Outros Carnavais

Nunca gostei, de fato, de Carnaval : sou um sem-graça. Hoje em dia, então, reduziu-se a um hiato de espera pela vida real, e quase nada mais. Há alguns anos atrás ainda fui com Márcia revisitar o Carnaval, nos aventurando até o Edifício Oceania, na Barra, pra ver como andava esse lance da avenida, dos trios, etc… Fomos bem recebidos pela equipe de Flora Gil, e logo nos puseram no pulso um maço de pulseiras de várias tonalidades, cada uma dando acesso a um setor do grande Camarote 2222… O lendário Expresso 2222 como expressão de um grande banco ( o maior banco, aliás ) . O problema é que, ao ver Gilberto Gil reinando como um legítimo Rei Nagô, em seu terraço sobre a avenida, recebendo a merecidíssima reverência dos trios em seus carros de som , formando “guigues” de sucessos com as bandas, começou a ecoar na minha cabeça “O Sonho Acabou…ihhh…” , uma referência seminal do Gil que sempre fez a minha cabeça, e o Carnaval começou a girar, girar, como num pesadelo …. E eu escutando ”O sonho acabou…Ihhh…” não conseguia escutar mais nada. Pedi pra Marcia pra irmos embora o mais rápido possível : era, sim, um pesadelo. Lá em cima do Morro do Gavazza, onde estava nosso carro, ainda ouvimos Gil chamar, junto com Lulu Santos : “Guilherme, cadê você ? “… Queriam minha presença pra cantar Lindo Balão Azul… Mas já era tarde : uma pena, perdí a oportunidade de abraçar dois amigos queridos e festejar com o público de Salvador…Que desfeita… Mas é que não combino mesmo com Carnaval…Várias vezes fui convidado a subir nos carros de som do Asa, de Ricardo Chaves, de Margareth Menezes, de Tatau e seu Araketu…Mas, francamente, sempre me sentí um peixe fora d´água… Lá no passado, até saí na legendária Ala dos Compositores do Salgueiro , com muita honra por sinal, de colete listrado branco e vermelho, na cabeça a palheta, e o distintivo “Compositor” no peito , o que muito me orgulhou por estar simplesmente na companhia de Taiguara e de Jorge Benjor…entre os demais Compositores da grande escola. Me orgulhei ainda mais porque uma escola concorrente , a Mocidade, apresentava um carnaval cujo tema era Chuê, Chuá, As águas vão rolar, e me convidou para ser destaque com um carro “Planeta Água” , e eu recusei solenemente, por estar 100% empolgado com a minha escola, o Salgueiro. Disso eu me lembro com carinho. Poderia ter cedido à tentação da exibição, e até foram campeões, mas não tenho esse tipo de vaidade, uma coisa típica de Carnaval… Esse foi o melhor momento meu como carnavalesco. Um momento com consistência na cultura do Carnaval, coisa que eu respeito profundamente… A abertura do portão na Avenida, com os fogos, a Escola explodindo aquela energia da concentração, em som e fúria de cores lisérgicas , foi realmente uma emoção inesquecível e indescritível. Mas não me encaixo no absurdo Dionisíaco do Carnaval. Devo ser de outra falange, ou o meu Dionísio aproveita pra tirar folga no Carnaval : já é muito ocupado no cotidiano! Essa incompatibilidade em mim remonta a tempos imemoriais.
Me lembro da infância com carinho pelos Carnavais ingênuos de Araraquara, fantasias de pirata e o corso caretíssimo pela Avenida São Bento , o saquinho de confete e os maços de serpentina… As bisnagas de sangue-do-diabo… Na adolescência, a chegada dos lança-perfumes aos salões do baile do Municipal tirou o resto de inocência e substituiu por um embrião de perversidade tóxica. Não era mais infância. Nas décadas seguintes, logo a seguir, nosso cotidiano se transformaria em algo bem mais alucinado do que qualquer Carnaval… Vou usar um exemplo gritante, pra deixar mais evidente, por ser de um contraste acachapante: Na década de 60, que, por uma fortuna incomensurável , pegou em cheio a nossa puberdade e adolescência, a semana do Carnaval significava um retrocesso bizarro com seus discursos machistas, racistas, reacionários, nas letras das marchinhas anacrônicas com levadas marciais, uma pausa inaceitável para um mundo em estado revolucionário. O dia a dia da gente, este sim um verdadeiro carnaval, era simplesmente fascinante com os Beatles, a Jovem Guarda, a Tropicália, o Cinema de Godard, Visconti, Antonioni, Pasolini, Fellini, um mundo de Brigitte Bardot , de Serge Gainsbourg, do Led Zeppelin, dos Stones, das lutas dos Panteras Negras, Primavera de Paris, um mundo em convulsão e completamente descolado do passado. A chegada do Carnaval sempre significou uma parada obrigatória para uma grande alegria compulsória, e eu fazendo parte de um mundo careta de dedinhos-para-o-alto, girando como idiota nos salões dos clubes enfeitados com alegorias horrorosas ao som estridente e esborrachado de trompetes e trombones caricatos.
Isso quando eu era jovem…
Hoje, até abstenho-me de comentar!
E também aqui só falo por mim : Mas quem curte o carnaval, que curta sim ! Quem tem oportunidade de sair e celebrar o que bem quiser…
Cada um faz o que acha melhor, e o mundo adora festejar, não é defeito específico de algum povo querer um pouco de alegria… E todos os povos são iguais : o ser humano é bagunceiro, adora festa.

A diferença é quando acaba.

Quanto a mim…só posso dizer que sempre resta uma esperança : a quarta-feira de cinzas.