Medieval Times

Quando minha irmã estudava na St Paul´s School
eu tinha doze anos, e já achava curiosa uma rivalidade interna dos alunos, nos jogos, nas gincanas…
Ou a criança era “York” ou era “Lancaster”. Claro, uma estrutura de torneios medievais…
Os Yorks eram “vermelhos” e os Lancasters eram azuis…
Isso remonta às históricas disputas pelo Trono da Inglaterra, e faz parte
de um “lúdico” que nunca vai deixar de existir.

No Brasil de hoje, ou você é “York” ou você é “Lancaster”, e o propósito dessa divisão é basicamente LUDICO : estamos “nos distraindo” num jogo.
Medieval Times.
O que me preocupa muito mais é a perda de tempo : os anos dispendidos nessa “refrega” , nessa “procela”, serão anos perdidos para quem perdeu o fio da meada só protestando na rua e se esquecendo da “individuação”, se afastando do questionamento interior, que é uma refrega muito mais difícil de se resolver…
Há uma geração aí que poderá ficar de lado pela História.
A minha geração, dos anos 70 e começo dos 80, tinha herdado uma impossibilidade técnica de se manifestar: era a ditadura.
Com essa impossibilidade, nossa geração partiu para um tipo mais insidioso de “manifestação” : a revolução de costumes. Muito do que foi criado naqueles tempos de Nuvem Cigana, Clube da Esquina, Circo Voador, Asdrúbal, Lira Paulistana, num tempo de doidões delirantes, gerando uma nova realidade a partir da estética e do lúdico nas artes, perdurou de forma incrível, e está aí até hoje.
Não foi uma geração em vão.
A bem da verdade, as gerações anteriores também foram muito férteis e perduraram bravamente.
A Geração Samba-Canção , da “fossa” do pós-guerra, uma geração “gauche très chic” , logo sucedida pela Geração Bossa-Nova , com cinema novo, concretistas, os grandes arquitetos, o Brasil Designer do futuro…uma geração de ouro. Desta geração surgiria a geração Jovem Guarda e seu “corolário cult”, a Tropicália : eu costumo incluir o Tropicalismo na mesma prateleira da Jovem Guarda : é um apêndice politizado, culto, instigador da nova estética.
Com a repressão e o desabamento do AI5,em 68, que coincide com Woodstock, o Sargent Peppers e a onda lisérgica, surgiria no Brasil a geração Pasquim, uma geração mais “pesada”, “barbuda”, amarga (como deveria ser), reacionária contra o desbunde, mas progressista na “praxis” ,alinhada com a nova ordem gramsciana ( publicação dos Cadernos do Cárcere ) , uma geração revoltada, do contra, 100% etílica, e dentro dessas características, aparentemente careta. Esse período coincidiu, pra mim, com o tempo de entrar na Fau, Arquitetura da USP , no ano de 72. Congresso da Une em Ibiúna, prisões… Nas faculdades, era uma profusão de “grupos de estudos” ( que eu classifico como uma “moda” mesmo, uma coqueluche como as calças boca-de-sino… Tinha grupos Trotskistas, Leninistas, Stalinistas, e eu, que não levava nada daquilo a sério, era mais um “alienado”… Era classificado como “filhinho-de-papai” , ( hoje seria coxinha ) mas eu estava em OUTRA. Minha Revolução era PESSOAL , e só eu saberia disso…. Apesar da caretagem geral, aquela foi uma geração valorosíssima, com produtos de alta qualidade e um apelo mais do que legítimo. As marcas dessa geração estão presentes até hoje, nos cartazes, nas camisetas, nos palanques, e foram convenientemente incorporadas nas linguagens anti-liberalismo.

A meu ver, muitos dos herdeiros dessa linguagem, dessa “linhagem”, e que são da nova geração ( a geração dos nossos filhos, a geração Baixo-Augusta) vão pra rua principalmente movidos por uma CAUSA ANARQUISTA.
São CONTRA A ESTRUTURA EMPRESARIAL, são CONTRA o Capitalismo, CONTRA a “nova ordem neoliberal”, enfim, são CONTRA O “‘SISTEMA”.

Mas vejam, aqui está o paradoxo : Todas as gerações aqui descritas foram contra o “Sistema”.
A Geração 50 “gauche-chic” Samba-canção, a Geração Bossa Nova, a Jovem-Guarda-Tropicália, a Geração Pasquim, e a minha geração, a do Desbunde-80.

Todas contra o ‘SISTEMA”. E daí ?

E daí que, hoje, o discurso é um discurso aprisionado pelo utilitarismo, aliás, como tudo.
Será que os jovens estão ( como as demais gerações aqui descritas sempre estiveram… ) “voltando” pro mundo interior da individuação, será que estão realmente conseguindo gerar uma produção duradoura – aquela que NÃO se produz ali no meio das massas, na confusão confortavelmente comodista e enganadoramente ativista…das ruas, na empulhação do “coletivo” ?
Claro que não dá pra generalizar, e tem, sim, muitos jovens hoje gerando o futuro no recôndito de suas vidas, de suas lutas pessoais. Queremos ver isso. A História verá isso. Só que não “aparece”.
O revolucionário é silencioso e cava “na calada das Grandes Noites”…
Esses jovens revoltados de hoje podem nem ter consciência disso…
Podem até não acreditar um níquel no palavrório de palanque, podem até se render às evidências de êrros e descaminhos de uma certa casta que se apropriou da linguagem e montou uma estrutura similar à da uma facção: o SINDICALISMO .
O Sindicalismo não necessariamente traduz o discurso dessa juventude (já quase) perdida.
Mas é a opção que lhes é oferecida…
Até porque, do outro lado, o que se levanta pela polarização, pelos aproveitadores de ocasião, é exatamente a tonalidade neoliberal…
Quiçá até mesmo as “teias das vivandeiras” estejam se armando…
Mas tudo é muito confuso. Parece claro – e isso é muito pior…
Não tem “tu”, vai “tu mesmo”.
De ambos os lados.

Quem sabe surja nesse ínterim algo realmente revolucionário…
Uma coisa eu aposto : não será nem da Política , e nem das convulsões enganadoras desse Jogo Lúdico… Nunca foi.
Medieval Times Forever.

Obs : não me venham com impropérios, pois aqui sou apenas um observador….
Igualzinho ao Guilherme aos 12 anos…

E você, é “Lancaster” ou é “York” ?