos mágicas de músicos cultos e talentosíssimos, um público encantado e encantador. Adorei mesmo. Tiraram de letra o desafio de um repertorio novo, dando molho e contribuição valiosa em leituras primorosas para minhas canções…Valeu mais ainda eu poder atuar como músico acompanhante, no mesmo espírito que me envolveu há 41 anos atrás, com os mestres Jorge Mautner e Nelson Jacobina, quando eu ainda engatinhava na carreira musical…Me senti de novo recomeçando a vida artística, compartilhando o palco com artistas de verdade, na essência maior da nossa vocação. Obrigado.

( 15 de Novembro de 2013 )

Fio da navalha

Tenho muita gratidão pelo reconhecimento e palavras de apreço
de expoentes da cultura rap e black, a respeito de Fio da Navalha,
uma experiencia fundamental na minha carreira…Dedico então aos amigos Rappin´ Hood, Mano Brown, e a todos que curtem esse classico cult, a versão longa ( extended ) em vinil, com clicks e pops..
Muito fundamental será sempre divulgarmos esta ficha técnica, da qual muito me orgulho :
arranjo e Piano Fender básico – Serginho Trombone
Piano Fender complementar, Piano Yamaha e Voyetra 8 Guilherme Arantes
Bateria: Paulinho Braga
Baixo: Jamil Joanes
Guitarra: Robson Jorge
Percussão: Gigante Brasil
Leo Gandelman, Zé Carlos e Ricardo Ribeiro : Sax
Marcio Montarroyos, Bidinho e Donald : Trumpet
Trombones : Serginho Trombone.
A capa é da não menos legendária Vania Toledo.
Não é mole não !

( 13 de Novembro de 2013 )

Biografias

O Novo Testamento poderá ser recolhido no Brasil ! O Biografado não autorizou e a familia não foi encontrada para receber direitos de liberação da privacidade !
Não há, na História, “biografia” mais manipulada do que a do grande Avatar, cuja fundamentação histórica , aliás, é muito questionada…Nem o Personagem , e nem a família foram consultados. Milhares de versões foram se multiplicando, apenas fundamentadas na tradição oral, o que hoje é meramente classificado como “fofoca”, “diz-que-diz”…Fortunas foram ganhas, impérios se agigantaram, ruíram, reergueram-se com novos nomes. Mas não há novidade nenhuma no mundão velho-de-guerra. Sempre a mesma bosta. O Ser Humano, criação suprema do Universo, é primordialmente um tubo produtor de fezes, e falante. Realmente o mundo “moderno” vai se consolidando como o único inferno que existe, irracional, truculento, grosseiro, escravizador, sem privacidade alguma, e é politicamente incorretíssimo ser retrógrado. Tudo pela informação, o direito do coletivo se impõe ao nobilíssimo indivíduo. Ser indivíduo é a coisa mais perigosa e proibida que existe.
Essa discussão sobre as biografias já caiu. O Procure Saber buscou uma razoabilidade que não se sustenta. É o maior barco furado desde a Arca de Noé, e quem entrou nessa, por mais justificáveis que fossem seus argumentos, já está condenado porque se tratam de direitos midiáticos num mundo que não quer saber de privacidade alguma. Sou contra figuras queridas e colegas de obras respeitáveis se exporem dessa forma, se tornando “Judas” ( aliás, os Judas também são necessários para a consecução de planos mirabolantes ). Pois que os biógrafos falem o que quiserem, liberdade total, luz do sol nas feridas. É inadmissível que biografias realmente vergonhosas possam se acobertar debaixo dessa manta autoritária. Na mesma barraca da privacidade das “celebridades respeitáveis” acampam os maiores bandidos da história. Como lutar a favor dessa estupidez ? Como se postar “heroicamente”, mas muito “retrogradamente” contra a construção de uma sociedade brasileira democrática , ainda tão rudimentar ? Muitas das entrevistas desse grupo, o Procure Saber, têm sido catastróficas, um pântano de enganos, um emaranhado de incongruências, areia-movediça de armadilhas, por si só um escândalo maior do que qualquer biografia não-autorizada. Lamentável. Olhem o estrago que está sendo feito nessas biografias ! Se a Justiça é incompetente ao aplicar sanções contra o estrago das biografias anti-éticas, e esse é o cerne da questão que a lei vigente visaria “proteger”, o que dizer da impunidade geral ? Como fica a população anônima, desprotegida de qualquer prerrogativa especial , sem poder algum de persuasão ? E depois que essa excrescência se consolidar, como vai ficar o Jornalismo ? Há, mesmo, o risco de que, de erro em erro, avancemos para uma sociedade totalmente blindada, chapa-branca .É porisso que essa lei vai cair, e não adianta essa chiadeira. Já caiu. Que perda de tempo !
Entendo que Roberto Carlos, um mestre no fascínio das multidões, deva muito, mas muito mesmo, de seu mito à aura de mistério que cerca sua vida, seus dramas, seus fatos obscuros, construindo uma “lenda” que rende muito mais assunto e proventos enquanto mantida cercada de segredos. Fela Kuti, Michael Jackson, Elvis, Napoleão, Hitler, Sha kespeare, Picasso, Bob Marley, todos os grandes ídolos sempre foram assim, um misto de humano e sobre-humano. As pessoas comuns também devem saber que isso é uma tática recorrente, desde os cafundós da História.
Querem exemplo mais flagrante do que o de Van Gogh, o “injustiçado” ? A “Aura do Mito” é tudo.
Mas o que seria da História sem as biografias, com erros, imprecisões? Uma biografia ruim, é ruim e irá para a lixeira. No final, ao correr dos séculos, o que ficam mesmo são as não-autorizadas. Eis o mundo.
Já que a discussão se generalizou, ocupando espaços monumentais nos formadores de opinião, seria muito mais adequada a liberação prévia das biografias, sim, desde que acompanhada de um quadro claro de sanções ( que não existe – depende de jurisprudências que também não existem) . Medidas balizadoras, valorando pesadamente, “a priori” ,os excessos eventualmente comprovados, os relatos mentirosos, e as devidas reparações, inclusive o recolhimento dos livros flagrantemente infratores, facilitando com isso a monitoração da Justiça, que é cronicamente desaparelhada de instrumentos efetivos para cumprir sua função. Mas a Justiça está aí pra isso.
Cá entre nós, se há uma modalidade pernóstica atualmente é a tal da Biografia de Celebridade-com-Jornalista. Esse tipo de biografia caça-níqueis eu não gosto, porque além de chapa-branca, geralmente é mal feita e resulta numa titica. Ou o cara conta a sua historia ou deixa para alguém contar.
Gostei muito da de Eric Clapton. A de Danuza Leão é um primor, genial , despudoradamente elegante. Erasmo Carlos fez uma biografia maravilhosa, contando suas engraçadas peripécias. E fez muito bem. É isso aí. Apoiado. Adorei, é ouro puro. Ninguém jamais contará sua história de forma tão humana, verdadeira, porque só ele estava lá, e sabe escrever como ninguém. Hoje, ele faz parte desse grupo da camisa-de-força. Porque ? Não entendi, porque gosto muito dêle como músico, poeta e escritor magistral. Sempre gostei quando ele cantava “Falem bem ou mal, mas falem de mim” …
Posso estar errado, posso até me arrepender um dia, e ser vítima de uma biografia maldosa, mentirosa, mas nesse caso ela não será biografia. Será ficção.

( 18 Outubro de 2013 )

Não afirmei em momento algum que o cristianismo é uma farsa.
Mas apenas que se baseia numa sucessão de biografias.
Há certas biografias que se consolidaram, e que sem elas não haveria História. Mais nada ! Sem radicalismos pra cima de mim !

( 18 de Outubro de 2013 )

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Independentemente das controversias filosoficas, devo admitir que hoje e sempre tive total fascínio e respeito pelas escrituras religiosas, e o tema do misticismo na alma humana me é especialmente atraente, um manancial inesgotável em profundidade e extrema beleza. Não sou “iconoclasta” e sim um amador da cultura espiritual. Tudo que envolve a essencia mística me inspira profundamente, o materialismo para mim é profundamente desinteressante. Sou assim mesmo, sempre fui, desde menino. Questionando, indagando, sei que me aproximo mais e mais da essencia espiritual. Me desculpe quem me interpreta mal.

(19 de Outubro de 2013 )

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Posso dizer que sou íntimo da Diretoria. De lá me vieram suficientes sinais , sem que eu fizesse nenhum esforço premeditado. Quando eu chego na porta da Diretoria, ela se abre sozinha, como se eu fosse o Patrão. Quando eu chamo, o Patrão está lá no fundo de mim, e nunca está longe, distante, nas alturas, nas eternidades, está mesmo aqui, sem nenhuma pompa ou circunstância. Nunca precisei de despachante, sempre fui atendido apenas com um pensamento focado. Mais nada. Aquele que se levantou da morte é uma realidade também porque eu quero que assim seja, o mais velho e leal companheiro , sem cerimônia alguma, um campesino descalço, que não precisa de nada, se alimenta de muito pouco pão e um gole de água, (embora adore beber um vinho comigo – nada de suco de uva, mas vinho mesmo, espirituoso, repleto em espírito ), vive e anda do meu lado, é engraçado, sagaz, divertido. Nunca foi um chato, um mero ditador de regras, sempre um perguntador inquieto, questionador. Dá boas risadas e tem muita alegria pra compartilhar com seu carisma irresistivelmente simples, de outra forma não teria conquistado o que conquistou. Não mora em nenhuma edificação,em nenhum monumento. Não precisa de templo algum, mas também não condena templo algum. Pra Ele, como pra mim, todos os caminhos são frutíferos. E me diz a toda hora que estou aprendendo, chegando mais e mais perto. Por tudo isso, posso afirmar : a Diretoria é intima.

( 20 de Outubro de 2013 )

Os olhos de dentro

Operação de Catarata em 2012 mudou minha otica.
Dali parti pra transformar meu Universo.
Escrevi uma homenagem aos medicos, e uma ode ao fiozinho de luz interior :

Com os olhos de dentro
Tive um “insight” inédito e inesquecível
Ví toda a minha esperança fluir
Num fiozinho de luz
Ali estava entregue
Operavam mãos plenas de milagre
De uma gente humana, de estranha coragem
E daquela escuridão que me cercava
Me senti frágil e forte ao mesmo tempo
Frágil porque meu futuro não dependia só de mim…
Forte porque me entregava, em corpo e alma…
…e não há conforto maior do que na entrega e na fé…
Deslocado do eterno controle sobre o destino
Lá do fundo silencioso de mim só confiava…
Como num útero materno, uma criança…
O espírito vigiava…
Esperando o mundo renascer em cores
Pra tudo fazer sentido novamente
Um mundo novo e imenso lá fora…
Que me aguardava pra ser recriado
Em todo seu esplendor, em toda sua Glória.
( 13 Outubro de 2013

London -LA e a Rota do Ártico

 

As viagens para gravações sempre foram um algo mais na rotina artística. Estar num local diferente, gerando nessas temporadas um trabalho definido, com inicio, meio e fim, é uma experiência especial, pois o trabalho vem impregnado de “ares”, de histórias como estas, impressas pra sempre no produto e nas nossas vidas…E é por isso que acabei montando um lugar pra isso, o Coaxo do Sapo…Lá no futuro, veremos se eu não tinha razão…Os discos deveriam sempre vir acompanhados de lendas. Lendas verdadeiras é que contam, contando vidas. Penso que os discos, simplesmente como “produtos” são na maior parte das vezes supérfluos. O que vale é o valor agregado. Mas voltando a viagens e peripécias, tenho muitas ainda a contar. Pois no período “maldito” dos anos 90 tive mais duas oportunidades da mesma natureza. Digo que os 90 foram “malditos” porque foram mesmo uma purgação para a nossa geração 80, com a ascensão de três novas vertentes de gosto popular, o axé, o pagode e o sertanejo. Mais uma vez contextualizo explicando que era um processo previsível de acontecer. A replicação digital, 20 vezes mais rápida que a dos vinis, traria na indústria a exigência de artistas que vendessem não dezenas, centenas de milhares, mas milhões de cópias. O gosto popular dominaria a cena, e não vou me alongar aqui, e nem qualificar nada. O Brasil não ficaria parado na geração 80, classe média urbana do eixo RJ-SP. Novas cenas entravam como players, a Bahia moderna, a Minas moderna, o Centro Oeste emergente, as periferias, as inclusões. Era tudo natural de acontecer, e a nossa geração teria que “rebolar” para competir num mercado muito maior e agressivo. Desanimado com o declínio das vacas gordas, de um longo reinado, propus para o velho Maynard, agora presidindo a Polygram ( futura Universal ) um “disco de descanso” composicional, pra guardar as idéias novas pra um momento mais favorável. Eu tinha muitas referências dos anos 60 e 70, e muitas obras-primas que eu gostava de cantar formavam um repertório pessoal , intransferível. Fazer “cover”, nem pensar, sempre fui alérgico ao “cover”…Mas me aventurei a verter algumas canções que eu adorava, com capricho, do meu jeito, mantendo ao máximo o sentido original das letras …”Morning has Broken”, de Cat Stevens, My Cherie Amour de Stevie Wonder e It´s too late , de Carole King, foram as primeiras. Maynard e Max Pierre se empolgaram logo de cara, e escreví o restante das versões, convidando meu parceiro Costa Netto pra fazer “Traces” dos Classics IV – que virou “Trilhas”, e Nelson Motta pra fazer “Alone Again”, do meu ancestralíssimo ídolo irlandês Gilbert O´Sullivan. A gravadora sugeriu também o mestre Aldir Blanc ( e eu adorei ) pra escrever a versão de “Cherish” do grupo The Association…Bem, o repertório era só caroço grande…Me lembro de ter, de propósito, excluído Elton John, por mais que insistissem em “My Song” (eu achava que este renderia um álbum à parte, talvez até duplo, triplo…) , bem como Beatles ( esses , então….sem comentários ) . E só não verti “A whiter shade of pale” do Procol Harum porque a letra original é muito difícil de sugerir qualquer sentido, ficaria péssima, além do que a minha interpretação ao órgão, modéstia à parte, é tão leal, mas fica tão boa, que guardei pra um dia mostrar para as pessoas… Bem… com esse repertório, a dupla de executivos ( Marcos e Max ) decidiu bisar a fórmula vitoriosa de Bethânia cantando Roberto – produção do querido Guto Graça Mello, arranjos e regências do maestro Graham Preskett, gravações nos estúdios CTS, que ficavam onde ? onde ? Londres. As bases seriam feitas no Brasil, então fizemos no Mosh, eu no piano Steinway, Cezinha na bateria e Pedro Ivo no baixo, uma cozinha impecável. E lá fui eu para a charmosa capital britânica. A cidade eu já conhecia desde 90, quando fui pela primeira vez me aventurar, levando uma música minha e do Nelson Motta ( “Ready for Love” ) especialmente para a cantora Lisa Stansfield – aquela do “All around the world yá yá yá” – ( que não gravou, claro, embora deveria ser mais antenada, e ter prestado mais atenção pois não era só um Guilherme Arantes, mas era um GA combinado com um Nelson Motta – mas acho que nunca ouviu falar da gente…pena…ficou só no Ya Ya Ya…). Essa música é um hit internacional de uma dupla matadora, e um dia vai acontecer. O tempo é uma ilusão.
Voltando nesse tempo, me hospedei no mesmo apartamento da outra vez, bonitinho, art nouveau com piano de cauda na sala, cedido pelo querido amigo (um pianista genial), o concertista Marcelo Bratke…em Knightsbridge, a região mais chique de London, perto do Harrod´s, Sloane Square, Belgravia, as maisonettes, a metros do Hyde Park, que lugar lindo… os bancos sóbrios de carvalho, os lagos cheios de patos gordões, a Serpentine, o Round Pond, O “Lido”, os Italian Gardens, as flores do Palácio de Kensington…uma viagem colorida, bem inglesa. Adorei de cara os pints-of-a-lager ( copões de chopp escuro Guiness ) mas eu estava de regime radical, e tinha que segurar a comida pra perder peso. ( Já me sentindo velho aos 40, me achando obeso e precisando de uma repaginada, eu corria todo dia uns 12 km no parque, me pesava na balança da “rainha”, uma moeda de meia libra antes e outra depois da corrida…Perdí, ao final da viagem, 15 quilos e voltei magéééérrimo, chique no úrtimo pra minha nova fase “européia…” tsic, tsic, manias…) Musicalmente, foi um banho esse trabalho. Graham Preskett era um cavalheiro, meio maluco, muito firme para liderar uma orquestra exigente, com as seções de cordas e madeiras do Royal Philarmonic…O estúdio CTS, do lado do velho estádio de Wembley, tinha uma sala com pé direito – juro – com uns 20 metros de altura, e refletores acústicos monstruosos, proporcionando um som já reverberado de Grand Concerto, incrível…O Spalla, Gavyn, era um rapaz novo ainda, infernal no seu violino, dominava a imensa orquestra totalmente. A afinação daquela gente, o “waving” corporal da seção de cordas, a coesão, interpretação magistral, articulação impecável, os arcos se moviam como num sonho. Eu não acreditava. Olhava para o Guto e as lágrimas desciam, eu fiquei num estado indescritível… Tenho os tapes em vídeo disso, em breve vou disponibilizar pras pessoas verem o que foi isso. Ao final das gravações de orquestra, Guto fez algumas mixagens no CTS mesmo, e eu acabei ficando em Londres os meses de maio, junho, julho, agosto, setembro e parte de outubro de 94. Ví o final do inverno, a primavera florir os parques, o verão chegar com uma canícula de Terezina, o calor ir embora, o outono pintar as árvores de bege e marron, as folhas caindo…e a grana já havia acabado há meses, fiquei durango, só comendo Lamen no China Town…( uma sopa de verduras com macarrão ). Aproveitei pra ver o Prince no Earl´s Court 11 noites, em 11 lugares diferentes na platéia, incluindo um “gargarejão” caríssimo aos pés do ídolo, de cara para uma pedaleira revestida em pele de carneiro…Era a tour “Diamonds and Pearls”…Gênio. Pra mim, não tem pra ninguém, nunca vai ter igual, e ponto. Fui também a uma roubada, com ingresso caríssimo, uma luta de box, do ídolo inglês Lennox Lewis contra Oliver McCall, no Ginásio de Wembley, perto do CTS. Comi o pão com linguiça, tomei vários “pints” pra entrar no clima do povão. A luta começou e a ovação era total “Lewis ! Lewis! ecoando no ginásio…um minuto e meio de luta. Lewis no chão. Silencio no metrô, foi a coisa mais fúnebre que eu vi na vida…Unbelievable… Nesse meio tempo, fiz a foto da capa do disco com um garoto, Richard Croft, muito simpático. Fomos a um estúdio de várias salas com teto de vidro , luz natural, e estava acontecendo uma produção com a modelo Kate Moss, amiga dele, a quem tive a honra de cumprimentar…Esse Richard Croft e a namorada, amigos do cantor Seal que é o maior boa-praça – foram meus dois únicos amigos em Londres, nessa viagem, no mais fiquei mesmo uns 4 meses sem trocar uma única palavra com nenhum ser humano. Período sabático, heim ? Mas uma “aventura” bem cara-de-pau de brasucão eu aprontei pra quebrar a rotina: fui várias vezes até os portões do Palácio de Kensington, pra ver a Princesa Diana…Ela saía religiosamente às 7:15 da manhã, levando os filhos ( William e Harry ) pra escola, e eu acordava cedo e passava por ali, nas corridas…Um dia tomei coragem e fui conversar com o guarda. Perguntei se, eu sendo um ”Elton John” brasileiro, misturado com Tom Jobim, um popstar, eu não poderia entregar um pacote de discos meus ( já existia o CD ) para a Princesa. Um pacote de CDs para o guarda, somado a 4 meses de amizade e insistência, um dia o portão se abriu, finalmente pude cumprimentar Diana. Inesquecível. Coisas que o dinheiro jamais vai comprar. Só a inocência, o sonho. Quando Max Pierre me ligou, solicitando que eu fosse para Los Angeles terminar o disco com ele e o famoso engenheiro Moog Canazio , foi um alívio, pois a minha solidão estava estarrecedora em Londres. Fiz a viagem, Londres-Los Angeles pela British Airlines, por cima do Pólo Norte, Alaska, das Montanhas Rochosas…uma visão incrível de um outro planeta que eu desconhecia. Descer em Los Angeles foi só alegria. A América ! Estava em casa de novo…Ao menos me senti num ambiente bem mais familiar….Max me hospedou no Sofitel, em Beverly Hills, fez “lockout” no famoso Westlake Audio ( onde Michael Jackson fez o Thriller ) e trouxe dois músicos complementares, o percussionista Tim Pierce e o maravilhoso guitarrista Michael Fisher, que fez um trabalho magistral. O disco ficou com outra cara, ainda muito mais bonito do que já estava… Pude conhecer Rodeo Drive, e, estando com o requintado Max, tirar a barriga da miséria em bons restaurantes ( depois de 4 meses de Lamen ) vivenciar toda uma parte glamurosa de LA, ( da primeira vez em LA, com Ronnie, a produção era mais modesta, e eu não tinha tido oportunidade de conhecer…) Só voltei pra casa em Novembro…7 meses fora de casa, pra fazer um disco, é um exagero! Quando entrei de novo em casa, me perguntei : – É aqui mesmo que eu moro ? Este é o meu lar? O meu piano ? O disco , “Classicos” não foi nem tão mal, mas não foi tão bem quanto eu esperei. Ficou, sim, como uma produção primorosa, mas era um disco de versões…enfim, valeu !
Mas eu voltaria uma vez mais para a gostosa Califórnia, no ano de 96, gravar o cd “Outras Cores”. Novamente pela Polygram, com Maynard e Max na direção, de volta à produção de Ronnie Foster, gravamos no estúdio da casa nova dele, em Conejo Valley , Thousand Oaks, já meio fora de Los Angeles…Fiquei dessa vez em Woodland Hills, no Oakwood Apartments da Topanga Canyon Boulevard. Foi uma outra temporada longa, de Março a Julho de 96, beirando o insuportável de solidão. Quando eu fui, esse disco já estava bem mais estruturado ( ainda em “Adats”) e Ronnie convidou novamente o mago Jorge Del Barrio pra escrever as cordas, Jimmy Johnson pra fazer alguns dos baixos, um outro baixista, o Stan Sargeant pra fazer duas musicas, um batera muito bom, meio latin fusion, o Curt Bisquera, trouxe um outro cubano incrível, o Luis Conte em ótimas percussões, e um guitarrista excepcional, também com forte acento latino, o Mike Thompson, cujo portfolio inclui gravações com Madonna, Cher, Celine Dion, Babyface, Phil Collins, En Vogue, Toni Braxton, entre muuuitos outros…Pois não é que esse Mike também me deu uma força danada, dizendo que eu compunha muito bem…Os passeios pela costa Norte da Califórnia foram mágicos. Descendo o Topanga Canyon me senti num desenho animado, pura Hanna Barbera. Adorei as praias, Malibu, Santa Monica, pude nadar com um mar gelado cheio de sargaços, golfinhos brincando no raso, junto das crianças… e a encantadora Santa Bárbara, com seu “píer” e suas construções em estilo espanhol…Ah, a California é linda mesmo…Nessa estada em LA, tem uma parte muito especial pra mim : fui, outra vez cara-de-pau, conhecer e ter aulas vocais com o mítico Seth Riggs, em Beverly Hills. Simplesmente o coach vocal de Michael Jackson. O maior professor de canto do planeta. Pra não ficar esnobe, nem vou citar aqui todos os astros que estudaram com Seth, um senhor muito engraçado, espirituoso, piadista. Muito caro, também. Tive aulas de 15 minutos ( era o que eu podia pagar ) três vezes por semana, durante três meses. Seth foi muito enfático pra que eu não artificializasse minha voz, com excessos de técnica. Me explicou o quanto um compositor-pianista precisa ter um timbre muito natural e pessoal, sem muito enfeite, pra poder “vender” bem as canções de sua autoria. Isso me pareceu intuitivo, sempre acreditei nisso… Seth Riggs dizia que minha voz era rica em harmônicos e com bastante “edge”, e adorava me ouvir cantar “Um dia, Um Adeus”, “Amanhã” e “Planeta Água”. Um professor muito eficiente, que me passou muita, mas muita auto-confiança. Nunca vou me esquecer disso tudo. É a minha vida.

( 4 de Outubro de 2013 )

California Dreamin´ – o sonho real

Em 87, já no segundo ano de contrato com a CBS ( futura Sony ) eu navegava em mares de almirante, voando em céus de brigadeiro com os êxitos sucessivos de 3 faixas do LP “Despertar”. Olhos Vermelhos, Cheia de Charme e Fã Numero 1 tocaram seguidamente nas rádios…Fulminantes primeiros lugares nos “charts” incomodando muito a crítica… O segundo disco pela CBS também emplacou, e eu confirmava a posição inequívoca de “hit maker” ( o mito de “Midas”) com o álbum “Calor” – “Coisas do Brasil”, “Loucas Horas” e “Mania de Possuir” também andaram bem nas rádios……Os executivos da CBS – Maynard, Condé, Roberto Augusto, e o capo-di-tutti-capi Tomas Muñoz estavam sorridentes comigo, pois eu havia correspondido razoavelmente às expectativas e investimentos nos dois discos de estréia no selo…me mostrado educado, trabalhador, disciplinado, e principalmente sortudo – a sorte , o pé-quente, a pata-de-coelho são ingredientes fundamentais… ! No fundo mesmo, o segredo era não parar de compor, pra não deixar a peteca cair….Não bastava fazer shows,se vender enlouquecidamente pra aproveitar a maré do sucesso, era necessário ir olhando lá na frente, sempre com o foco no ano seguinte…Eu já era experiente, veterano. Estava numa grande escuderia, e o carro, veloz, precisava de uma condução de fórmula 1. Piloto bom sempre olha 100, 200 500 metros à frente… Se parar pra reparar no presente ou pensar nos segundos passados, já era… Nossa geração era muito veloz. Havia se preparado, e o nosso tempo havia chegado. Por um lado, vivíamos o prazer do sucesso popular, mas, por outro, a desconfiança nas rodinhas “pensantes”, mais intelectualóides, desconfiadas do esquema agressivo das “majors” da época… É bem verdade que as Fms eram muito parecidas, quase todas – senão todas – eram “pop rock”, uma hegemonia consagradora da geração pop 80 – Era virar o “dial”, à 18:55 horas, e constatar que a última musica antes da Hora do Brasil, em todas as FMs, era a mesma…Muitas vezes, minha… o Brasil redescobria a crescente liberdade criativa, juvenil, no declínio da ditadura e vivia uma “bolha de classe-média” com o Plano Cruzado de Sarney e Dilson Funaro..A moda nacional eram os artistas de classe-média Zona Sul,como Lulu, Marina, Barão, Lobão, Engenheiros, Paralamas, Kid Abelha, Leo Jaime, Brylho, RPM, RadioTaxi, Titãs, Ira!, Metrô, Ritchie, Dalto, Kiko Zambianchi, Ultraje, Plebe Rude, Inimigos do Rei, e muitos outros ( qualquer esquecimento aqui me desculpem, era tanta gente…Rita, Roupa Nova e 14 Bis eram mais antigos, mas se mantinham, Capital, Legião, e outros apareceriam um pouco mais tarde). Nosso templo-sagrado era o Chacrinha….uma atração semanal democrática, variada, com todos os estilos misturados numa sequência alucinada, herança da era do rádio… Com a chegada de poderosos sintetizadores polifônicos, dos digitais, das baterias eletrônicas ( entre estas a japonesa Roland TR, a americana LinnDrum e a inglesa Simmons), a implementação das conexões midi e dos primeiros seqüenciadores, dos primeiros Samplers ( Emulator, Emax, Akai S1000 ) o pop-rock no mundo todo se tornava um labirinto perigoso de sonoridades bizarras, e ia se tornando mais e mais mecânico…De minha parte, eu estava bastante defasado, era difícil acompanhar o tsunami digital…Eu só tinha um Sequencer Plus da Voyetra, rodando num IBM PC ( 16 Mb de memória…kkk…) ainda em rudimentar linguagem C ( Compiller )…um DX7, o velho Voyetra analógico híbrido e uma Linn Drum, ( sem midi, dependendo de um Garfield MiniDoc para sincronizar ) Com isso eu havia feito uns 8 hits. Alguns produtores de vanguarda já apareciam com os Performers ( Motu ) ou Steinberg /embriões de Cubase -em Macs classics de 30 khz…kkkkkk…Isso era a hightech da época… Gravações pra valer ainda eram em Studers/Otaris/Ampex de 2 polegadas, e a gente se virava com 24 canais, raramente sincando 2 maquinas pra 48 pistas…Estúdios caríssimos…produções trabalhosas.
Os executivos sugeriram naquele 1987 a Califórnia para a próxima produção, onde Ronnie Foster poderia contar com seu arsenal eletrônico e seus contatos com músicos renomados para “sessions” mais ambiciosas…Elá fui eu, com meus midi files de pré produção, várias canções e letras prontas, rumo à adorável Los Angeles, uma cidade incrivelmente extensa, uma área de desertos, canyons e praias de águas geladas no Pacífico…Meu parceiro Nelson Motta ficou com a incumbência de entregar uma letra – que só entregou via fax, aos 45 minutos do segundo tempo – “Marina no Ar”. Na minha chegada, Ronnie Foster me esperava no aeroporto, veio me buscar com sua BMW Serie 5…Ele ainda morava em Glendale, onde tinha um estudiozinho numa garagem. Um batalhador, muito disciplinado, tocando um absurdo de piano, órgão e sintetizadores, Ronnie se tornou um amigo chegado e muito engraçado – só comia “fried chicken” , acho que pensando em manter a forma…ilusão…Mas a gente se identificou por causa da música, Ronnie me respeitava muito como compositor, meu estilo baladista, internacional, com toques de bossa e brasilidade, que eles tanto adoram por lá. Fiquei hospedado alguns meses num flat – Oakwood Apartments-, atrás daquela colina onde fica o letreiro HOLLYWOOD tão famoso, próximo aos estúdios Universal, na divisa de Hollywood com Burbank. Me lembro com carinho e saudade do “Reservoir”, uma represa debruçada sobre Beverly Hills e Hollywood, bem no alto das montanhas…Um percurso de mais de 10 km em torno da represa, todo arborizado, com mansões milionárias em volta…Que privilégio correr e caminhar todos os dias ali ! E que solidão, também…eu nunca havia passado um tempo tão grande fora de casa, mas a Califórnia, no meu Mustang branco de locadora, era tudo de bom…O supermercado Vons, a loja Frys de eletrônicos, e..pasmem…os pés de erva-doce na beira das freeways, as sementes que eu colhia e fazia chá…coisas que só conheci na ensolarada e sorridente LA…
As sessões com Ronnie eram muito produtivas. Ele alugou um estúdio em Lankershim Boulevard, o “Ameraycan”, do Ray Parker Jr ( aquele que ficou milionário com o tema de Ghostbusters… ) , muito bom, e lá havia um piano acústico brilhante, como eu gostava, com o qual gravei “Um dia um adeus” tocando e cantando ao mesmo tempo ( Ronnie me ensinou que dessa forma piano e voz são “connected”, ou seja, ficam imbatíveis, a canção ganha outra vida – mas é preciso que o intérprete seja competente pra isso ) e essa foi uma gravação histórica, ainda mais com o arranjo magistral de cordas de Jorge Del Barrio. Tenho uma dívida eterna para com esse maestro, tão boa gente, uma pessoa doce, inspirada. O que ele escreveu para o meu disco, nunca vou esquecer. E ele me reverenciou, muito…A gente chorava no estúdio, e essa gravação fez Maynard chorar também, no telefone…Uma manhã cheguei no estúdio e tinha uma galera se preparando para uma “big session”, e não acreditei…eu iria encarar, simplesmente, Vinnie Colaiuta na bateria, muito gente fina, alto astral, me pedindo as partes e sugestões de levadas, Jimmy Johnson, no baixo, elogiando as canções, Bruce Gaitsch, nas guitarras e violões, dedilhando e saboreando minhas harmonias, o famosérrimo Alex Acuña montando seu set de percussão, e alguns dias depois, Larry Williams com seu sax e teclados…Não preciso dizer que me emociono ao lembrar que fizemos muito mais do que sucesso. Qualidade para sempre. Me lembro que em outra sala estavam rolando outras produções, com Ray Parker JR , com o produtor Ollie Brown, e o estúdio tinha um frenesi de celebridades, carrões, muito glamour de roupas e óculos, gente bonita, ensolarada e gentil, não sei se é um cenário, se é falso, mas aprendi que a Califórnia é um estado de espírito… Nessa temporada fui, com Ronnie, assistir um incrível show do David Samborn, no Hollywood Bowl, com direito a backstage/autografos/buffet no final…Ronnie foi chamado no palco, era íntimo daquela “gig”, daquela cena de LA…E dias depois houve um churrasco também, na casa de Bruce Gaitsch, em que todos foram, e todos me tratavam como uma personalidade – já que Coisas do Brasil tocava direto na Califórnia – e me elogiavam abertamente como compositor. Fiquei muito marcado por essa temporada imperdível da minha vida, muito pelo lado humano que encontrei. Tive até direito a um mini-terremoto, um tremor nível 4, quando acordei com um bate-bate dos quadros nas paredes, parecia um trem passando…Saí para o estacionamento, e todos os moradores estavam fora dos apartamentos…Fiquei sabendo que isso era normal…Na volta para o Brasil, outra vez emplacamos com “Ouro”, tema da novela Sassaricando, e com “Um dia um adeus” na novela das 8, Mandala. Um outro ponto positivo desse ciclo foi a gravação de “Imagens”, uma música precocemente ambientalista que eu havia composto especialmente como tema do genial e íntegro Fernando Gabeira para a Prefeitura do Rio – na fundação do PV. Um vídeo, para o Fantástico, em Poconé, no Pantanal, foi gravado e dirigido por Paulo Trevisan, e retratava a destruição da natureza pelo garimpo predatório. Um luxo !

( 4 de Outubro de 2013 )

Amarante

Rodrigo Amarante – um excentrico absolutamente necessário

Curioso, fui conferir o show no Sesc Pompeia.
Ví um artista concentrado, em sua concisão prolixa, seu mundo muito peculiar e ousado,em sua poética elaborada e muito pessoal, um transgressor suave e cortante.
Ví um cantor afinadíssimo que traz um antigo compressor valvulado na voz – e eu pensava que fosse “plugin” mas é de nascença mesmo…
Ví ousadia e completo domínio da plateia, em sua simplicidade descarnada, sua coragem perante um publico fascinado, sintonizado, coerente.
Uma garotada cult, salteada de saudabilíssimo niilismo melancólico, estrelismo e estrelato zero, em favor de uma clara proposta de arte. Arte é isso, e não o óbvio do sucesso.
Ouví uma profusão de ritmos ternários, toadas country/folk modernas e insistentes, resilientes, alinhavando um novo repertório de estranha beleza e pessoalidade. Assim como algumas resenhas que saíram, também reparei em notas caetanísticas, mas em mergulhos soturnos que remetem a suas aventuras por desertos do hemisferio norte, terras longínquas…
Amarante é um andarilho, um peregrino.
Taí, gostei !  ( 2 Outubro de 2013 )