O colapso das estratégias

Comemorando os 400 anos de Shakespeare…

A Comédia dos Erros
Muito além da discussão polarizada, empobrecida, e a estigmatização até de quem procurar relativizá-la, muito além de se estar ou não “em cima do muro…etc..”, devo dizer que, com os impostos que eu pago, que você paga, que todos nós carregamos como uma “canga” obscena sem receber nadica-da-silva de volta , qualquer um de nós tem o direito de se postar de um lado ou de outro, e até mesmo não se obrigar a aderir a qualquer discurso imediatista – a situação no País já é de um ridículo total, virou um fla-flu, um corinthians-palmeiras, um gre-nal, um cruzeiro-atletico, um ba-vi absolutamente infantil e histriônico..

Não sei não se tudo isto que estamos vivendo não passa de brincadeira de um povo brincalhão ! Palhaçada ? nem tanto. tem gente passando necessidades, não é comédia, é drama.

Prefiro falar das estratégias, do fracasso de todas elas, e questiono mesmo se houve alguma estratégia fora do precário amadorismo e da improvisação. A meu ver, o Brasil de hoje é “peba” : os dois lados da moeda apresentam estratégias muito falhas pra que se leve a sério.

Sinistra : Da parte da “esquerda”, tudo bem, está claro que houve uma arquitetura pra contrabalançar o poder secular das oligarquias , foi traçada uma operação historicamente de curto prazo, e faz sentido que isso fluiria naturalmente no aparelhamento dos setores de grandes obras, dependentes de decisão política – tradicionalmente nas mãos da velha elite… e onde a movimentação de grana é estratosférica. Mas acho que a maior falha estratégica foi, ao final do segundo mandato de Lula, não ter tido a sabedoria e a temperança do “respiro” tático : ter estudado o melhor momento para a alternância de poder. Deixar levar, saber jogar o jogo, mesmo tendo as cartas na mão. A vida é feita de respiração : inspira, expira . A vida real é como as marés : sobe, desce, enche, esvazia … No ponto em que estava, com a aprovação popular e o reconhecimento generalizado, e tendo “superado” cambalachísticamente o baque do mensalão, isso teria gerado uma massa crítica tão favorável quanto duradoura. Criadores do terremoto, deveriam ter previsto as marolas enganosas da crise que se aproximava, com a cobrança das faturas de toda a gastança e do estímulo ao consumo popular … Um governo “socialista” mandando o povo consumir, não parar de comprar, é o que se viu na virada para Dilma…Que estratégia é essa ? Isso era pura improvisação ! Todos lembram desse pedido patético de uma líder legítima da esquerda, solicitando que o povo se endividasse, torrasse impiedosamente as suas poupanças na 25 de março, porque a nova matriz econômica havia descoberto o caminho das pedras…O consumo. O povão adorou : muito churrasco, muita cerveja, TVs de led , linha branca completa em todos os lares, carro em 60 meses. Isso demonstrou de vez que o povo não é socialista. O povo quer consumir, “consumo , logo existo”. Socialismo de verdade, já postulava Gramsci, depende da educação . Educação que traria temperança, espírito crítico e desconfiômetro afiado desse povão contra as armadilhas do capitalismo selvagem, justamente contra esse consumismo incentivado… A presidente não pode reclamar, porque o povo respondeu ao chamado. Mas e se não desse certo essa jogada ? Pois não deu… mas também porque se contava com outros artifícios…da providência…

A armadilha do petróleo :

Aqui, neste ponto nevrálgico, entra a “descoberta do pré-sal” como fator primordial para o engodo se instalar, como um parasita assassino – vendeu-se a ideia ( inclusive internamente nas áreas do Poder os neo-burocratas se convenceram da descoberta de um tesouro tão fenomenal, que transformaria em trocados quaisquer desmandos numa operação de aparelhamento : foi por isso que a porteira se abriu…escancarou de uma vez ! ) só que o pré-sal foi uma aposta precipitada ( talvez desesperada, de quem precisa de algo providencial, prodigioso, algo maior em que acreditar…) e aqui devemos conjecturar porque pessoas que se deixam engabelar por teorias sociais que nunca deram exatamente certo… esses amados crentes também são tão permeáveis a mitos como esse, o totem do pré-sal….! O Brasil poderia se tornar uma potência-corrupta-perfeita, como são os milionários do ouro-de-tolo negro…Ah, o petróleo ! Quanta trapalhada com esse nome no mundo !

Certamente os estrategistas lá em Harvard, no MIT, no Lago de Genebra, sabiam disso. Parte de um pacote que incluiria a Copa, os Jogos Olímpicos, o que aconteceu com a Petrobrás obedece à engenharia de uma demolição… Prestem atenção se não é isso mesmo… Detonações em sequência que se assemelham à teoria da conspiração do 11 de Setembro….Como dizia o Imperador em Star Wars, “tudo corre de acordo com o plano…eh…eh…eh…. ) …aliás, é bom lembrar que nas redondezas do Lago de Genebra estão a FIFA, a F1, todas as sedes-de-maracutaia, os bancos, até mesmo onde estão as contas escondidas dos patetões “envolvidos”…

Mas vamos lá, há outras sutilezas…Se há um plano ( “Who´s in charge?” perguntaria Hobsbawn… ), esse plano contaria com preciosas colaborações – os operadores de esquema…e os vaidosos políticos.

Essa máquina precisaria ser desativada, entrar em hibernação, para sobreviver em outro estágio. Mas não tinha como parar…

Qualquer leitor medianamente atento aos historiadores e teóricos das mais diversas correntes ideológicas jamais descuidaria do fato de que a política consistente se faz ao longo de várias décadas, e que qualquer desenho de poder precisa considerar o recuo estratégico como elemento primordial para um futuro de poder… Direto e reto não existe, só para o abismo . Não adianta nada um poder que hoje se apresenta consolidado , mas que não tem futuro. Claro que sabiam que a sangria das contas públicas tinha data marcada pra estourar. Porque não deixar estourar tudo no colo dos adversários ? Não é uma boa pergunta ? A princípio, teria sido tão mais fácil implementarem este plano maligno…Uma onda neoliberal vinha se levantando… era só “sair da mesa” e confiar no taco , deixar um poder que voltaria sozinho para as mãos do PT , e melhor ainda – deixando o inimigo levar o racumin da crise pra dentro das tocas da rataiada… mas a vida real não é como no poquer…Resta saber se o Governo podia sair da mesa… ou já estaria sob o abraço estrangulador das Empreiteiras, era uma presa indefesa no abraço de tamanduá do “big business”, e a roda não poderia parar de girar. O esquema estava montado, era pra não ser descoberto, mas uma série de acasos, de amadorismos, de imprudências pôs tudo a perder. A Lava-Jato. Um fato recorrente nos esquemas de drenagem financeira da esfera pública é que mais e mais pessoas, aproveitadores, vão se agregando , fora de controle : sempre é um esquema com alto potencial suicida. Deu no que deu. Se hoje pudessem voltar na História, todos os operadores do esquema e o lulopetismo teriam preferido dar um tempo na sanha , já que um dia a casa ia cair… mas com a impunidade tradicional, quem poderia imaginar que desta vez seria diferente ? Caso tivesse tido um mínimo de sagacidade, o petismo e seus parceiros ( vira-casacas que hoje estão em grande frenesi, na tomada do Poder ) teriam “passado a bola”, e o abraço de tamanduá teria se voltado para a oposição na hora exata…o que daria ao petismo uma condição de similaridade total nas tramóias e perdão permanente para todos os desmandos…

Hoje, não adianta reclamar e ficar voltando na História pra uma outra década remota, pra argumentar que o esquema sempre existiu… Tivessem saído da mesa na hora certa, 2018 estaria marcado pra ser um ano de Royal Straight Flush… Uma Canastra Real para Lula… No entanto, poderá ter sido exatamente das hostes adversárias que viria a solução !

______________________________________________________

2. “A Tempestade” ( mais Shakespeare…)

Destra : Em país de “tempestade perfeita”, todos estão sujeitos a errar (ainda) mais do que de costume. Na minha opinião discutibilíssima, de quem olha de fora, há uma estratégia desastrada em dobro, desta vez partindo da oposição, e que pode ser exatamente este impeachment…

Muito mais prudente seria aguardar com a fé inabalável focada no desastre final e total do atual governo. Afinal, esse desastre não seria tão líquido e certo assim ? …E o temor de uma reversão do quadro não poderia ser um dos componentes desse “açodamento”, deste “afogadilho” para desfenestrar a Presidente…???

Bem, eu não acredito um níquel que algo desse certo do jeito que vem, e nem do jeito que vai… Todos sabem que crescer, mesmo, só lá pra perto de 2020 – isso, se nenhuma cagada for cometida no caminho…Mas tá difícil de não ser cometida, heim ?

Dois anos não são nada, sequer pra frear esse descomunal transatlântico, desgovernado rumo ao abismo. A probabilidade de algum acerto efetivo, neste tempo que resta até as eleições de 2018. é baixíssima até para os mais otimistas. Aliás, não serão nem dois anos de prazo para tão urgentes milagres , pra um país que já não apresenta fé em mais nada…

Se com fé já é dificil, sem fé, então…Em 2018, uma vez havendo-se entrado na reta final ( e decisiva ) de novas eleições presidenciais, as tão ansiadas “novas eleições” depois de tanto quiprocó… qualquer um vira o tal “lame duck”…

Pior : feroz e barulhenta oposição. Com o impeachment, o PT – que ainda é grande e tem uma “seita” resiliente – deixa de ser vidraça, voltando a ser estilingue – seu papel histórico, preferencial na sua ascensão meteórica. Nada mais conveniente para quem alimenta ardentemente o retorno triunfal do “Carisma” de Lula.

Os “movimentos sociais” no Brasil, curiosamente, só são referidos à esquerda… Os movimentos a favor deste impeachment, ou seja, contra um governo “popular, sindical, vermelho”…, esses protestos não são considerados “sociais”, mesmo quando dão vários milhões nas ruas… então são movimentos “o que ? ” … movimentos de robôs ? O mais curioso é que as mídias replicam esse pre-conceito à exaustão. É o hábito do discurso hegemônico em ação sobre o senso comum.

Mas vamos lá… Dentro de alguns meses, os “movimentos populares de inclusão” estarão em posição bem mais confortável do que estão hoje… Hoje, seu maior incômodo é haver um poder contraditório, que é mas não é, que fala uma coisa e faz outra, que vai-e-vem, perdido entre o politicamente correto e o politicamente factível, uma gosma amorfa e pegajosa , indefensável, mas também inabandonável…. Em breve, dando graças-a-Deus, terão como judas um governo evidentemente “almofadinha”, levando as simbologias polarizadas às últimas consequências…

A meu ver, este controvertido impeachment, fruto da impaciência da classe média-liberal, queiram ou não queiram, prepara o retorno de Lula em condições ideais.

Principalmente por não construir um “carisma” com força e explosão que possa se contrapor – eis a grande lacuna. Em política, especialmente em paises com o nosso perfil, não basta adequação : é fundamental a explosão no discurso – e isso por hora não existe. Décadas se passaram, e não surgiu ninguém. Que as forças populares escolham as linguagens e candidatos com esse perfil populista, é compreensível e natural. Que os desassistidos, os relegados, os desempregados, os excluídos, os oprimidos sem casa, sem teto, sem terras, sem acesso, se alinhem à esquerda – no mundo inteiro, ontem, hoje e sempre – isto é absolutamente óbvio. Quem elegeu Lula, quem fez o diferencial desse ciclo “socialista” foi a classe-média impregnada pelo processo cultural do gramscismo. Hoje ela tenta pendular para o outro polo, e a intensidade dessa pendulação pode ser desastrosa, porque cria uma energia, que, se estiver no momento errado, gera uma contrária que pode beneficiar quem está no bagaço , como estão as esquerdas. Então o Destino poderá se mostrar implacável com quem não soube esperar.

É a mesma história, dando voltas, e causando estragos no outro lado da moeda…