London -LA e a Rota do Ártico

 

As viagens para gravações sempre foram um algo mais na rotina artística. Estar num local diferente, gerando nessas temporadas um trabalho definido, com inicio, meio e fim, é uma experiência especial, pois o trabalho vem impregnado de “ares”, de histórias como estas, impressas pra sempre no produto e nas nossas vidas…E é por isso que acabei montando um lugar pra isso, o Coaxo do Sapo…Lá no futuro, veremos se eu não tinha razão…Os discos deveriam sempre vir acompanhados de lendas. Lendas verdadeiras é que contam, contando vidas. Penso que os discos, simplesmente como “produtos” são na maior parte das vezes supérfluos. O que vale é o valor agregado. Mas voltando a viagens e peripécias, tenho muitas ainda a contar. Pois no período “maldito” dos anos 90 tive mais duas oportunidades da mesma natureza. Digo que os 90 foram “malditos” porque foram mesmo uma purgação para a nossa geração 80, com a ascensão de três novas vertentes de gosto popular, o axé, o pagode e o sertanejo. Mais uma vez contextualizo explicando que era um processo previsível de acontecer. A replicação digital, 20 vezes mais rápida que a dos vinis, traria na indústria a exigência de artistas que vendessem não dezenas, centenas de milhares, mas milhões de cópias. O gosto popular dominaria a cena, e não vou me alongar aqui, e nem qualificar nada. O Brasil não ficaria parado na geração 80, classe média urbana do eixo RJ-SP. Novas cenas entravam como players, a Bahia moderna, a Minas moderna, o Centro Oeste emergente, as periferias, as inclusões. Era tudo natural de acontecer, e a nossa geração teria que “rebolar” para competir num mercado muito maior e agressivo. Desanimado com o declínio das vacas gordas, de um longo reinado, propus para o velho Maynard, agora presidindo a Polygram ( futura Universal ) um “disco de descanso” composicional, pra guardar as idéias novas pra um momento mais favorável. Eu tinha muitas referências dos anos 60 e 70, e muitas obras-primas que eu gostava de cantar formavam um repertório pessoal , intransferível. Fazer “cover”, nem pensar, sempre fui alérgico ao “cover”…Mas me aventurei a verter algumas canções que eu adorava, com capricho, do meu jeito, mantendo ao máximo o sentido original das letras …”Morning has Broken”, de Cat Stevens, My Cherie Amour de Stevie Wonder e It´s too late , de Carole King, foram as primeiras. Maynard e Max Pierre se empolgaram logo de cara, e escreví o restante das versões, convidando meu parceiro Costa Netto pra fazer “Traces” dos Classics IV – que virou “Trilhas”, e Nelson Motta pra fazer “Alone Again”, do meu ancestralíssimo ídolo irlandês Gilbert O´Sullivan. A gravadora sugeriu também o mestre Aldir Blanc ( e eu adorei ) pra escrever a versão de “Cherish” do grupo The Association…Bem, o repertório era só caroço grande…Me lembro de ter, de propósito, excluído Elton John, por mais que insistissem em “My Song” (eu achava que este renderia um álbum à parte, talvez até duplo, triplo…) , bem como Beatles ( esses , então….sem comentários ) . E só não verti “A whiter shade of pale” do Procol Harum porque a letra original é muito difícil de sugerir qualquer sentido, ficaria péssima, além do que a minha interpretação ao órgão, modéstia à parte, é tão leal, mas fica tão boa, que guardei pra um dia mostrar para as pessoas… Bem… com esse repertório, a dupla de executivos ( Marcos e Max ) decidiu bisar a fórmula vitoriosa de Bethânia cantando Roberto – produção do querido Guto Graça Mello, arranjos e regências do maestro Graham Preskett, gravações nos estúdios CTS, que ficavam onde ? onde ? Londres. As bases seriam feitas no Brasil, então fizemos no Mosh, eu no piano Steinway, Cezinha na bateria e Pedro Ivo no baixo, uma cozinha impecável. E lá fui eu para a charmosa capital britânica. A cidade eu já conhecia desde 90, quando fui pela primeira vez me aventurar, levando uma música minha e do Nelson Motta ( “Ready for Love” ) especialmente para a cantora Lisa Stansfield – aquela do “All around the world yá yá yá” – ( que não gravou, claro, embora deveria ser mais antenada, e ter prestado mais atenção pois não era só um Guilherme Arantes, mas era um GA combinado com um Nelson Motta – mas acho que nunca ouviu falar da gente…pena…ficou só no Ya Ya Ya…). Essa música é um hit internacional de uma dupla matadora, e um dia vai acontecer. O tempo é uma ilusão.
Voltando nesse tempo, me hospedei no mesmo apartamento da outra vez, bonitinho, art nouveau com piano de cauda na sala, cedido pelo querido amigo (um pianista genial), o concertista Marcelo Bratke…em Knightsbridge, a região mais chique de London, perto do Harrod´s, Sloane Square, Belgravia, as maisonettes, a metros do Hyde Park, que lugar lindo… os bancos sóbrios de carvalho, os lagos cheios de patos gordões, a Serpentine, o Round Pond, O “Lido”, os Italian Gardens, as flores do Palácio de Kensington…uma viagem colorida, bem inglesa. Adorei de cara os pints-of-a-lager ( copões de chopp escuro Guiness ) mas eu estava de regime radical, e tinha que segurar a comida pra perder peso. ( Já me sentindo velho aos 40, me achando obeso e precisando de uma repaginada, eu corria todo dia uns 12 km no parque, me pesava na balança da “rainha”, uma moeda de meia libra antes e outra depois da corrida…Perdí, ao final da viagem, 15 quilos e voltei magéééérrimo, chique no úrtimo pra minha nova fase “européia…” tsic, tsic, manias…) Musicalmente, foi um banho esse trabalho. Graham Preskett era um cavalheiro, meio maluco, muito firme para liderar uma orquestra exigente, com as seções de cordas e madeiras do Royal Philarmonic…O estúdio CTS, do lado do velho estádio de Wembley, tinha uma sala com pé direito – juro – com uns 20 metros de altura, e refletores acústicos monstruosos, proporcionando um som já reverberado de Grand Concerto, incrível…O Spalla, Gavyn, era um rapaz novo ainda, infernal no seu violino, dominava a imensa orquestra totalmente. A afinação daquela gente, o “waving” corporal da seção de cordas, a coesão, interpretação magistral, articulação impecável, os arcos se moviam como num sonho. Eu não acreditava. Olhava para o Guto e as lágrimas desciam, eu fiquei num estado indescritível… Tenho os tapes em vídeo disso, em breve vou disponibilizar pras pessoas verem o que foi isso. Ao final das gravações de orquestra, Guto fez algumas mixagens no CTS mesmo, e eu acabei ficando em Londres os meses de maio, junho, julho, agosto, setembro e parte de outubro de 94. Ví o final do inverno, a primavera florir os parques, o verão chegar com uma canícula de Terezina, o calor ir embora, o outono pintar as árvores de bege e marron, as folhas caindo…e a grana já havia acabado há meses, fiquei durango, só comendo Lamen no China Town…( uma sopa de verduras com macarrão ). Aproveitei pra ver o Prince no Earl´s Court 11 noites, em 11 lugares diferentes na platéia, incluindo um “gargarejão” caríssimo aos pés do ídolo, de cara para uma pedaleira revestida em pele de carneiro…Era a tour “Diamonds and Pearls”…Gênio. Pra mim, não tem pra ninguém, nunca vai ter igual, e ponto. Fui também a uma roubada, com ingresso caríssimo, uma luta de box, do ídolo inglês Lennox Lewis contra Oliver McCall, no Ginásio de Wembley, perto do CTS. Comi o pão com linguiça, tomei vários “pints” pra entrar no clima do povão. A luta começou e a ovação era total “Lewis ! Lewis! ecoando no ginásio…um minuto e meio de luta. Lewis no chão. Silencio no metrô, foi a coisa mais fúnebre que eu vi na vida…Unbelievable… Nesse meio tempo, fiz a foto da capa do disco com um garoto, Richard Croft, muito simpático. Fomos a um estúdio de várias salas com teto de vidro , luz natural, e estava acontecendo uma produção com a modelo Kate Moss, amiga dele, a quem tive a honra de cumprimentar…Esse Richard Croft e a namorada, amigos do cantor Seal que é o maior boa-praça – foram meus dois únicos amigos em Londres, nessa viagem, no mais fiquei mesmo uns 4 meses sem trocar uma única palavra com nenhum ser humano. Período sabático, heim ? Mas uma “aventura” bem cara-de-pau de brasucão eu aprontei pra quebrar a rotina: fui várias vezes até os portões do Palácio de Kensington, pra ver a Princesa Diana…Ela saía religiosamente às 7:15 da manhã, levando os filhos ( William e Harry ) pra escola, e eu acordava cedo e passava por ali, nas corridas…Um dia tomei coragem e fui conversar com o guarda. Perguntei se, eu sendo um ”Elton John” brasileiro, misturado com Tom Jobim, um popstar, eu não poderia entregar um pacote de discos meus ( já existia o CD ) para a Princesa. Um pacote de CDs para o guarda, somado a 4 meses de amizade e insistência, um dia o portão se abriu, finalmente pude cumprimentar Diana. Inesquecível. Coisas que o dinheiro jamais vai comprar. Só a inocência, o sonho. Quando Max Pierre me ligou, solicitando que eu fosse para Los Angeles terminar o disco com ele e o famoso engenheiro Moog Canazio , foi um alívio, pois a minha solidão estava estarrecedora em Londres. Fiz a viagem, Londres-Los Angeles pela British Airlines, por cima do Pólo Norte, Alaska, das Montanhas Rochosas…uma visão incrível de um outro planeta que eu desconhecia. Descer em Los Angeles foi só alegria. A América ! Estava em casa de novo…Ao menos me senti num ambiente bem mais familiar….Max me hospedou no Sofitel, em Beverly Hills, fez “lockout” no famoso Westlake Audio ( onde Michael Jackson fez o Thriller ) e trouxe dois músicos complementares, o percussionista Tim Pierce e o maravilhoso guitarrista Michael Fisher, que fez um trabalho magistral. O disco ficou com outra cara, ainda muito mais bonito do que já estava… Pude conhecer Rodeo Drive, e, estando com o requintado Max, tirar a barriga da miséria em bons restaurantes ( depois de 4 meses de Lamen ) vivenciar toda uma parte glamurosa de LA, ( da primeira vez em LA, com Ronnie, a produção era mais modesta, e eu não tinha tido oportunidade de conhecer…) Só voltei pra casa em Novembro…7 meses fora de casa, pra fazer um disco, é um exagero! Quando entrei de novo em casa, me perguntei : – É aqui mesmo que eu moro ? Este é o meu lar? O meu piano ? O disco , “Classicos” não foi nem tão mal, mas não foi tão bem quanto eu esperei. Ficou, sim, como uma produção primorosa, mas era um disco de versões…enfim, valeu !
Mas eu voltaria uma vez mais para a gostosa Califórnia, no ano de 96, gravar o cd “Outras Cores”. Novamente pela Polygram, com Maynard e Max na direção, de volta à produção de Ronnie Foster, gravamos no estúdio da casa nova dele, em Conejo Valley , Thousand Oaks, já meio fora de Los Angeles…Fiquei dessa vez em Woodland Hills, no Oakwood Apartments da Topanga Canyon Boulevard. Foi uma outra temporada longa, de Março a Julho de 96, beirando o insuportável de solidão. Quando eu fui, esse disco já estava bem mais estruturado ( ainda em “Adats”) e Ronnie convidou novamente o mago Jorge Del Barrio pra escrever as cordas, Jimmy Johnson pra fazer alguns dos baixos, um outro baixista, o Stan Sargeant pra fazer duas musicas, um batera muito bom, meio latin fusion, o Curt Bisquera, trouxe um outro cubano incrível, o Luis Conte em ótimas percussões, e um guitarrista excepcional, também com forte acento latino, o Mike Thompson, cujo portfolio inclui gravações com Madonna, Cher, Celine Dion, Babyface, Phil Collins, En Vogue, Toni Braxton, entre muuuitos outros…Pois não é que esse Mike também me deu uma força danada, dizendo que eu compunha muito bem…Os passeios pela costa Norte da Califórnia foram mágicos. Descendo o Topanga Canyon me senti num desenho animado, pura Hanna Barbera. Adorei as praias, Malibu, Santa Monica, pude nadar com um mar gelado cheio de sargaços, golfinhos brincando no raso, junto das crianças… e a encantadora Santa Bárbara, com seu “píer” e suas construções em estilo espanhol…Ah, a California é linda mesmo…Nessa estada em LA, tem uma parte muito especial pra mim : fui, outra vez cara-de-pau, conhecer e ter aulas vocais com o mítico Seth Riggs, em Beverly Hills. Simplesmente o coach vocal de Michael Jackson. O maior professor de canto do planeta. Pra não ficar esnobe, nem vou citar aqui todos os astros que estudaram com Seth, um senhor muito engraçado, espirituoso, piadista. Muito caro, também. Tive aulas de 15 minutos ( era o que eu podia pagar ) três vezes por semana, durante três meses. Seth foi muito enfático pra que eu não artificializasse minha voz, com excessos de técnica. Me explicou o quanto um compositor-pianista precisa ter um timbre muito natural e pessoal, sem muito enfeite, pra poder “vender” bem as canções de sua autoria. Isso me pareceu intuitivo, sempre acreditei nisso… Seth Riggs dizia que minha voz era rica em harmônicos e com bastante “edge”, e adorava me ouvir cantar “Um dia, Um Adeus”, “Amanhã” e “Planeta Água”. Um professor muito eficiente, que me passou muita, mas muita auto-confiança. Nunca vou me esquecer disso tudo. É a minha vida.

( 4 de Outubro de 2013 )

California Dreamin´ – o sonho real

Em 87, já no segundo ano de contrato com a CBS ( futura Sony ) eu navegava em mares de almirante, voando em céus de brigadeiro com os êxitos sucessivos de 3 faixas do LP “Despertar”. Olhos Vermelhos, Cheia de Charme e Fã Numero 1 tocaram seguidamente nas rádios…Fulminantes primeiros lugares nos “charts” incomodando muito a crítica… O segundo disco pela CBS também emplacou, e eu confirmava a posição inequívoca de “hit maker” ( o mito de “Midas”) com o álbum “Calor” – “Coisas do Brasil”, “Loucas Horas” e “Mania de Possuir” também andaram bem nas rádios……Os executivos da CBS – Maynard, Condé, Roberto Augusto, e o capo-di-tutti-capi Tomas Muñoz estavam sorridentes comigo, pois eu havia correspondido razoavelmente às expectativas e investimentos nos dois discos de estréia no selo…me mostrado educado, trabalhador, disciplinado, e principalmente sortudo – a sorte , o pé-quente, a pata-de-coelho são ingredientes fundamentais… ! No fundo mesmo, o segredo era não parar de compor, pra não deixar a peteca cair….Não bastava fazer shows,se vender enlouquecidamente pra aproveitar a maré do sucesso, era necessário ir olhando lá na frente, sempre com o foco no ano seguinte…Eu já era experiente, veterano. Estava numa grande escuderia, e o carro, veloz, precisava de uma condução de fórmula 1. Piloto bom sempre olha 100, 200 500 metros à frente… Se parar pra reparar no presente ou pensar nos segundos passados, já era… Nossa geração era muito veloz. Havia se preparado, e o nosso tempo havia chegado. Por um lado, vivíamos o prazer do sucesso popular, mas, por outro, a desconfiança nas rodinhas “pensantes”, mais intelectualóides, desconfiadas do esquema agressivo das “majors” da época… É bem verdade que as Fms eram muito parecidas, quase todas – senão todas – eram “pop rock”, uma hegemonia consagradora da geração pop 80 – Era virar o “dial”, à 18:55 horas, e constatar que a última musica antes da Hora do Brasil, em todas as FMs, era a mesma…Muitas vezes, minha… o Brasil redescobria a crescente liberdade criativa, juvenil, no declínio da ditadura e vivia uma “bolha de classe-média” com o Plano Cruzado de Sarney e Dilson Funaro..A moda nacional eram os artistas de classe-média Zona Sul,como Lulu, Marina, Barão, Lobão, Engenheiros, Paralamas, Kid Abelha, Leo Jaime, Brylho, RPM, RadioTaxi, Titãs, Ira!, Metrô, Ritchie, Dalto, Kiko Zambianchi, Ultraje, Plebe Rude, Inimigos do Rei, e muitos outros ( qualquer esquecimento aqui me desculpem, era tanta gente…Rita, Roupa Nova e 14 Bis eram mais antigos, mas se mantinham, Capital, Legião, e outros apareceriam um pouco mais tarde). Nosso templo-sagrado era o Chacrinha….uma atração semanal democrática, variada, com todos os estilos misturados numa sequência alucinada, herança da era do rádio… Com a chegada de poderosos sintetizadores polifônicos, dos digitais, das baterias eletrônicas ( entre estas a japonesa Roland TR, a americana LinnDrum e a inglesa Simmons), a implementação das conexões midi e dos primeiros seqüenciadores, dos primeiros Samplers ( Emulator, Emax, Akai S1000 ) o pop-rock no mundo todo se tornava um labirinto perigoso de sonoridades bizarras, e ia se tornando mais e mais mecânico…De minha parte, eu estava bastante defasado, era difícil acompanhar o tsunami digital…Eu só tinha um Sequencer Plus da Voyetra, rodando num IBM PC ( 16 Mb de memória…kkk…) ainda em rudimentar linguagem C ( Compiller )…um DX7, o velho Voyetra analógico híbrido e uma Linn Drum, ( sem midi, dependendo de um Garfield MiniDoc para sincronizar ) Com isso eu havia feito uns 8 hits. Alguns produtores de vanguarda já apareciam com os Performers ( Motu ) ou Steinberg /embriões de Cubase -em Macs classics de 30 khz…kkkkkk…Isso era a hightech da época… Gravações pra valer ainda eram em Studers/Otaris/Ampex de 2 polegadas, e a gente se virava com 24 canais, raramente sincando 2 maquinas pra 48 pistas…Estúdios caríssimos…produções trabalhosas.
Os executivos sugeriram naquele 1987 a Califórnia para a próxima produção, onde Ronnie Foster poderia contar com seu arsenal eletrônico e seus contatos com músicos renomados para “sessions” mais ambiciosas…Elá fui eu, com meus midi files de pré produção, várias canções e letras prontas, rumo à adorável Los Angeles, uma cidade incrivelmente extensa, uma área de desertos, canyons e praias de águas geladas no Pacífico…Meu parceiro Nelson Motta ficou com a incumbência de entregar uma letra – que só entregou via fax, aos 45 minutos do segundo tempo – “Marina no Ar”. Na minha chegada, Ronnie Foster me esperava no aeroporto, veio me buscar com sua BMW Serie 5…Ele ainda morava em Glendale, onde tinha um estudiozinho numa garagem. Um batalhador, muito disciplinado, tocando um absurdo de piano, órgão e sintetizadores, Ronnie se tornou um amigo chegado e muito engraçado – só comia “fried chicken” , acho que pensando em manter a forma…ilusão…Mas a gente se identificou por causa da música, Ronnie me respeitava muito como compositor, meu estilo baladista, internacional, com toques de bossa e brasilidade, que eles tanto adoram por lá. Fiquei hospedado alguns meses num flat – Oakwood Apartments-, atrás daquela colina onde fica o letreiro HOLLYWOOD tão famoso, próximo aos estúdios Universal, na divisa de Hollywood com Burbank. Me lembro com carinho e saudade do “Reservoir”, uma represa debruçada sobre Beverly Hills e Hollywood, bem no alto das montanhas…Um percurso de mais de 10 km em torno da represa, todo arborizado, com mansões milionárias em volta…Que privilégio correr e caminhar todos os dias ali ! E que solidão, também…eu nunca havia passado um tempo tão grande fora de casa, mas a Califórnia, no meu Mustang branco de locadora, era tudo de bom…O supermercado Vons, a loja Frys de eletrônicos, e..pasmem…os pés de erva-doce na beira das freeways, as sementes que eu colhia e fazia chá…coisas que só conheci na ensolarada e sorridente LA…
As sessões com Ronnie eram muito produtivas. Ele alugou um estúdio em Lankershim Boulevard, o “Ameraycan”, do Ray Parker Jr ( aquele que ficou milionário com o tema de Ghostbusters… ) , muito bom, e lá havia um piano acústico brilhante, como eu gostava, com o qual gravei “Um dia um adeus” tocando e cantando ao mesmo tempo ( Ronnie me ensinou que dessa forma piano e voz são “connected”, ou seja, ficam imbatíveis, a canção ganha outra vida – mas é preciso que o intérprete seja competente pra isso ) e essa foi uma gravação histórica, ainda mais com o arranjo magistral de cordas de Jorge Del Barrio. Tenho uma dívida eterna para com esse maestro, tão boa gente, uma pessoa doce, inspirada. O que ele escreveu para o meu disco, nunca vou esquecer. E ele me reverenciou, muito…A gente chorava no estúdio, e essa gravação fez Maynard chorar também, no telefone…Uma manhã cheguei no estúdio e tinha uma galera se preparando para uma “big session”, e não acreditei…eu iria encarar, simplesmente, Vinnie Colaiuta na bateria, muito gente fina, alto astral, me pedindo as partes e sugestões de levadas, Jimmy Johnson, no baixo, elogiando as canções, Bruce Gaitsch, nas guitarras e violões, dedilhando e saboreando minhas harmonias, o famosérrimo Alex Acuña montando seu set de percussão, e alguns dias depois, Larry Williams com seu sax e teclados…Não preciso dizer que me emociono ao lembrar que fizemos muito mais do que sucesso. Qualidade para sempre. Me lembro que em outra sala estavam rolando outras produções, com Ray Parker JR , com o produtor Ollie Brown, e o estúdio tinha um frenesi de celebridades, carrões, muito glamour de roupas e óculos, gente bonita, ensolarada e gentil, não sei se é um cenário, se é falso, mas aprendi que a Califórnia é um estado de espírito… Nessa temporada fui, com Ronnie, assistir um incrível show do David Samborn, no Hollywood Bowl, com direito a backstage/autografos/buffet no final…Ronnie foi chamado no palco, era íntimo daquela “gig”, daquela cena de LA…E dias depois houve um churrasco também, na casa de Bruce Gaitsch, em que todos foram, e todos me tratavam como uma personalidade – já que Coisas do Brasil tocava direto na Califórnia – e me elogiavam abertamente como compositor. Fiquei muito marcado por essa temporada imperdível da minha vida, muito pelo lado humano que encontrei. Tive até direito a um mini-terremoto, um tremor nível 4, quando acordei com um bate-bate dos quadros nas paredes, parecia um trem passando…Saí para o estacionamento, e todos os moradores estavam fora dos apartamentos…Fiquei sabendo que isso era normal…Na volta para o Brasil, outra vez emplacamos com “Ouro”, tema da novela Sassaricando, e com “Um dia um adeus” na novela das 8, Mandala. Um outro ponto positivo desse ciclo foi a gravação de “Imagens”, uma música precocemente ambientalista que eu havia composto especialmente como tema do genial e íntegro Fernando Gabeira para a Prefeitura do Rio – na fundação do PV. Um vídeo, para o Fantástico, em Poconé, no Pantanal, foi gravado e dirigido por Paulo Trevisan, e retratava a destruição da natureza pelo garimpo predatório. Um luxo !

( 4 de Outubro de 2013 )

Amarante

Rodrigo Amarante – um excentrico absolutamente necessário

Curioso, fui conferir o show no Sesc Pompeia.
Ví um artista concentrado, em sua concisão prolixa, seu mundo muito peculiar e ousado,em sua poética elaborada e muito pessoal, um transgressor suave e cortante.
Ví um cantor afinadíssimo que traz um antigo compressor valvulado na voz – e eu pensava que fosse “plugin” mas é de nascença mesmo…
Ví ousadia e completo domínio da plateia, em sua simplicidade descarnada, sua coragem perante um publico fascinado, sintonizado, coerente.
Uma garotada cult, salteada de saudabilíssimo niilismo melancólico, estrelismo e estrelato zero, em favor de uma clara proposta de arte. Arte é isso, e não o óbvio do sucesso.
Ouví uma profusão de ritmos ternários, toadas country/folk modernas e insistentes, resilientes, alinhavando um novo repertório de estranha beleza e pessoalidade. Assim como algumas resenhas que saíram, também reparei em notas caetanísticas, mas em mergulhos soturnos que remetem a suas aventuras por desertos do hemisferio norte, terras longínquas…
Amarante é um andarilho, um peregrino.
Taí, gostei !  ( 2 Outubro de 2013 )

SOS Mata Atlantica – a luta pelo Tietê

Amanhã, logo mais, domingo, vamos tocar num lugar muito especial. Em prol de uma causa nobre, necessária e infalível : a recuperação do Rio Tietê. Ela ocorrerá, por ser óbvia. E vamos estar celebrando essa consciência – não de um sonho, mas de uma realidade. Muitos não percebem, mas São Paulo vem mudando de perfil, passando de uma potência industrial primária, poluente, poluída, feia, para uma capital de serviços e de excepcional atratividade comercial, turística, cultural, vivencial. Uma metrópole é um grande negócio vivo. Percebamos o que aconteceu com Londres, metrópole que eu, particularmente, tanto amo e pude conhecer profundamente…sentí mesmo a alma daquele lugar… De uns anos pra cá, a capital britânica de transformou numa jóia turística, equipada com atrativos únicos…Parte desse sucesso começou com a transformação do Tâmisa, berço da cidade, meca da Revolução Industrial. A população de antigamente não amava o Tâmisa, era um símbolo de um processo precário, primário. O mesmo ocorreu com Paris, onde hoje o Sena, ex-esgoto a céu aberto, se constitui numa verdadeira praia, com afluência popular, orgulho, carinho e prazer de todos. Falemos de SP : é uma cidade-paradoxo. Apesar das dificuldades do povo, do sofrimento no transito, da desumanidade da metrópole, ninguém vai embora… Só chega mais gente. De todas partes do País e do mundo: cidade de diferenças sociais monumentais, de perversidade social inacreditável…Mas uma paixão de todos. A fama atual e mundial de São Paulo é de um comércio que tem tudo. O mundo comenta São Paulo, seus eventos, seus distritos de consumo, prazer, cultura, noite, gastronomia, badalação. E cada vez mais e mais essa movimentação é motivadora de lucros. A hotelaria paulistana é gigantesca, vive lotada, e a velha terra da garoa é hoje uma metrópole de serviços e de convivência urbana, em substituição progressiva da velha potencia industrial… Por vários motivos – incentivos fiscais, oferta de matérias primas e de mão de obra, de viabilidade econômica, a industrialização do Brasil segue um processo de descentralização, interiorização, se espalhando por distritos no Norte, Nordeste, Centro e Sul … Sabemos que a Ponte das Bandeiras simboliza a importância do Rio Tietê para o surgimento da grande São Paulo, ponta-de-lança da grandeza territorial da terra-brasilis. Das margens desse rio partiram as expedições, tão celebradas nos sangrentos livros de História – para mim, e para muita gente que leu a respeito – e que pense como eu – um movimento épico, grandioso, mas completamente predatório, extrativista, saqueador, escravagista…Movimento necessário somente na medida em que o Brasil foi constituído assim mesmo, aos trancos e barrancos. Ninguém é pueril…Hoje não estaremos celebrando esse lugar como um marco de uma História atabalhoada, onde ainda há tanto por fazer… Mas estaremos celebrando o berço da cidade, motivo dela existir. E para esse leito a velha Piratininga voltará. Haverá um dia em que esse modelo ultrapassado do individualismo automobilístico estará ficando para trás. Um dia como este, em que os carros ficaram em casa. Dia em que os ricos andarão de transporte coletivo. Dia em que os pobres em ascensão social não precisem nunca mais se endividar, inadimplentes, pra comprar carros de 4 lugares com um trouxa, motorista ludibriado na direção, parado na traquitana imóvel das ruas que só gera prejuízo, impotente ao pressentir seu tempo perdido fluir como esse rio de esgoto, só para dar sustentação a projetos políticos e milagres econômicos de ilusória prosperidade. Dia em que a convivência da cidade superar a brutalidade boçal do “cada um pra si”, que sempre contaminou a “Pólis”, o processo histórico (que enquanto patinou assim, não avançou, e só evoluiu quando houve um pacto, por colapso e necessidade de sobrevivência) . Hoje é dia de celebrar que, lá no final, lá na frente, num outro tempo que urge, mais cedo do que se pensa, depois que tudo que for errado tiver não dado certo, que todas as enganações e modelos alienígenas tiverem dado em nada, em que os frágeis ciclos econômicos, equivocados, tiverem exaurido sua riqueza instável, mesquinha, pequena, lá no futuro urgente, restará o Ser Humano, as pessoas, e elas estarão novamente num pacto de amor e parceria com esse rio. E o Tietê correrá até lá, pois a sua água foi e será indiferente. Os problemas e absurdos são só nossos. Ela, fluida e misteriosa, não está nem aí . Como sempre, vai levando e lavando tudo, eternamente. Pneus, carcaças de carros, sofás, garrafas pet, metais pesados, milhões de toneladas de fezes in natura, lixo, nossos fracassos, e o que mais somos capazes de produzir para assorear nossos destinos. A agua vai correr, correr, como o tempo da nossa ilusão. Lá no fim, a nossa celebração de hoje se justificará : as margens estarão reflorestadas, e a velha-jovem Piratininga se banhará nas águas piscosas, originais, como se nada jamais as houvesse perturbado. É por isso que hoje estaremos naquelas margens, por puro e absoluto prazer. Nada mais. Que o politicamente correto fique de lado, com sua chatice careta. Que as crianças, pequenas e grandes, serão arrebatadas pelo lúdico, que é o prazer da humanidade. Porque numa sociedade hedonista, o prazer estará em primeiro lugar, e o futuro de uma capital milionária do prazer exigirá o Tietê vivo, porque ele, vivo, estará dando muito mais lucro do que morto. ( 22 Setembro de 2013 )

California Dreamin´- a preparação

A pessoas olham pra uma carreira de 40 anos e pensam : ”imagine quanto sapo um artista tem que engolir pra fazer sucesso…” , mas isso nem sempre é verdade. De minha experiência, posso dizer que há casos especiais – eu sou um representante destes… Desde os primeiros discos, todos os produtores sempre me foram respeitosos, talvez eu tivesse um componente de erudição, misturado com mito de infalibilidade, complexo de “midas”, auto- confiança e impetuosidades, numa combinação intimidatória…O fato é que, mesmo dando um trabalhão danado pra convencer os diretores de “A&R”, sempre gravei o que eu quis, como quis, com quem quis. Tinha que ter flexibilidade, também, pra sobreviver num meio tão complicado…
Em 1984, eu andava meio perdido no meu caminho na Som Livre, tinha feito um compacto, com Fio da Navalha ( tema de Raul Cortez na novela Partido Alto ), com arranjo de Serginho Trombone e formação de músicos da Banda Black Rio…uma experiência bizarra , idéia minha mesmo – e que foi plenamente viabilizada por Guto Graça Mello…Também havia produzido , a convite de Guto, um LP inteiro para o especial Prilimpimpim 2, em parceria com o poetaço Paulo Leminski , onde eu cantava “Xixi nas Estrelas”…Mas a gente não estava emplacando sucesso com a mesma usual facilidade… Resolví então, no 2º. semestre daquele 84, procurar Marcos Maynard, diretor artístico da grande CBS, onde todo mundo estava “estourado nas paradas” – Ritchie , Fabio Jr, Djavan, Metrô, Radio Taxi, Simone, sem falar no Rei, Roberto Carlos… Bem, era uma espécie de “Barcelona” dentre as gravadoras da época….Me lembro bem que nesse ínterim, fui fazer um show em Maceió , e recebi no camarim a visita do querido Djavan, que honra…aquele gênio maravilhoso me prestigiar…Naquela noite ele me deu um toque, que o pessoal da CBS estava mesmo de olho em mim, e me aconselhou que eu deveria pensar seriamente pois eu iria me dar muito bem lá….
Contato feito, Maynard me apresentou um grande tecladista, o Lauro Salazar, muito moderno e sofisticado, que vinha de boas produções e sucesso estrondoso com Ritchie, Dalto, etc…e no verão de 1985 batemos essa bola juntos, na pré-produção, gerando uma sonoridade nova pra mim…Foi a primeira vez que Leo Gandelman gravou comigo, participando de várias faixas, ( Cheia de Charme, Estrela Sensual ), abrilhantando meu som com seu sax quente, magistral, em solos inacreditáveis. Também pude contar com a participação de Sergio Dias Baptista na guitarra de “Olhos Vermelhos”, um solo histórico… Bem, esse disco estourou logo de cara, e a máquina da CBS se mostrou um motor de muito mais cilindradas do que tudo que eu já havia pilotado…Loucura, loucura…Aproveitei o momento oportuno daquela contratação pra mudar com a família e tudo para o Rio, pra Rua Francisco Otaviano, no Posto 6 – divisa com o Arpoador , aluguei um apartamento excelente, no limite das minhas possibilidades num prédio coladinho no Forte de Copacabana, um lugar cinematográfico…300 graus de oceano nas janelas e varandas, um espetáculo… Pois saibam que quem me ajudou, prontamente, sem pestanejar, como “fiador” foi o queridíssimo Raimundo Fagner…pois eu não tinha parentes no Rio e pedir para amigos ou conhecidos seria constrangedor. Sou muito grato a esse colega generoso…. Meses antes, ainda morávamos em SP quando faleceu nosso grande amigo Julio Barroso, e resolvi mudar de ares, conquistar o Rio era imperioso naquele momento…Pra mim, era um “tudo ou nada”.. Embora eu não tenha nada a ver diretamente com isso, aquele foi ano do primeiro Rock in Rio, em que eclodiu de uma vez o que se chamaria o RockBR dos anos 80…Tudo o que se entende por “estrutura de show” nasceu, mesmo, naquele período. Não é preciso lembrar que dali pra frente, virei um nome nacional, pois vencí uma barreira imensa e consegui estourar no Canecão, templo da música em Botafogo, na jugular do Rio de Janeiro.
Em 1986, logo depois do sucesso desse disco “Despertar”, recebi uma visita de Claudio Condé , vice- presidente da CBS, junto com Ronnie Foster, um grande produtor americano, músico exímio ( piano, órgão, etc..) e que vinha de boas experiências anteriores com a CBS,mais especialmente com Djavan no monumental LP “Luz”… Ronnie já tinha na bagagem trabalhos com Lionel Ritchie, George Benson, e era figura super carimbada entre os “session players” da cena mais nobre de Los Angeles…Ali começaria mais uma fase radicalmente nova na minha história. De tanto eu ouvir a chamada “new bossa” inglesa , coqueluche na época, fiquei profundamente impregnado pelos trabalhos de Sade Adu, Matt Bianco, Everything but the Girl, Aztec Camera, Spandau Ballet, etc… e , numa tarde chuvosa de domingo, acabou saindo sem querer uma melodia bem carioca, com clara influência de Tom, Marcos Valle, Johnny Alf, Donato, e os meus ídolos primordiais da bossa nova…Meu velho parceiro Nelson Motta era meu vizinho, e bastou atravessar a Francisco Otaviano pra eu levar a melodia numa fita cassette. Dias depois, nasceria “Coisas do Brasil”, um dos maiores golaços de que participei na vida… Fizemos ainda “Calor”, a musica-título do que seria meu novo LP para 86, o primeiro totalmente aclimatado no Rio… Ronnie chamaria para o estúdio Transamérica o famoso baterista Harvey Mason, e incorporaria integralmente a minha banda de shows daquela temporada, Leo Gandelman, Luis Carlini, Paulo Soveral, Marinho, e ainda arranjos jobinianos do velho companheiro de Planeta Água, o maestro Eduardo Souto Netto. O sucesso fantástico desse disco me levaria, no ano seguinte, a Los Angeles, para gravar e fazer amizade com os maiores músicos do mundo, a próxima parada nessa história, que concluirei a seguir…
Ah, como era bom o nosso mercado em vinil !

( 28 de Setembro de 2013 )

Vintages

ELKA RHAPSODY 610

“Bem, esse analógico anti-diluviano é, literalmente, im-po-ssí-vel de ser encontrado inteiro!!! Só eu mesmo pra ir atrás!!! E olhe que estava com a placa mãe moída, teve que ser ressoldada pelo amigão Gerald, um “black” genial de Raleigh (Carolina do Norte, USA), professor de órgão e músico talentoso… Este, que veio da Alemanha, ainda é 240 Volts… e deu um trabalhão pra estar aqui… É que tem toda uma história em torno dessa “string machine”… Era muito usada por Jean Michel Jarre, por Tangerine Dream, Vangelis, Genesis e, mais especialmente, por Gary Wright, na inesquecível canção “Dream Weaver”. No Brasil, o Azimuth tornou esse timbre imortal em “Linha do Horizonte”, um hit inesquecível dos 70. Outras canções importantes onde ele estava lá são as minhas “Meu Mundo e Nada mais” e “Amanhã”, e a maravilhosa “Nuvem Passageira”, de um contemporâneo meu, gaúcho, o grande Hermes Aquino… Bem, eu queria, porque queria ter novamente um Elka Rhapsody nas mãos, já que as emulações em plugins chegam perto, mas tem “algo” que só sai daquele monte de transistors e capacitores velhos… é uma flutuação em chorus embutida numa faixa específica de frequências… A Elka foi um fabricante italiano que foi comprado pela GEM, e a linha toda foi descontinuada… Quem aprecia essas coisa é o meu amigo Astronauta Pinguim , que encontrei numa gravação com Edgard Scandurra…”
( 21 de Setembro de 2013 )

 

CLAVINET HONNER D6

“Bem, este clavinet teve um só dono, um professor de piano em Baton Rouge, Louisianna, pertinho de New Orleans, (escapou do Katrina, e veio parar em Jacuípe).
Tem até uma plaquinha da loja “Kenny Gill Music”, uma loja que foi desse famoso guitarrista…Esse eu trouxe “no braço”, porque um D6 nessas condições (novinho em folha), é realmente uma raridade…Os Clavinets rodaram muito em shows, daí sua condição precária…
Gosto muito do acento do clavinet, com sua pegada slap, realçando frases de baixo/piano (está evidente em “Deixa Chover”) e modéstia à parte, sou mortal tocando um D6 bem afinado… pra reggae, ska, até samba, e mais especialmente funk/fusion, não há nada como um D6 envenenado com um envelope-follower como o Mutron III…
Nada mais funky (Sly & Family Stone, Stevie Wonder, Kool and The Gang)…
Quem mata a pau num desses é o meu amigo Ed Motta! Estou esperando ele vir na Coaxo pra gente entortar essa tecladeira a 4 mãos”.
( 25 de Setembro de 2013 )

Moto Perpétuo !

MOTO É PERPÉTUO ! As aventuras de uma banda inigualável

Eu era um garoto ainda, e meu pai , vendo que eu tinha gosto pela coisa, sugeriu que o Solano Ribeiro, nosso primo, seria um bom contato pra mim, na música popular…( mais uma vez, Gelson fazia e fez a diferença, secretamente sonhando em ver o Guilherme na música – nunca assumiu muito isso, inclusive ele se arrependeu muito depois, mas essa é a verdade , devo tudo a meu pai ! ) Dessa forma, os embriões da saga do Moto Perpétuo e do Guilherme Arantes começam lá atrás, no longínquo ano de 71 – ( nos meus tenros 18 anos de idade ) – quando fui conhecer meu primo em segundo grau, o querido Solano. Através dele, muito de minha carreira posterior fluiria… Filho de uma prima do meu pai, Solano é uma sumidade em música popular, tendo em seu currículo admirável a direção dos mais importantes festivais, programas de TV, produção de discos antológicos e participação decisiva no que de melhor a musica brasileira apresentou em toda sua história… fui então ver uma produção dele no Teatro Ruth Escobar, a peça “Plug”, com participações de Carlos Lee ( incrível artista, cantor e poeta Dylanesco, com letras visionárias, inesquecíveis) , o maravilhoso grupo O Bando, de músicos magistrais, e envolvendo multimídias e performances com Rogerio Sganzerla, Rogerio Duprat e muitas outras pessoas incríveis da época…Pura contracultura ! O Teatro Ruth Escobar, no Morro dos Ingleses,junto com o Teatro 13 de Maio ( atual Café Piu Piu ) se constituem num pedaço considerável da minha vida. Muito do que vim a ser e que ainda sou está ali, secreta e sagradamente fincado, em amizades, casas, pessoas, sons, imagens, vivências e gratidões eternas. Naquelas escadarias, naquela praça, naquelas peças de Genet, montagens revolucionárias de Camões , nos incontáveis shows, sessões malditas, debates, se formou toda uma geração da cultura brasileira. Fiz parte disso. Nunca vou me esquecer. Naquela peça, Plug, conheci os maravilhosos músicos do grupo O Bando : a incrível e talentosa Marisa Fossa ( cantora ), Paul de Castro (guitarra),o Dudú Portes ( bateria), o Emilio Carrera ( tecladista), o Americo Issa ( guitarra, vocais ), Rodolfo Grani Jr, excelente baixista que se tornaria um amigão, e uma pessoa muito especial na minha vida, o baterista e compositor Diogenes Burani . De cara, houve uma identificação com Rodolfo e com Diogenes… Eu era fascinado pelo Bando, seus arranjos com duas baterias poderosíssimas, os riffs Led Zeppelinescos , era uma banda de muito respeito e virtuosismo psicodélico. Eu nunca tinha visto de perto nada parecido . As bandas de baile do passado ficariam a partir dali, sendo fichinha, brincadeira de amadores. Diogenes, numa tarde fria e cinzenta, me deu uma carona inesquecível na garupa de sua moto, uma Zundapp barulhenta… Rebelde e brilhante, Diogenes se tornou um ídolo. Era como que um irmão mais velho, pra mim – o irmão que eu não tive. ( agora…não consigo não chorar…) . Mas O Bando estava com muitos problemas internos, era muito talento junto, saindo faísca… Acabaram indo em blocos diferentes, cada um pro seu lado… Passei a frequentar a casa de Diogenes e sua querida e saudosa mãe, Dona Santina…, na rua Rocha ( na Bela Vista, perto da 9 de Julho ). Me tratavam como um parente chegado…Eu me espelhava nos bons exemplos do Diogenes, que estudava musica compulsivamente 24 horas por dia, se tornando um monstro na bateria… Testemunhei isso, e posso dizer que ele foi, é , e sempre será um baterista, um músico e criador de nível mundial, um visionário. Ele e o Rodolfo foram então tocar com Walter Franco – outro gênio – que lançava seu álbum seminal Revolver , com experiências quadrafônicas ao vivo, no Tuca –( Perdizes )… Walter era ( e ainda é ) um guru, na melhor acepção da palavra…Me lembrava muito o Donovan ( outro guru do mesmo nível e importância para o mundo…) se tornou um mestre para todos nós…Com suas letras minimais e geniais, seus achados…Tempos depois, Diogenes me ligou pra saber se eu tocaria com Jorge Mautner, no Teatro 13 de Maio…Que pergunta !!! Mas é claro que ERA TUDO QUE EU QUERIA FAZER DA MINHA VIDA ! Jorge era autor de livros, como “Narciso em Tarde Cinza” , que eu não parava de ler, e que influenciaria o “clima chuvoso” das minhas letras futuras, e era autor de canções malucas, filosóficas, entre elas o sucesso Maracatu Atomico que Gil acabava de eternizar …E assim, fui ensaiar na casa do Rodolfo Grani, na Previdência, e estreei ali minha carreira musical…no palco, fumando um cigarro atrás do outro, ainda com algumas espinhas na cara, super nervoso…Vou ser nababoô, vou ser nababuê…O relógio quebrou…e o ponteiro parou… O herói tem uma capa de estrelas…Tocamos também no Ruth Escobar, e quase que pintava uma viagem pra Bahia…Quando Diógenes falou que queria montar uma banda comigo ( eu tinha algumas canções com forte influencia de Milton/Clube da Esquina, umas levadas de 3 /4, de 7/8 , e até de 11 /8, quebradas, bem progressivas… )eu logo pensei no Rodolfo, mas este estava envolvido com Walter, com Jorge, não quis vir… Havia então um colega de Arquitetura na FAU, o Claudio Lucci, muito erudito, professor de violão que morava no Pari, e que também gostava de progressivos italianos ( Premiata Forneria Marconi, Le Orme, etc.. ) e chamei pra um papo comigo e com Diogenes. A gente tinha tudo a ver… Era o embrião da nossa própria banda…Pra mim, ter Diogenes comigo era um sonho, pois era mais experiente, e um músico totalmente acima da média… Ele logo lembrou de dois músicos que poderiam estar com a gente, o Gerson Tatini, um baixista monumental que morava na Aclimação, que curtia Gentle Giant, Yes, bem esquisitão… que tinha uma imensa aranha caranguejeira como xodó, dentro de um aquário de vidro, no quarto… E o Egydio Conde, um guitarrista também excepcional, com estilo bem Gilmour, bem Clapton, bem Beck, um luxo de pessoa, culto, elegante. Morava nos Campos Elysios, e eu me lembro que o pai dele fumava cigarros (muito) fedidos da legendária marca Petit Londrinos ( bizarro!)…Fiquei amigão de Egydio , também, a gente dava muita risada de tudo, identificação total…
Estava fundada a banda, e passamos a procurar um nome… Teve muitos candidatos… me lembro de “Parágrafo”…absurdo…Moto Perpétuo foi um nome que eu sugerí, e a gente logo se acostumou a ele – havia outras opções, mas acabou pegando esse nome… Na época, os Secos e Molhados tinham logrado um sucesso descomunal, tendo por fundamento o mesmo território efervescente do Bexiga: Teatro 13 de Maio, Morro dos Ingleses… Era impossível não falar e pensar nos Secos e Molhados , uma banda de qualidade fenomenal, tanto nas canções, nas letras, no cantor ( um verdadeiro gênio carismático e revolucionário, Ney Matogrosso ) . Conversei com Diógenes, e fomos procurar o empresário dos Secos, o queridíssimo, culto, arrojado e visionário jornalista Moracy do Val, que nos recebeu prontamente em seu apartamento na Alameda Lorena, ficando entusiasmado conosco… Moracy tinha um secretário, o Juracy Almeida, que se tornou instantaneamente nosso irmão. Pra mim, eterno. Acompanha a minha vida até hoje ( e continua igualzinho-da-silva, não envelhece, é um Mestre Yoda, hoje fortalecido em seu budismo exemplar…) Moracy estava repleto de problemas com as confusões de João Ricardo versus Ney, lá nos Secos…A banda estava se dissolvendo, para desespero dos milhões de fãs, como nós, e para desespero de Moracy, que estava sendo posto de lado pelo pai do João Ricardo, o jornalista e poeta João Apolinário… Lamentável, o final dos Secos daria muito pano pra manga, e a gente acompanhava passo a passo o inicio da carreira solo de Ney , uma grande estrela, e a tentativa de carreira solo do João Ricardo, com seu álbum de estética absolutamente fake-gay…Um fiasco total, apesar de ter o “midas” André Midani bancando…Que mico ! Enquanto isso, a gente andava de ônibus, e procurava um lugar pra ensaiar…Fomos então alugar uma casa no Brás, que era do sogro português do Sérgio, o irmão de Cláudio Lucci que trabalhava na Rhodia…O Claudio passou a ter um papel fundamental na banda, com suas ideias, suas amizades, suas soluções. Quase que um líder, trouxe para o nosso convívio alguns amigos leais, seus, de suas andanças ferroviárias no Brás, Mooca, etc.. Eram o “Zoio”, japonês, em cujo apartamento, perto do Ginasio do Ibirapuera, a gente se reuniu tantas vezes, e o Campacci ( o “Campa” ), um italianão que morava em Sapopemba e que faria a capa do nosso disco…Daí a musica dele falar em “Eram Três e Eu….” Claudio, com seu carisma de geminiano, era um agregador nato, e dava o tom ao Moto Perpétuo. Eu podia ter sido um líder no início, um mentor, mas os outros passaram a contribuir muito fortemente para a estética peculiar, a marca única da banda…O rigor das guitarras de Egydio, caprichosíssimo, melódico, sensual, as maluquices bizarramente musicais nas linhas de baixo de Gerson, a técnica infernal de Diógenes, com suas visões periféricas, geniais, os violões impecáveis de Claudio, suas incursões ao violoncello , fizeram o Moto logo explodir naquele quartinho de ensaios, no Brás, como uma música fulminante, da qual nos orgulharíamos pra sempre, sem uma única restrição, um senão, um retoque. A História nos julgará. Foi uma banda perfeita e ponto final. Fomos uma das melhores bandas de todo o movimento progressivo da época. Outra bandaça era o Vímana, do Rio, com Lobão, Lulu , Ritchie e Luis Paulo Simas. Outras de igual quilate eram o genial O Terço, com Sergio Hinds, Magrão, Flavio Venturini, óbvio, o Som Nosso de Cada Dia, com Manito, Pedrão Baldanza , Dino Vicente, e Pedrinho “negão” Batera, os divinos Mutantes.. . Que geração, a nossa ! Que orgulho nos dá ,hoje, vermos do que fomos capazes de fazer, com tão parcos recursos, na nossa mocidade ! Como a gente tocava, caramba ! Até hoje, não tem pra ninguém. Quem viveu, viveu. Quem estava lá, viu. A comparação que faço, hoje em dia, ao contemplar esse período, é com a Era dos Descobrimentos, em precárias caravelas de madeira ! É igualzinho !
Pois bem , na casa do Brás logo apareceu uma maitaca verde, um papagaiozinho que nunca falou uma única palavra… Era o Franz.. . Havia um cartaz escrito : “Ave Recalcitrante. Não perdoa, Bica !”…O Egydio havia comprado…finalmente…sua sonhada Fender Stratocaster, uma obra de arte, linda, em mãos tão talentosas…Pois ele estava mostrando , maravilhado, a guitarra pra nós, tirando cuidadosamente da embalagem, e eu, idiota, im-be-cil fui brincar com um martelo , falando, “…imagina se eu deixar este martelo cair…nessa guit….arrahhhhh…..” pois o maldito martelo caiu EM CIMA DA GUITARRA – XODÓ DO EGYDIO e fez um estrago no esmalte…Ele queria me bater…Com razão ! Os outros apartaram, eu fiquei com cara de idiota que eu era ….Merda….Como eu era crianção, como eu era inconveniente, até hoje não me perdôo por esse momento de bobeira desnecessária … Desculpe, Egydio ! …quase 40 anos depois…ainda não me perdoei ! Você me perdoou, mas eu não !
Aos trancos e barrancos, o repertório ficou pronto, e Moracy, que estava com moral na Continental ( do velho Byington ) nos ligou, oferecendo a oportunidade de gravarmos com o produtor Pena Smith nos estúdios da Sonima, na Av. Rio Branco. O ruim é que seriam só 5 dias, de segunda a sexta, num estúdio de…8 …canais… Lembro que Gerson foi frontalmente contra, pois as grandes bandas precisavam no mínimo de 24 canais…Seria uma loucura…Brigamos muito, mas eu decidí topar, e a gravação foi uma maratona de gambiarras sem fim… Baixo somado com bumbo num canal, batera toda mixada em outros 2, guitarras e teclados em mais dois, e assim por diante…O resultado, claro, apesar das qualidades do velho Pena, ficou muito aquém do que esperávamos, e do que a banda merecia…Mas foi o que pudemos ter… Disco feito, a capa foi elaborada pelo Marcos Campacci, o “Campa” de Sapopemba, mostrando em uma colagem as nossas fotos altivas de jovens com idealismo e muito orgulho desde o primeiro instante…E esse orgulho é diferente da arrogância. É pura a beleza dos nossos olhares …Como me emociono ao ver o quanto éramos, fomos e ainda somos íntegros ! Bem, naquela altura só restava ver quando e como o LP sairia…A Continental tinha uma “janela” de lançamento naquele final de ano de 1974, mas isso atrapalharia o lançamento de uma outra banda, do Rio, produzida por uma sobrinha do Byington (dono da gravadora) e essa banda era a Barca Do Sol , com os geniais Nando Carneiro, Jacques Morelenbaum, apadrinhada pelo Egberto Gismonti, e “darling”de figuras midiáticas da época, como Ana Maria Bahiana , um verdadeiro bicho-papão da revista “Rock”… Nem é preciso dizer o que aconteceu, certo ? Como nós batemos o pé com Moracy do Val pra sairmos logo com o LP , houve um massacre total nas resenhas especializadas. O Moto Perpétuo se viu, de cara, jogado na lixeira da “crítica”, saindo para as vendas no final de 74. Mas saímos, era o que importava… Logo tivemos o show de lançamento, no dia 11 de Novembro de 1974, uma mera segunda-feira, no Teatro 13 de Maio, que era dirigido pelo Benê Mendes…Até a “jararaca” da Ana Maria Bahiana foi…E foi um show incrível…Órgão Hammond com Leslie, Fender Rhodes com Echoplex Maestro , Clavinete Hohnner, tudo ali, alugado pelo Moracy, pra mim… Diógenes já com sua Ludwig metálica, bumbo duplo de 24, Egydio com sua querida Strato ligada num Twin Reverb…Gerson com seu Rickenbaker preto-e-branco, Claudio com seu violão Soros, sua Gibson semi acustica… eu me lembro de tudo, tudinho, parece hoje…. A FAU em peso, os amigos do Bar Riviera, a turma do Redondo, nossas namoradas, os cunhados, todo mundo lá, de uma vez… Me lembro da luz apagando, o teatro escuro, a primeira musica, “Mal O Sol”… Foi HISTÓRICO !
Os críticos cruéis passam, o mundo muda, mas o nosso acervo FICA
SÓ A HISTÓRIA NOS JULGARÁ.
E O MOTO SERÁ SEMPRE PERPÉTUO .

( 14 Set 2013 )

 

( complemento )

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Quero que todos saibam, e especialmente as pessoas citadas nos textos recentes, que se me dispus a contar essas histórias, fui movido pelo afeto, pela gratidão, pela boa lembrança, pelos momentos e cenas que não se apagam…personagens queridos de nossas vidas que só pertencem a nós, guardadinhos nos mínimos detalhes. Fiz da generosidade um mote, um denominador comum, alinhavando entre lágrimas as historias de um tempo tão difícil. E se fui injusto com alguém, ocultando ou esquecendo detalhes, peço que me desculpem. À vezes somos traídos achando que nossa memória é prodigiosa, mas a memória emocional é um oceano profundo, vasto…insondável…sempre haverá camadas e mais camadas de vivências, guardadas no cofre sagrado de nosso coração. Realmente, nas historias do Moto Perpétuo, muita coisa ainda ficou de fora..Por mais que eu me esforce, sempre restarão mais e mais mistérios e preciosidades. Por hora, ví que ficaram de fora a querida mãe de Claudio, Dona Zilda, que me entendia completamente, e que me recebia como um filho, junto com seu Armando, naquele Parí, sentindo cheiro de pão-doce da padaria, e mais tarde naquela Santo André na casa espaçosa, sempre uma comidinha carinhosa. Ficaram de fora o cheiro acre das tardes metalúrgicas e cinzentas do Brás, a Cantina do Largo da Concórdia, que há muito não existe mais – só nas lembranças – As mercearias podronas lotadas de pertences de feijoada, a linha Largo da Concórdia da CMTC, a nossa batalha, sempre andando de ônibus…Ficou de fora lembrar que foram anos de esvaziamento, repressão, Dom & Ravel e o “País que vai pra frente”, sem festivais de MPB para nos lançarmos – houve um hiato entre os antigos FICs da Globo ( quando brilharam Maria Alcina, Walter Franco – nota : O Diogenes tinha essa experiência na bagagem, mas logo pegou o “osso” junto conosco) e o Festival Abertura, aquele que anos depois revelou Djavan, Alceu, Melodia, Mautner, Robertinho de Recife, etc )
Mas a história não me incomoda, não…Se tenho tanto a lembrar, porque eu ficaria só fazendo músicas, musicas, músicas, alguém aqui neste espaço pessoal me surpreendeu e sugeriu que eu me calasse ? Que “deixasse de falação” ? Quem é que falou na palavra “mágoa” – aliás, “mágua” – essa seria a última toxina a contaminar a minha humilde, mas riquíssima história… Quem falou em “mágua” sabe o que é ter memória ? Ou só lembra se si mesmo, de seu umbigo ? Não tem memória para lembrar de nós mesmos ? O que há de errado em lembrar com carinho as jóias de nossas vidas ? E o que há de errado na gratidão ? Segundo o mais elevado de todos nós, o Juraci, é um dos estados do Buda. Aqui me escreveram : “Chega de falação”, mas o que é isto, invadindo o meu, o seu, o nosso espaço ? O que quiseram sugerir ? Que eu focasse somente na “música”, já que nesse quesito eu estaria muito a dever, porque cedi às tentações e me tornei um cantor popular ? Ficou, sim, de fora lembrar que não tivemos nenhuma facilidade, só pedreira. Ficou de fora contar que André Midaní nos esnobou, que aquele “midas” sapientíssimo da Phillips sugeriu que a única chance para nós seria acompanhando o “Rocky Horror Show”, um musical de Guilherme Araujo, no Rio, e que a gente recusou…. Ficou de fora lembrar do empresário Mario Buonfiglio e sua incrível maleta de microfones ? Lembrar do Gabriel Neto, empresário da excelente banda Apokalypsis, e que ambos “empresários” viraram a cara para nós ? Ficou de fora lembrar do Jacques Caleidoscópio e seu programa de doidões, nas madrugadas da Radio America, onde a gente ficou mendigando uma chance ? A verdade é que o mundo não estava preparado para nós, mas até aí não tem problema algum. O mundo, normalmente, sempre foi assim mesmo, nunca está preparado pra coisa alguma, só para o óbvio…Muitas vezes até prega na cruz, pra depois se ajoelhar perante a verdade… Ninguém aqui está magoado, combinado ? Somos felizes, deu tudo certo. Temos histórias pra compartilhar . Ninguém,nem nada, nos roubará esse acervo. E mais uma vez afirmo : a história nos julgará. E o que é perpétuo não cessará de se mover.

( 20 de Setembro de 2013 )

Carreira Solo !

Carreira-solo !
Estamos falando de um tempo em que escrevíamos cartas e aguardávamos 30 dias para uma resposta…Tempo de orelhão com ficha, calça boca de sino, em que liamos O Despertar dos Magicos, Aldous Huxley e Hermann Hesse. Em que víamos sessões malditas de Godard, Antonioni e Pasolini, íamos a shows do Papa Poluição e Odair Cabeça de Poeta e ouvíamos Pink Floyd – Atom´s Hearth Mother até na abertura do Jornal Nacional, naTV em branco e preto… Um dia eu conto as peripécias da montagem de minha incrível banda, o Moto Perpetuo… Um outro dia… Por hoje, quero me debruçar sobre o período em que resolví seguir o meu destino de cantor popular….As últimas lembranças do Moto Perpetuo, pra mim, foram do famigerado Festival de Aguas Claras, Iacanga, num pasto de fazenda, repleto de hippies, bandas progressivas, barracas de acampar, comida comunitária, argh… com um cheiro misto de cebola-com-banana…Mulheres de pé sujo, de vestido de chita, dançando capoeira…”paranauê…paranauê, paraná….” as grandes bandas ali eram o Som Nosso, o Terço, muito Johnny B. Goode e o refrão Go, Johnny Go,Go,Go… Me lembro que éramos outsiders sofisticados, com um som misturando Clube da Esquina com Yes…Gentle Giant.. Desde a chegada na tal fazenda, o cheiro do “banheiro” era inacreditável…um valão, com umas tábuas formando um vão pras pessoas cagarem num buracão comunal, uma “trincheira de fezes”… Alguns hipongas procuravam “seres” no riacho, pra comerem…Esses bichos-grilo chegavam aos magotes , pelas estradas, como que remanescentes perdidos de um woodstock permanente…Acho que essa tribo até hoje continua perdida pelas estradas e até pouco tempo atrás ainda comparecia, junto com os crucifixos de Ozzy, sempre que havia um chamado similar de “festival ruralóide”…Nós nos apresentamos debaixo de vaias e críticas, até pela nossa postura…Eu vestí terno-e-gravata, com colete de casimira inglesa…pedante, de propósito, pra chocar aquela hipongaiada fracassada…A gente optou por nos hospedarmos em Iacanga, cidadezinha mais próxima, à beira da represa, em quartos limpos, com direito a sanduiches na padaria e sorvete de limão na pracinha…Comprei uma moringa de presente pra D.Hebe, minha mãe, que é natural da região – de Ibitinga. ( até hoje essa moringa está em cima da geladeira da mamãe….Me lembro que alguém da banda me criticou pela minha absoluta falta de “espírito de Woodstock”, de não querer ficar junto com a galera dos acampamentos…Realmente, me descobrí mesmo aristocrático e me perguntei o que eu estava fazendo ali…Em cima do palco, tratei de focar na luz forte do “canhão”, e aquela luz me acompanhou para o resto da vida. Até hoje eu vejo a mesmíssima luz. Ali, no palco do Festival jurei que, se alguém ali iria durar e fazer carreira, esse alguém com certeza seria eu. Bem, o fato é que depois daquele “desastre promissor” eu e o Cláudio tentamos algumas incursões de divulgação mais “realista”, fomos parar no “Almoço com as Estrelas” do Airton e Pepita Rodrigues…Subí as escadarias da Cantina Don Cicillo ( na Pompéia ) carregando um piano Fender que eu havia comprado do Antonio Adolfo, no Rio… Parte da banda não foi – Diógenes , o baterista, ( e acho que também o Egydio, o guitarrista ), se recusou a ceder à “breguice” do Brasil…Humm…Fui só eu, Cláudio e o baixista Gerson Tatini… Eu tinha certeza que precisávamos ( ou eu sonhava com isso) do Brasil dos auditórios, das trilhas de novela, etc.. Então havia uma grave cisão na banda. Eu percebí que eu estava querendo mesmo ir cantar na televisão. Me sentia artificialmente amarrado a uma banda, tinha muitas composições, e sabia que era um cara bonito que estava na flor da idade…Um problemão era eu compor em português, o que era tabu na época, pois todos os lançamentos estavam sendo em inglês… Cheguei até a visitar o Cesare Benvenutti, produtor de alguns desses lançamentos tipo “Tell me Once Again”, etc.. Mas não me animei a me lançar como mais um “fake” de americano…No final de 75, gravei uma fita de rolo, em 7 1/2 polegadas, tocando piano e cantando Meu Mundo e Nada Mais, Antes da Chuva Chegar, Pégaso Azul e outras musicas que eu tinha…Foi no Estudio Pauta um estúdio monoaural ( 1 só canal ), na Rua Major Quedinho, onde então conhecí o dono, o querido Luiz Arruda Botelho…Peguei algumas cópias dessa fita e tratei de espalhar pelas gravadoras da época : a RCA, na Rua Dona Veridiana, a Philips, numa casa da av. 9 de Julho, e a Som Livre, que ficava numa sala comercial na Rua Augusta, pertinho da esquina com a Estados Unidos. Me lembro que me sentei entre os demais “calouros”, pessoas humildes, pobres, como em qualquer sala de espera de calouros de TV… . Essa era uma situação típica da minha convicção especial, da minha intuição : aquele era um lugar desagradável, onde meus colegas, todos, sem exceção, jamais pisariam…Só eu. Provavelmente por isso dei certo…Pra mim, nunca teve mico nenhum… Era novembro de 75, fazia um calorão de verão em SP e eu estava perdendo mais um ano na FAU, não conseguia passar do primeiro ano de Arquitetura de jeito algum, eu estava ferrado – meu pai andava de saco cheio com minha insistência musical…Brigava todos os dias, me chamava de vagabundo. O Moto Perpétuo não havia resultado em nada que pudesse mudar a minha vida. Só dívidas, sonhos, pouca gratificação além da qualidade musical…Pobre de mim…Andava sem rumo, e perto de me matar. Cheguei a ir até o teto do prédio, e abrir os braços na beirada do precipício. Meus amigos da banda ficaram magoados com a minha desistência, minha revolta, minha saída, e me encaravam como um traidor. Pensando em tudo isso, ali na salinha de espera dos calouros da Som Livre…quase na hora do almoço, fui chamado por uma secretária, Sueli, e fui recebido por um jovem produtor de bigode, Otavio Augusto, conhecido como Pete Dunaway – que gravava baladas em inglês e tinha sido cantor do Memphis, uma famosa banda de bailes do Círculo Militar…Eu já havia ouvido falar dele, pois havia produzido o disco “Fruto Proibido”, o trabalho excelente que finalmente brindou com sucesso a carreira de Rita Lee, ídola-maior da minha geração…Bati um papinho com Otavio, contei que eu tinha tido uma banda, o Moto Perpétuo, e que queria me lançar em carreira-solo. Ele me ouviu, foi super-educado, mas não prometeu nada, só disse que ia ouvir. Dalí , voltei para a casa dos meus pais, para o meu cotidiano triste e angustiado de batalhas sem resultado…Minha mãe chamou pra irmos no Natal passar férias no Guarujá…e fui contrariado, passar umas semanas lá, eles tinham comprado um apartamento na praia de Pitangueiras , e eu adorava ir pra lá pescar e fazer minhas letras, sempre solitário…Já perto de Fevereiro, mamãe pediu pra eu dar um pulo em SP e apanhar umas contas de luz, água, telefone, pois estávamos na praia desde o Natal…Quando estou abrindo a porta do apartamento, o telefone está tocando no hall – atendí – era a tal Sueli, que falou “Graças a Deus – é o Guilherme ?” Eu disse-“ Sou, porque ? “ e ela– “Aqui é a Sueli, secretária do Toninho Paladino, da Som Livre – Estamos há quase um mês ligando pra você, não consigo te achar, você tem que vir na Som Livre imediatamente ! Sua música entrou na Novela das Sete e você precisa gravar imediatamente…etc..etc…” Não ouví mais nada. Dei um pulo tão alto que batí a cabeça no topo do batente da porta, quase desmaiei…Dei um grito monumental… A minha vida havia dado certo !
Novela da Globo ! Era tudo que eu queria !…Chorei muito ali, na casa da mamãe, sozinho, numa alegria incrível e solitária… Corrí então para a Som Livre. Chegando lá, fui recebido com muitos sorrisos e muitos abraços do Antonio Paladino, da Sueli, e do Otávio Augusto : eu estava com muita sorte, pois eu estava sendo visto como o “Elton John brasileiro” ( Elton fazia muito sucesso com GoodBye Yellow Brick Road” , Captain Fantastic, etc.. Me colocaram pra assinar um contrato fonográfico ( 5% de direitos fonográficos pra mim ) mas eu não seria tolo em questionar nada : essa era a oportunidade que eu sempre busquei ! Gravar um tema de novela em português…Eu sabia que isso representava tudo de uma vez … Me lembro também que a Paulista ainda estava em obras do Metrô ( um buracão enorme ) e dali eu liguei ( no orelhão ) para o Guto Graça Mello, que eu conhecia desde uma gravação com a Bibi Vogel ( uma parceria com ela – Amor de Hora Marcada ) em que fui para o Rio tocar piano no Estudio Havaí… Guto me pediu pra adaptar a letra ao personagem Rodrigo ( vivido por José Wilker ) que sofreria uma traição no inicio da novela, e aí a minha música se encaxaria… Troquei, na letra, “Me atirei no mundo, ví tudo mudar…” por “Quando fui ferido…” e ainda compus uma segunda parte “Não estou bem certo se ainda vou sorrir sem um travo de amargura…” E assim, finalmente, fui para o estúdio da Gazeta, ali na Paulista, onde Otavinho havia chamado Chico Medori ( o Chicão ) , um baita batera, o Claudio Bertrami no baixo, e eu, por lealdade e companheirismo, chamei o Claudio Lucci pra tocar o violão…No estúdio havia um piano Steinway de cauda, velhão, com um timbre metálico, maravilhoso…e tinha também um Elka Rhapsody teclado italiano de Strings e eletro- harpsichord , o que resultou imediatamente num hit fulminante…Me lembro da cara do Otavinho rindo pra mim : é sucesso ! é sucesso ! Realmente, Otavinho era um craque na produção… Na madrugada seguinte, um sábado, a música estaria pronta…E a carreira-solo decolou. Nunca mais a vida seria a mesma pra mim ! O resto, é história.

( 13 Set 2013 )

Chorão e Champignon

 

Chorão, Champignon e a estética desesperada dos limitrofes…
Sempre gostei, e muito, das canções do Charlie Brown Jr, porque expressam o desespero das almas nos limites da existencia.
Podem especular o perigo rondando a todos que apresentam esse perfil angustiado, os vicios, os excessos, o descaso clínico com a propria saude, a depressão,a baixa auto-estima, mas nas letras e canções esses garotoscravaram muitas obras-primas. Meu respeito, admiração.
Os temas não eram meramente juvenís, as angustias existenciais estão ali no descarnamento corajoso da mesma qualidade intrinseca de um Rimbaud, de Baudelaire, da “geração perdida”, na melhor tradição trágica tão apreciada pelos tablóides, pelo pop star system…
Só sei que estou triste porque alguns fãs foram cruéis após a morte de Chorão, um outro ser atrapalhado, e colaboraram para que o valoroso Champignon entrasse num parafuso e fizesse essa bobagem, explosão de momento….Grande musico, segurou o maior rojão porque Chorão era uma personalidade dificil e complicada…Sem Champignon, Chorão não teria feito a obra que fez. Sem Chorão, Champignon ficou sem saber pra onde ir…Viveram, juntos e separados, vidas intensas, de altos e baixos…Faces da mesma moeda. Minha homenagem a eles : fizeram canções verdadeiras, sofridas, existenciais e muito belas.

( 10 Set 2014 )

Taça de Veneno – a Saga

“A gravação histórica de “Taça de Veneno”

Em 1991 eu estava enfrentando um dilema recorrente : eu precisava reatar o pop rock no meu som, pois eu acompanhava os movimentos do mercado na época, e me sentia bunda-mole demais com a velha CBS… A EMI Odeon, na época, estava com um cast muito vitorioso e importante …Paralamas, Legião, Kiko Zambianchi, Fernanda Abreu, Marina… eram pontas de lança de um trabalho definido em vídeo também, com produções caprichadas… eu estava na CBS/Sony em um fim de fase, onde a gente havia cravado muitos hits, mas o perfil daquele selo, pra mim, naquele período, era invariavelmente mais romântico-brega do que eu gostaria… eu me achava ultrapassado.. e eu já havia sinalizado em “Guarde o Coração”, “Pão”, etc.. o que eu queria ser e fazer… então lá fui eu para a EMI, me auto-produzir no CD “Crescente”. Aluguei o Mosh, chamei os músicos e dei essa direção de trazer de volta o Rock, o Pop mais “hard”, resultando num disco muito lindo, muito verdadeiro…Reuní então o velho Luis Carlini com o pessoal do Barão ( Roberto Frejat, Guto Goffi ) e gravamos, (numa noite memorável de sushis-sashimis-e muito sakê no estúdio) o que seria pra mim uma pérola no meu repertório : “Taça de Veneno” , uma música intensa com letra lancinante…O Carlini deu um show no solo, e Frejat , em dobradinha com Guto, um show no arranjo… Fiquei tão entusiasmado que dei para o Frejat o meu querido e velho pedal MXR Phase 100 laranja… ( eu me arrependi depois, e décadas mais tarde comprei um outro igual , que agora anda comigo nos shows….Mas isso é uma lembrança carinhosa de coisas tresloucadas que fiz…( nota : o Sergio Dias também ganhou pedais : um Morley Analog Chorus e um Mutron Flanger por suas brilhantes participações na minha carreira – mas esse é um capítulo à parte…conto depois…)

O som de Taça de Veneno é incrível… me lembro que viajei, com Oswaldo Malaguti do Mosh para New York, pra masterizar no MasterDisk… só no Masterdisk, foram 13000 dólares de custo do meu bolso…mas eu não me importava: esse momento de “virada” era fundamental pra mim….O disco “Crescente” teve um capricho muito grande da Cecília Assef, na época diretora de Marketing da EMI, em toda a parte gráfica e promocional…Tenho grande gratidão pela EMI, e pela qualidade que me foi atribuída…Taça de Veneno teria um vídeo-clip dirigido pelo genial Flavio Colker ( monumental fotógrafo de inúmeros créditos ilustres, que também fez a capa do disco, um artista muito especial e importante- curiosidade : é irmão da Deborah, a grande coreógrafa ) e entraria para a trilha da novela “Deus nos Acuda”…O vídeo, inclusive, mais tarde concorreu ao primeiro VMB, e guardo com carinho que só não ganhou porque os Paralamas estavam com uma obra-prima videográfica no mesmo premio…

endereço do video : http://vimeo.com/27397768

Essa música, será motivo de orgulho para mim, sempre . Obrigado, Carlini, obrigado Frejat/Guto, Oswaldo Malaguti, Flavio Colker, EMI !”
( 8 de Setembro 2015 )