Nova das Nove – a Cara do Brasil ?

Um dia, eu estava no Rio e fui comer alguma coisa numa brasserie do Leblon, local ultra- conhecido por ser “ponto” de um grande escritor de novelas, que frequenta  inclusive sempre na mesma mesa,se encontrando naquele cair de tarde junto com um emeritíssimo diretor de modernas novelas…
Não pude deixar de ouvir, curioso, “orelhão”,eu estava na mesa do lado…
O papo era a próxima novela, decidida em alguma reunião horas antes…
O Escritor perguntou para o Diretor qual seria a história… Em minha solidão atenta, dei um sorriso…

Pensei, por um segundo, com meus botões : porque esses caras não inventam uma novela para recapturar o publico jovem, hoje tão desinteressado no gênero, e que um dia fez dessa TV o império que se tornou… Me lembro do Jornal Nacional tocando Pink Floyd… Poderia ser uma trama ousadamente chamada “Sociedade Alternativa”, abertura com Raul, se passaria numa ilha, para onde as pessoas cansadas com o Sistema, tentariam um modelo 100% hippie e transgressor… Poderia até depois descambar para a velha cupidez, a velha luta pelo poder, sofrer uma decadência,uma desilusão destrutiva, como o proprio caminho da Contracultura,  mas o ponto de partida seria inovador… no mínimo, balançaria estruturas narcotizadas pelo óbvio…  Então acordei do meu delírio, ouvi novamente  eles conversarem….
Vem aí a nova trama das nove…
Redundantemente, mais uma luta de inescrupulosos pelo “butim” de uma família rica do Rio de Janeiro…
É sempre igual, ninguém vê ninguém trabalhando.
O dinheiro é uma fortuna que será disputada por um batalhão de parasitas.
Fortuna construída num passado de esplendores, jamais se vê construir nada.
Essa fortuna, sempre em poder de uma família milionária, um Grupo com nome pomposo, do tipo”Monteiro de Queiroz”, uma Fundação “Amoedo de Castro”, domínios de algum clã, em cuja mansão, nas encostas do Jardim Botânico, ao sovaco do Cristo, sempre ali, se passa todo o “núcleo rico” do enredo, com suas salas decoradas com móveis estratosféricos, decorações inatingíveis, cristais e objetos de arte ostensivos e obscenos. Enquanto isso, no “núcleo pobre”, aclimatado numa favela suave e digestiva, as pessoas são mais humanas e verdadeiras, lutam com o dia a dia, e sobem na vida. Corta então para uma trilha sonora “inclusiva”, com sertanejo, pagode e funk, pura diversão. Ali, o pessoal ainda é visto batalhando, pra conquistar identificações… Alguém do “núcleo pobre”  dá um golpe, pra ficar com toda a grana da mansão, e até um outro personagem rico se casa por amor com alguém do núcleo da favela…

Arquétipos sem fim. Obviedades.
Será que o Brasil não vai mudar nunca ?

Pedí a conta, cumprimentei os dois, até porque me reconheceram… foram amaveis, delicados…Me convidaram a sentar ali, com eles, mas estava ficando tarde, eu não queria atrapalhar os dois nem invadir aquele espaço mágico da ficção, então me retirei, de volta ao meu mundo trivial, um mundo bem diferente, cuja equação é bem mais complexa de se resolver do que num folhetim…  Será ?

Tecnofobia

Não há nada que me desvie mais do “normal” do que alguma máquina não atender ao chamado. Meu computador mais importante, aquele que levei meses configurando – e que finalmente rodava tudo que eu precisava – piscou, travou, apagou. Na volta, ficou “rodando a bolinha”, sem “boot”,  e simplesmente me largou na mão, justo quando eu estava fazendo uma música ( finalmente, depois de longa estiagem e inércia criativa… ). Parece ridículo, mas é trágico, perturba tudo o mais…Eu fico num estado de irritabilidade, de intratabilidade que dá até pena de quem estiver por perto… Já sou “reclamão” e “trágico” por natureza… Nessas horas é que percebemos o quanto somos a cada dia mais dependentes, vamos capengando de placa-mãe em placa-mãe, de iphone roubado a ipad travado, atualização desastrada de sistema, “firmware” instalado “by automatic demand”( e que não era pra fazer ) , incompatibilidade de plugins, 16 bits, 32, 64 bits, migração de 286 ,386, 486, Pentium II, III, 4, PowerPC para Intel, I3, I5, I7, Usb para Usb 2, para Usb3, Firewire, Thunderbolt, de IDE para Sata, de Win XP para Vista, para W7, para W8, para 8.1, OSX Tiger, Leopard, Snow Leopard, Lion, Mountain Lion, Mavericks para Yosemite, e a grana então ? Já fizeram as contas ? É bem verdade que hoje as máquinas só faltam andar nas águas e transformar água em vinho, mas o problema é com a gente…sistema nervoso , coluna cervical e lombar em frangalhos… O computador é um tirano. Às vezes dá saudade do velho gravadorzinho cassette com microfone e falante embutido. Mono. Era muito mais rápido, eu fazia uma música por dia… Hoje é um tal de inicializar, configurar, um silêncio estarrecedor até tudo estar rodando… Quando está rodando. Quando não está, dá vontade de pegar o martelo, a marreta…e nem vou dizer o resto. Mas vontade é coisa que dá e passa.  Aliás, estou começando a aprender a não ter mais vontades e desejos – eis a chave da felicidade :  a pessoa deixar pra lá…chutar o balde, jogar a toalha, se entregar ao ócio. Não fazer nada e pronto. Virar Guru e esvaziar a mente. Sabe quando o Guru atinge o “Bharata” ? Quando deixa a barba e o cabelo crescerem desgrenhados, já nem toma banho mais, convive com roupas sujas, restos de comida e até excrementos, atingindo um Estado de Abandono, de Esquecimento e Esvaziamento Pleno : Iluminação . Atingir o “Bharata” seria um misto de indiano com kafkiano… Mas como temos que seguir o cotidiano, dá licença que eu vou lá na Assistência Técnica saber se as minhas esperanças já viraram sucata…Saber se o que me resta é comprar tudo de novo, e alimentar essa usina de lixo que é a modernidade. Meu bom humor hoje depende da bolinha parar de girar e o futuro abrir sua tela para mim.

o Carnaval, o Carnaval, o Carnaval….

( Fevereiro de 2015 )

Com todo o respeito a toda cultura envolvida, sei que é parte de nossa identidade , de nossa essência como povo, o lado “bufo”, irreverente e alegre da Terra Brasilis, mas eu não suporto mais o Carnaval. Um dia, gostei. Não tenho mais saco nem pra ver…

( 16 de Fevereiro de 2015)

Gostar ou não de carnaval não tem nada a ver com a idade !

Acho legal a celebração da vida, de se estar vivo.
Celebrarmos que temos saúde, por exemplo, já é uma Mega Sena na vida de cada um de nós…
Os “bacantes” são também uma forma de rito, e o Brasil se parece com a Índia em muitos aspectos do colorido, da alegria, do lúdico primordial, não tem nenhum problema em se gostar de Carnaval …
Eu curti muito, inclusive tive a honra de sair pelo Salgueiro, na Ala dos Compositores, uma experiencia indescritível até porque a gente ganhou naquele ano…
Me lembro também dos carnavais de criança, no interior , ou na praia, os corsos, os clubes, sempre uma alegria genuína…
Na Bahia, em Pernambuco, tive ótimos momentos de carnavais, o coletivo sempre nos contagia com uma força muito grande.
Mas não sei não, ando meio ressabiado com essa combinação do “espirito bufo” da Terra Brasilis com uma sensação permanente de fracasso de nossa Pátria, uma esculhambação interior de ser parte de uma terra tão atrapalhada, que nunca deslancha. O Carnaval me soa uma muleta espiritual para preencher uma grande lacuna que existe no Brasil, enquanto Pàtria.
Parecemos deserdados, desterrados numa “alegre” nação triste.
É só isso. Vontade de que muita coisa mude.
Mas fica sempre, tudo, só pra “depois do Carnaval”…

No mais, bom carnaval para todos !
Não estou aqui pra julgar ninguém, e nem fazer pouco de nossos costumes tão controvertidos…

( 15 de fevereiro de 2015 )

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Pra quem acha que ter “senso crítico” é ficar “chato e ranzinza”, devo acrescentar que uma coisa muito positiva e incrível que aconteceu recentemente foi o reavivamento dos BLOCOS lá no nosso queridíssimo Rio de Janeiro.
Assistimos a isso com muita alegria, uma alegria legítima, é a cara do Rio, é a cara do Brasil que não se extingue, e que resiste…
Reação ao Carnaval segmentado em castas, à segregação e exclusão de uma sociedade mergulhada na “camarotização” – ( hoje este termo vem sendo consagrado nas análises comportamentais ) – Blocos irreverentes e democráticos, sempre trazendo uma forte “pitada” de crítica e mordacidade social e política.
Esse é um lado salutar do “furdunço” brasileiro : o deboche também é uma forma de responder à realidade perversa.
Aliás, no teatro existe o Drama e a Comédia : muitas vezes é pelo riso que se proferem as mais lancinantes críticas na sociedade, vide Voltaire …
Daí a minha enorme simpatia pelo sucesso dos Blocos do Rio.

( 16 de Fevereiro de 2013 )

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O Brasil não é para principiantes, já cravava o Tom Jobim a celebre frase, que de tão sagaz foi incorporada em milhares de reflexões, teses, livros…

Quem não decifrar o que está por trás do Carnaval jamais entenderá o Brasil , por isso, essa discussão será sempre oportuna.
Os filósofos e sociólogos estão sempre futucando esses veios, na esperança de se compreender melhor do que tudo isto se trata…
Por trás de toda a efusividade de nosso povo, se escondem as mais perversas atrocidades, ou as mais atrozes perversidades , e o Carnaval é uma catarse em forma de ópera bufa.
É interessante perceber como ali ocorrem as mais diversas incorporações culturais, assimilações complexas de camadas dominadas com dominadoras, numa confusão mais organizada do que se pensa….

( 16 de fevereiro de 2015 )

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Peculiares relações entre Arte e Política.

Uma obra de arte, quando bela, magistral, verdadeira, inspirada,
quando traz embutido um contexto histórico, politico, social,
com o passar do tempo pode espelhar a realidade das formas mais surpreendentes.
Esta obra, de uma beleza imorredoura, serve a vários contextos, exatamente pela grandeza de sua lavra poética.
Grande poeta, o Grande Chico !

 

Vai passar
Nessa avenida um samba popular
Cada paralelepípedo
Da velha cidade
Essa noite vai
Se arrepiar
Ao lembrar
Que aqui passaram sambas imortais
Que aqui sangraram pelos nossos pés
Que aqui sambaram nossos ancestrais

Num tempo
Página infeliz da nossa história
Passagem desbotada na memória
Das nossas novas gerações
Dormia
A nossa pátria mãe tão distraída
Sem perceber que era subtraída
Em tenebrosas transações

Seus filhos
Erravam cegos pelo continente
Levavam pedras feito penitentes
Erguendo estranhas catedrais
E um dia, afinal
Tinham direito a uma alegria fugaz
Uma ofegante epidemia
Que se chamava carnaval
O carnaval, o carnaval
(Vai passar)

Palmas pra ala dos barões famintos
O bloco dos napoleões retintos
E os pigmeus do bulevar
Meu Deus, vem olhar
Vem ver de perto uma cidade a cantar
A evolução da liberdade
Até o dia clarear

Ai, que vida boa, olerê
Ai, que vida boa, olará
O estandarte do sanatório geral vai passar
Ai, que vida boa, olerê
Ai, que vida boa, olará
O estandarte do sanatório geral
Vai passar

 

( 17 de fevereiro de 2015 )

reações ao clip na Espanha

Depois da publicação do video novo, percebo que existe uma corrente de comentários (e não necessariamente aqui neste espaço) negativos, questionando a validade de que os esplendores de um país “colonizador” sejam apresentados por mim, um brasileiro de uma America Latina colonizada e historicamente humilhada , etc..etc… E essa é uma discussão muito interessante, é muito bom que aconteça, eu já esperava… Devo dizer que, em primeiro lugar, a música é universal – e ainda mais essa música…. Não visa apenas ser apreciada pelo público da “Terra Brasilis”, pelos fãs entusiastas, mas também ser apreciada por pessoas de outras partes do mundo, inclusive – e mais especialmente – pelos espanhóis. E ser apreciada, também, ou não-apreciada, pelos críticos, e abrir um canal de reflexões, incluindo esse questionamento sobre a História da Riqueza do Mundo ( Hobsbawm ) e seus caminhos dramáticos … Houve um comentário em que uma pessoa, além dessa mesma crítica sobre a “validade” da “ostentação do Mundo Colonizador” , aproveita para dizer que preferia o Guilherme de Meu Mundo e Nada Mais , de Um Dia um Adeus… e é engraçado, porque a pessoa prefere justamente os temas de novelas mais hegemônicos de uma Grande Mídia , ”mainstream” total, em detrimento de uma reflexão cultural sobre a herança da cultura latina, em que a América é exaltada como supra-sumo dessa mesma cultura latina, e na letra é qualificada como “ainda uma criança” , porque é plena de esperanças e de futuros. Acredito mesmo que a America Latina será o centro do mundo, um dia. Nem que seja quando o mundo atualmente configurado vier a sofrer uma gravíssima re-configuração – e isto todos sabem que vai acontecer. Mas voltando ao tema, o vídeo em questão não visa fazer um mero “desfile de esplendores”. Pelo contrário, traz embutida uma série de sutilezas e mistérios…como na sequencia das ninfas, de Adão e Eva, do pecado e da fogueira das punições, por exemplo… O fato é que o “tema” não é a riqueza. O tema é o “moderno artesão” que renasceu em mim, ( eu que tenho as mãos eternamente “sujas” por trabalharem incansavelmente com artesanias diversas…e isso sou mesmo eu… misto de marceneiro com tecnico eletronico, de”Professor Pardal” com “Porquinho Prático” …) e que no meu sonho renasce para o mundo, na minha esperança, em cada “alvorecer lindo” de um “Novo Mundo” em nós. O tema principal da música é sim, a beleza da cultura latina no mundo , mas o tema de fundo é na verdade a operosidade das mãos. Esses “questionamentos de validade” , aliás, são um filosofês rasteiro, um velho abutre conhecido. Bem mais fácil é não realizar nada, não fazer vídeo nenhum sobre o mundo, e ficar ruminando nossas reclamações ideológicas, vendo defeito em tudo, olhando para o nosso umbigo de um povo que só tem ( e vê ) problemas, pobreza e negatividade por toda parte. Eu não. Para mim, o mundo é fascinante, o Brasil também é fascinante, a Humanidade é fascinante, só depende dos olhos e da interpretação que se dê. Que ainda é criança a América.

https://www.youtube.com/watch?v=e2BwtWXtYJo

( 7 de Fevereiro de 2014 )

Clip na Espanha

Eu concluí finalmente a edição do primeiro Clip rodado na viagem pela Espanha. Ficou um absurdo, de longe o melhor que já fiz… Um roteiro de quase 6000 km, passando por 23 cidades, por todas as regiões ( com pequenas exceções porque a Espanha é muito grande e variada ) mas vocês vão gostar muito…especialmente pelo resgate de uma parcela de sonoridades do Moto Perpétuo, minhas origens do tempo de Universidade, a Historia da Arte da FAU…
Tudo ambientado no tórrido verão espanhol, durante a Copa do Mundo do ano passado. Essa idéia desse clip era antiga, e a escolha da música é um outro resgate importante…
Uma edição ( com toda modéstia ) primorosa, meticulosa, que me deu muito, mas muito trabalho mesmo…
A escolha dos takes foi um labirinto, já que o material gravado que trouxemos da Espanha ( em 4 HDs backups, um em cada mala ) quase chegava a 1 Tera…
Não vou entrar em detalhes, por hora…
É um Clip/documentário com 12 minutos de duração, uma verdadeira “viagem” marcada por cenas e episódios miraculosos de profunda espiritualidade. A musica é muito especial…aposto que alguns de voces sabem qual é…
E tem mais :
O lançamento desse Clip marcará a chegada (dentro de alguns dias) do LP – Vinil – do CD Condição Humana, que terá a adição de um compacto ( também em vinil ) com essa faixa-bônus.
Vocês vão gostar !

( 03 de fevereiro de 2015 )

A Era das Biografias e d´Os Musicais…

Há uma onda, sempre uma onda, de trazerem de volta todos os ídolos carismáticos e misteriosos de outros tempos, ídolos controvertidos por suas vidas pessoais e suas confusões, que rendem bons roteiros para biografias e musicais (e toda sorte de derivativos) que aguçam a curiosidade e o voyerismo de uma época vazia de controvérsias, uma época presente, “flat” e medíocre em seus pragmatismos e em seus pragmáticos funcionais, uma época de utilitarismo e de muita reciclagem de todo conteúdo que se viveu em cortantes, lancinantes “épocas analógicas de verdade”…
Num tempo presente muito peculiar , vejo os ícones de vidas sanguíneas, verdadeiras e acidentadas se transformarem sequencialmente numa miríade de clones e emulações, rendendo bilheterias milionárias de “homenagens” e de “tributos”…
Tributos válidos, sim, e mais do que justificáveis. São nossos heróis.
Até aqui, tudo muito bem… Mas eis que o “mercado” exploratório tenta confundir o público e o senso crítico mais elementar, numa segunda “onda”, fazendo o resgate de outros mitos secundários, que, com potencial escandaloso e/ou mórbido, possam apresentar elementos similares de polêmica, em prosaicas vidas de pura auto-destruição… Sabem bem ao que me refiro.
Devo dizer que, tanto em relação a Cazuza, Renato Russo, Elis, Simonal e muito especialmente Tim Maia, jamais ví esses meus ídolos derrotados ou entregues ao infortúnio .

Neles, a Vida triunfou, e essa é a sua maior beleza. Foram vencedores até o último instante. Tim Maia, por exemplo, faleceu em cima do palco, fazendo exatamente o que gostava de fazer : shows.
Nunca ví o Tim Maia por baixo, muito pelo contrário.
É bom que essa onda cuide de não diluir nossos maiores ídolos numa enxurrada de “biografias” e de “Os Musicais”, já que um panteão dessa grandeza poucos podem , de verdade, compartilhar.
Querem algumas sugestões ? : Taiguara , Marku Ribas, Itamar Assumpção, Johnny Alf…
Esses, sim , merecem um “reavivamento”, de todo o talento que deixaram no mundo, talento coberto de mistérios.

( 20 de Janeiro de 2015 )

 

Geração 2000

Uma geração perdida ?… repleta de lindos sonhos em vão ?
Anteontem eu estava no carro, na Estrada do Côco, e tocou no radio uma canção que há alguns anos atrás eu simplesmente adorava, e me bateu uma tristeza de nostalgia utópica, de tempos recentes…Era símbolo de um sonho que eu ansiava ver acontecer, na cena do pop rock nascente na Bahia, e eu me identificava alí, era um som viável de uma nova juventude urbana, que eu pensava ver em ascensão um dia, talvez numa novela, num seriado, no cinema, e me lembrei então que, de tantas possibilidades, a mais provável foi a que mais vingou, que era ( e sempre foi ) de simplesmente não acontecer nada e tudo morrer na praia…
Ora, em vão eu garanto que não foi, já que eu estava ouvindo no rádio, e eu estava chorando, lindamente, interna e externamente, com aquela canção:
Aguarraz , “Bem Mais Leve”…
https://www.youtube.com/watch?v=B0MhQr6iRrY
mas aquele insight me fez refletir o quanto a música do Brasil continua eternamente sendo a pátria absolutíssima do desperdício. Aliás, no mais, tudo por aqui respira e transpira o mais puro desperdício…Pensei, com tristeza e preocupação, na geração de nossos filhos, cercada de todo tipo de facilidades hightech, mas desprovida de oportunidades reais, uma juventude mergulhada num processo complexo de inclusão social e de competições desleais, encontrando um precaríssimo mercado de mão de obra pulverizado, de baixa remuneração e de péssimas contrapartidas a tantos pre requisitos, tantas exigências…O que aconteceu, o que está acontecendo com os nossos filhos, que pegaram, que estão pegando de frente tamanha realidade perversa ? O culto generalizado da ignorância, a boçalização, a rarefação dos meios de comunicação de massa e o pragmatismo utilitário fizeram dessa geração tão interessante uma geração perdida, que já se encaminha célere para os 35, 40 anos de idade sem que eles tenham experimentado uma única onda favorável, se compararmos com os gloriosos anos 50, 60, 70, ou com os generosos anos 80…e isso faz muita diferença…
Faz deles uma galera niilista, melancólica, desapegada, com um pé atrás até mesmo em relação ao proprio brilho…
E pensar que nessa geração tinha – e ainda tem – tanta coisa legal …

(27 de Dezembro de 2015 )

Paradoxo de Fermi

http://gizmodo.uol.com.br/paradoxo-fermi

Cosmologia, Cosmogonia, “inutilidades supérfluas”,elocubrações pretensiosamente explicativas à luz cambaleante da mais pura razão, o tipo de papo que, francamente, humildemente, eu adoro…

Vejo como, num passar de ano novo (como o que vivemos agora), em que o mundo se compraz em admirar-se de sua pseudo-grandeza, de tantas esperanças e desejos, gratidões explodindo nos fogos de Sidney, nas festas feéricas de Nova York a Pequim, a explosão de todos os povos vestidos de branco,das praias de Copacabana, de Miami ou de Lisboa, de todos os brilhos e paetês de Paris, das pistas de Ibiza às luzes do Hyde Park, as praças de Milão,salões de Viena, os muitos brindes de Barcelona e Madrid, os frenesís de Dubai, de AbuDhabi, as luzes da Baía de Toquio, a grande celebração da fartura e da tão volátil riqueza humana, em que os espíritos se elevam a gratidões e votos de felicidade e comunhão com as forças supremas que nos regem, percebo o quanto é pequenininha a nossa realidade. Um arrabalde do Universo, nosso reveillon é o mero espoucar de uma pipoquinha infinitesimal, um traque, estalinhos de salão num Cosmos onde um gigantismo de reveillon é a toda hora, a toda parte, desde todos os big bangs, e essa imensidão deveria existir e explodir (de) dentro de nós.

( 31 de Dezembro de 2014)

Fornalha

Passei pelo Rio ontem, que calor é esse ?
No Brasil inteiro, é mesmo um brasil, um abafa insuportável.
Tantos verões no Rio, sempre foi quente, mas não desse jeito.
São Paulo, então, virou uma estufa com temporais imprestáveis, uma mistura perversa de seca com enchente, nunca se viu nada igual….
E ainda há pessoas descrentes que atribuem o aquecimento global a interesses hegemonicos, manipulações…
Viram a capa dos grandes jornais de ontem ? O relatório da Nasa, que elegeu 2014 o ano mais quente da história…
De minha parte, não estou aguentando a fornalha, inclusive a que encontrei na Espanha e também em Toquio !

Não sei o que vai ser do mundo daqui a 10 anos, nessa toada, uma filial do inferno !

( 18 de Janeiro de 2015 )

Lincoln Olivetti

 

Lincoln Olivetti, O Mestre, O Mago, foi levar “lá para a Diretoria” novos arranjos, com certeza lá no Éden, onde é o seu lugar.
Nosso querido “Véio” , um gênio que eu reconheço como O Melhor.
Tive inúmeras oportunidades de cruzar e trocar figurinhas com ele…
Eu sempre olhei para Lincoln como um desafio, um mistério, além de uma figura humaníssima em suas idiossincrasias.
Sou de uma geração que aprendeu muito com ele, um líder nato, esquisitão e temperamental.
Brindou as trajetórias de centenas de artistas com a sua arte, seu compromisso com a objetividade e qualidade.
Mãos dotadas do milagre, caneta mágica iluminando as partituras com seu condão.
Nunca tive arranjos assinados por ele, devido à minha “pretensão solitária”, devido ao meu ciúme doentio de querer sempre fazer eu mesmo…Mas ele sempre esteve coligado, de uma forma ou de outra…
No início, humilde, Lincoln alugou ou até emprestou instrumentos quando eu não tinha acesso a um Oberheim, um Clavinet, etc…
Me lembro de ter dado a canção “Pedacinhos” para a Vanusa gravar, e ele na época me disse que não entendeu porque tiraram do repertório dela…
Incontaveis vezes esse cara me deu força, manifestou seu apoio, em confessadíssimas tietagens mútuas.
Um fã incondicional é o que eu sou, dele.
Um fã incondicional é o que ele sempre foi, meu.
Quando a gente “acertou no taco”, cravando hits antológicos, a gente sempre “pagou pau” sem a menor cerimônia, e disso a gente só tem mesmo que se orgulhar.
As parcerias dele com Robson Jorge, o magistral “Urubu”, ficaram como obras primas de nível mundial.
Seu arranjo em Brincar de Viver, um ponto alto na minha carreira de compositor, e também na trajetória de Bethânia, que agora se consagra no “bis” arrasador do Show de 50 anos de profissão, é belíssimo, é uma gratidão que eu vou levar para o resto da vida.
Ao menos pude reencontrá-lo, há pouco tempo no Coaxo do Sapo, e ver mais uma vez essa lenda em ação.
Querido Lincoln,
um abraço eterno do seu fã incondicional, Guilherme Arantes.

( 14 de Janeiro de 2015 )