Governo.

 

Eu procuro não falar de política, pra não ser mais um no coro das obviedades, já que todos estão só falando da situação atual do país, etc…  Está chatíssimo , até porque as mudanças que as pessoas esperam não virão – ao menos na velocidade que todos esperam… O que eu tinha que falar, falei há pouco mais de 3 anos, ao sentar ao piano e compor a música “Moldura do Quadro Roubado”. Ali eu digo tudo, dando forma polida ao que eu acredito, e ao que deixo de acreditar.

Não acredito nesse arremedo de Política que se pratica no Brasil, um jogo sujo sem fim, uma tragédia recorrente de falcatruas desde o Descobrimento. A estas alturas, falta pouco para a Operação Lava-Rabo-dos-Bundas-Sujas se estender até o Barão do Rio Branco, até o Visconde de Mauá , pra se averiguarem as falcatruas da Light , dos loteamentos da britânica Cia City em São Paulo, das implantações arqui-quaquilionárias dos telegraphos, dos telephones, das ferrovias com suas monumentais estações de ferro 100% importadas-até os tijolos- negociadas nos salões com vidros bizotados de Londres e em Paris, por empoladíssimos “gentlemen”, ilustres cavalheiros em ternos de casimira inglesa com colete, tomando seus absintos e fumando seus charutões com seus bigodões  … E ainda ficando para a História como heróis…Vai saber…E quem sou eu pra questionar os Heróis ?  Só não acredito nesse arremedo de Política que se pratica no Brasil. É um teatrinho pra fazer de conta que existe uma Ordem. Não há Ordem alguma, isso é visível, o país patina pra lá, patina pra cá, e volta sempre para o limbo . Há, sim, um espectro de Democracia, é mesmo uma encenação e ponto final. Mas desde a Grécia Antiga, passando por Roma, a proposta é essa, mesmo : de ser uma encenação. Com raríssimas exceções individuais, é cobra-engolindo-cobra.

E pra não me chamarem de “alienado” ou de omisso, por não dar nomes aos bois, cito uma honrosa exceção contemporânea da minha geração : Fernando Gabeira, que, após experimentar a “Política” na praxis, voltou à sua profissão de Jornalista, com dignidade e sempre uma contribuição saborosa e importante para a sociedade : abandonou a “política formal” e suas benesses – não é, pois, um político profissional , sendo portanto uma exceção… mas quantos destes existem ? Uma vez aboletados no poder, os políticos se tornam adictos, tomam gosto pela coisa…Mas, pelo que vemos, era muito mais para os políticos tomarem desgosto pela coisa….

Obs : me orgulho muito de ter feito “Imagens”, o tema de Gabeira para a Prefeitura do Rio, quando houve o “abraço da Lagoa”… Só digo que ele não me decepcionou, muito pelo contrário.

A grosso modo, não há sobrevivência  “nisso que chamam de Política”, sem o chamado “jogo de cintura”, primeiro passo para a malandragem no bom sentido , abrindo caminho favorabilíssimo para a malandragem no mau sentido, e daí à pilantragem explícita é só uma questão de gramática ( ou de aritmética…).

Não acredito em fórmula nenhuma, nem conservadora nem progressista, nem socialista nem capitalista, enquanto os cidadãos em geral  jogarem uma garrafa pet na estrada, acreditando que, a partir do arremesso, aquele dejeto é de “alçada pública”, ou seja, passa a ser problema do “governo”.

Aliás, a sociedade gera todo tipo de dejetos e imediatamente empurra para o que chama de “Governo” – pra depois poder reclamar. É importante ter um repositório de reclamações. Esgoto ? Governo.  Lixo ? Governo. Drogas ? Governo. Crime ? Governo.

O “Governo” é um vilão coletivo, uma instância confortável de terceirização dos problemas. É como para a religião, a figura do Satã.  E quem fica se ocupando muito com Satã perde o seu precioso tempo, que deveria ser dedicado à Gloria do Bem…Como diria Lennon, “Mind Games Forever…” Mas porque então esse Satã ocupa tanto a cabeça das pessoas? Elementar.  O que chamam de “Governo” no Brasil é apenas e tão somente o maior empregador do país. Essa é uma herança da arcaica estrutura ibérica, do colonialismo entesourador extrativista primário. A máquina estatal  emprega milhões , então passa a ser fundamental para a população, é o verdadeiro “patrão” da Pátria. E o pesadelo também.  É por isso que o “butim” governamental  é disputado avidamente entre a direita e a esquerda, infinitamente, de forma pendular. E isso é universal.  Os países que deram certo são aqueles onde os movimentos pendulares entre o socialismo empregador e o liberalismo otimizador  já alcançaram um equilíbrio, no qual esses movimentos pendulares passam a ter uma amplitude cada vez menor, tendendo ao repouso do centro. Exemplo típico : os escandinavos.

A verdadeira “Política” quem faz é o cidadão comum, no seu dia a dia, no trabalho e na sua perseverança, no seu relacionamento estreito com a sua comunidade, arrumando a sua casa, a sua rua, o seu bairro, tendo mais capricho no seu cotidiano, mais atenção com as proximidades, e menos esperanças nas instâncias distantes desse coletivo anônimo, que não tem, nunca teve e nem nunca terá ….

Governo.