Dormentes

Às vezes parecemos dormentes.

Adormecidos sobre um leito de pedras, como se o mundo nos passasse por cima com todo seu som e fúria….
Dormentes,
sob os trilhos de aço de um destino inexorável.

Mas de dormentes não temos nada…
Nada impossível, nada improvável, tudo factível e insondável,
imprevisível,
A dor em nossas mentes opera em silencio.
Em todo o som e toda fúria dos silentes.
Toda ópera dos insurgentes.

Não se enganem se às vezes parecemos dormentes.
Estamos tramando a subversão,
a insurreição mortal e infecciosa contra todas essas correntes,
contra todas as insanidades vigentes…
Estamos gestando os ovos de todas as legiões de serpentes
Que devorarão cobras engolindo cobras e engolindo cobras
eternamente…
todas condenadas, nesse fosso da morte

às vezes, sim, parecemos,dormentes…
E eles estão todos mortos, tecnicamente…
Se o que vemos é um espetáculo deprimido e degradante,
às vezes comédia, mas quase sempre o mesmo drama recorrente.
Ratos e baratas arrastando correntes, como pesadelo
representando não “um” povo,
mas sim “para” um povo assistir…
pensar que ainda estão lá, viventes, mas são na verdade cadáveres.
Um teatro do absurdo, reino da fantasia de espectros.

Arderão nas labaredas de suas próprias vaidades,
consumindo a madeira barata de suas estratégias sem fim,
seu “modus operandi”.

Ouviremos, ouviremos, aqui do populacho, o estertor lancinante…
aqui, da massa ignara que nada apita, nada tem a criticar…
aqui, da galera manobrada, desinformada, desprotegida, insignificante
aqui da arquibancada comum, do público pagante, incauto e imprudente
Aqui da Geral, de onde ao otário só cabe assistir a todo enredo indecente
Assistiremos à morte gloriosa de todos os Salvadores das Pátrias,
e de todo herói que se levante.
Porque…
mesmo dormentes…
a nossa descrença é irreversível,
e tem mais força do que todos os jargões.