Tempo Tirano : “AQUI, Ó !!!”

mujeres solteras de upata Ano Novo… Pro ano que vem, mais uma vez fica uma porção de pequenos detalhes da vida, como finalmente abrir aquela partitura de Debussy, sentar ao piano e poder voltar a uma dimensão atemporal, que sempre ficou pra depois… como…abrir aquelas sonatas de Scarlatti e mergulhar no cravo, sem me lembrar mais de nenhuma modernidade … como… finalmente alinhar aquele telescópio guardado no depósito de inutilidades, e acompanhar um Jupiter, uma lua que fosse, gigantesca na lente, impossível de perder de foco…e ao longo de uma noite de céu estrelado, sem a dor na coluna pra incomodar, sem as muriçocas e borrachudos usuais, …encontrar Saturno…como… finalmente terminar aquele texto que nasceu inspirado mas sucumbiu ao cotidiano esquecido num rascunho no fundo da bolsa… terminar aquelas canções eternamente inacabadas… como… voltar a ficar na oficina, trabalhando com madeira, com linhaças e lacas, remontar aquele gravador cassette que está desmontado na bancada … como… recuperar aquele computador 386, pra rodar aqueles programas primitivos em DOS, que não existem mais… como… voltar a ligar aquele Mario no Nintendinho da sala, e ficar, como eu ficava nos anos 80, perdendo tempo tão precioso… como… tirar uma tarde de bobeira pra ficar perambulando pela cidade, só vendo coisas e tendo idéias, nada de prático ou mais urgente do que simplesmente viver…
O ano de 2016, que ora se vai, tentou ser cruel comigo, mas foi fragorosamente derrotado. Pudemos passar o Ano Novo revisitando a Espanha, tomando Cava na Praça do Sol… Pude fazer um monte de cirurgias de manutenção… Pude casar com Marcia, meu amorzinho, numa festa pequena, mas chiquérrima de cores, sabores e humores tão delicados… Pudemos arrumar o ninho… Pude ver minha filha mais nova andando de bicicleta em Celebration, Florida, de cara pro seu futuro, e hoje, mais do que nunca, sem medo de nada e nem de ninguém…é uma mulher.
Pude dizer pra cada um dos filhos, mesmo aos mais distantes, sobre o meu amor e lealdade, não perdi oportunidade de manifestar meu amor, fazer cafuné nos netos, nos gatos, pude me despedir dignamente da cachorrinha que partiu, e em matéria de amor, fui privilegiado por não deixar nada pendente em tempo algum, nem no passado e nem no futuro. Pude, neste ano, aproveitar o tempo de balanço-geral e fazer milhões de pazes com várias personalidades, reatar sinapses desmanchadas, reforçar amizades e enterrar velhas implicâncias. Pude terminar de contar em vídeo as minhas Histórias de 40 anos de carreira, desovar isso no implacável mundão tresloucado, junto com minha caixa de Obras Completas, com libretinho detalhado com curiosidades impecáveis…Não é pouco, não : aqui, ó, pra você, Tempo Rei, Tempo Tirano, agora ninguém me impede mais de amarrar esse Pacotão… Pude tocar no Municipal do Rio, lotado-até-a-tampa pra me ver ,sozinho com um piano no palco…Pudemos fazer shows memoráveis, como em São Paulo, em BH, em Brasília com a Filarmônica, tudo muito inesquecível… Pude ser tão bem recebido em Cadernos de Cultura, em rádios e na televisão… Ainda, no finzinho do ano, pude trazer minha mãe pra Bahia, andar na praia com ela, levar pra tomar sorvete na Ribeira, visitar o Bonfim, passear no Shopping, comer acarajé, inutilizando “dias úteis” inteiros, dias “de semana”…só pra ela provar o sorvete de Coco Verde, Banana Caramelada, Amendoim, Bacuri, Cajá, Tapioca.
Prometo que, em 2017, aliás nos anos vindouros -todos- esse Tempo Tirano será encarado como um Tempo Brincalhão, e vou realizar o restante de todas as “pequenas inutilidades” absolutamente inadiáveis que o cotidiano insiste em deixar “pra depois”.
Aqui, ó !!!!

Essencia Barroca

enter site Sou um apaixonado pela modernidade, mas não sinto necessidade imperiosa de ser moderno.

application rencontre 100 gratuit Quando eu olho pra onde meu coração olha, também me vejo lá no século XVII.

http://lokoli.com/?rtyt=site-de-rencontre-fille-pour-fille&8af=54 Isso é ser antigo ? Obsoleto ?  É ser aristocrático ? Retrógrado ?

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follow link Perguntas que aprendí a fazer. Quem sou eu ?

go to site Estes são os responsáveis : Papai,  François Couperin  e Wanda Landowska.

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Sofrimento,drama e morte são supérfluos

Hoje começa a ser exibida a série do Documentário sobre o “making of” da minha vida. O “aspecto pessoal” mais prosaico, eu deixo, em boa parte, para os eventuais biógrafos terem  o que acrescentar e ganharem o seu pão … se é que sou personagem para tanto. Com uma vida muito “normal”, e muito parcimoniosa em escândalos e dramas pessoais, penso que sou pouco fértil pra se ganhar dinheiro com isso. Com perdão para a minha ousadia e por me mostrar presunçoso, sem querer me comparar, J.S.Bach era assim, parecido comigo. Ninguém conta fofocas sobre Bach. Então esse é meu Mestre, esse cara é que é F…%&*#$% !!

Minha vida é a música, desde pequeno eu me dedico a essa arte etérea, difusa, imaterial, e que embora matemática, consegue transcender ao divino de forma tão especial.  Os sons, em sua frequência aural, carregam um componente emocional que pode excitar regiões incógnitas da percepção da mente. É um mistério. Ou um segredo.

Em direção contrária, vamos à parte que não é segredo algum… Pra mim seria muito mais prático fazer (mais um ) DVD de grandes sucessos, ao vivo, com participações especiais, cordas, uma banda fazendo aquele “sonzão” em 5.1 surround, com microfones na plateia, câmeras voadoras em gruas, iluminação feérica com canhões, varilights e intelabeams em fachos lampejantes, telões, cenário luxuoso com grife de artista plástico famoso, celebridades na plateia fazendo consagradora “claque”, o público cantando em côro os refrões dos mais de 30 “grandes sucessos”. Mas com isso tudo seria um DVD igualzinho a todos, já que, pra mim, todos os DVDs comemorativos são absolutamente iguais, ressalva feita ao conteúdo musical e poético, que é o único diferencial.

Um DVD comemorativo é, a grosso modo, 80% sensorial, 50% visual, 20% sonoro, e apenas 20% de “conteúdo”. Quando a gente vai comer uma pizza, ao barzinho beber um chope, tem sempre um DVD passando esses “momentos especiais” das Grandes Carreiras dos Grandes Ídolos ( ou dos wannabes….).

Eu não queria isso pros meus 40 anos: orégano ou manjericão ? Claro ou escuro ?  Quem é que presta atenção naquilo ? É bom pra ganhar dinheiro ? Será que o DVD “já era” ?  ( Confesso que pra mim nunca foi : exceto filmes, eu, Guilherme, nunca ví um DVD de show…)

Minto : ví sim, mas do Woodstock !

Em 2001, fíz um belo DVD, com o Taffo e o seu RadioTaxi,…

Então vou fazer outro show gravado ?  Nessa mesma follow linguagem ? Acho que só daqui a um “bom” tempo…e põe “bom” nisso !

Não vou falar aqui das qualidades intrínsecas de nada, não estou querendo exaltar ou diminuir ninguém. Exceto pela diferença do repertório, da orquestra, do timbre das vozes, um DVD de um sublime tenor italiano, gravado nas ruínas de Pompéia com a Filarmônica de Viena, e um DVD de …XXXXX ( coloquem aqui o que quiserem…eu não dou mais a cara pra bater …eh…eh… nunca mais ! ) … ali, na pizzaria, entre muçarelas e calabresas, são ( na prática ) absolutamente iguais, http://irinakirilenko.com/?deribaska=binary-options-demo-account-australia&9e5=89 devido à linguagem visual, direção de câmeras e edição. A fórmula está gasta, então os shows se transformaram no “Holiday on Ice” do entretenimento mundial…

Mas quem gosta, gosta. Pronto.

Usando um termo magistralmente resgatado à “modernidade”, pela genial Tulipa, a fama é efêmera. O significado, não. O sucesso pode ser meramente circunstancial aos investimentos de marketing. O sucesso também pode trapacear com a vitória do medíocre, quando fabricado, sem nenhum significado além da grana e da fama. Desde o início da minha paixão pela Música Popular, na tenra infância, eu já criticava a fabricação do sucesso.

O mercado da música e do Show Business cria suas fórmulas para se aprisionar nelas, tornando as estratégias de vendas mais certeiras e infalíveis. A previsibilidade é fundamental para a projeção de lucros. Só que não é assim que a vida funciona. As pessoas querem mais.

Quem é que, de sã consciencia,  ainda se impressiona com a quantidade de público, o alarido das multidões, a adesão instantânea nos “ritos”  ?  Vox Populi , Vox Dei ?  Resta saber o que se entende por “sã consciência”, porque ainda tem muita gente que adora. É insana ?

Até a Divindade, como concebida pelos humanos, pode trazer esse componente : quanto mais gente, mais significado tem. Será ?   Pois eu questiono isso.

O “Ritual” coletivo é antigo na Humanidade. As celebrações de “Poder” sempre se manifestam em um mar-de-gente-fazendo-a-mesma-coisa.  Isso não é novidade. O ser humano, pra acreditar em algo, precisa ver adesão à sua volta. Os insetos também. As manadas. Os cardumes. Os enxames. As técnicas pra se fazer isso foram dominadas, por exemplo, por Goebbels : um brilhante medíocre que ajudou a inventar um desastre sem precedentes para a Humanidade. Claro que o carisma existe, e sem Hitler, Goebbels não “se criaria” pra ser lembrado. O que eu quero dizer é que esse “significado” atrelado às multidões, ao critério de quantidade de fiéis (ou de fãs) também pode se prestar às finalidades mais espúrias… Pra mim, multidão é bacana, não tem problema, não tenho “asco” de multidão, mas também não é nada obrigatório. Tem um montão de coisas fundamentais na vida, nas quais multidões não fazem parte.

Que as pessoas ficassem “pasmas” com a histeria perante Orlando Silva, Elvis, Sinatra, os Beatles ou Roberto Carlos, é compreensível: estava se criando a indústria do disco, estava se engendrando o “show business”, a indústria cultural no Século XX. Tudo era novidade. E tem mais : eu era adolescente na beatlemania e na jovem guarda, então essa conjunção foi uma delícia !

Por isso, não critico os jovens de hoje. Deixa cada um viver seu tempo, e a festa da juventude é fundamental pro mundo. Mas eu queria algo além.

Hoje, com a tecnologia, tudo ficou muito democratizado, as ferramentas operacionais, os meios e os fins. Ficou banal. Ficou tão banal, que o próprio público também é celebridade, uma revolução sem precedentes nos costumes. Qualquer um pode fabricar o seu “sucesso” , qualquer “Zé-Mané” pode ser alçado a ter multidões para consagrá-lo.

Há, por outro lado, muitos artistas misteriosos para mim, que carregam uma aura especial, e que não frequentam os holofotes do mundo. Eles significam muito, suas obras despertam – não só em mim – sentimentos muito particulares.

O termo “particular”, para mim, encerra uma beleza extraordinária.

Particular porque especial. Particular porque não-público. Particular porque ligado ao infinitesimal da partícula, a grandeza do Universo insondável que existe, não só “para fora”, para as grandezas portentosas do infinito visivel , mas também “para dentro da Matéria e do Espírito”.

Então eu queria contar a minha história explorando essa natureza “particular”.

A idéia é boa, porque ninguém está fazendo isso. A idéia é urgente, porque eu estava com vontade há tempos. A idéia é factível, porque a minha memória ainda anda fresca a respeito de tudo na minha história, e por eu dispor do espaço e das ferramentas pra fazer. A execução poderia ser de uma forma inovadora, que é num coletivo de direção, onde a ótica de um diretor convidado não interferisse de forma alienígena numa narrativa tão pessoal.

Num mundo mórbido, via de regra, as reminiscências, a “memorabilia”, o relicário, são souvenirs que vão ser descobertos e desencavados quando a pessoa não está mais presente. Seja pela simples desistência da carreira, pelo auto exílio misterioso de um Rimbaud, de uma Garbo, pela extinção de uma banda, ou pela morte de um Hendrix, de um Freddie Mercury, de um Renato Russo, de um Cazuza, de uma Amy Winehouse, de uma Cassia Eller, o mundo então trata de recolher os vestígios daquela passagem pelo mundo…E todo mundo se interessa.

Eu gostaria que houvesse tido tempo, e meios, pra alguns dos meus ídolos que já se foram, contarem pessoalmente como é que fizeram suas coisas : Tim, Taiguara, Johnny Alf, Simonal, são alguns nomes entre inúmeros outros.

Alguns vivem um tempo maior, como Jorge Luis Borges, Oscar Niemeyer… Alguns têm um tempo exíguo, sendo ceifados precocemente, como o fundamental Richie Valens…

Mas é muito bom estar vivinho-da-silva !

Alive and kicking.

O que importa é que pra mim esse documentário é um prazer muito grande compartilhar !

Cheers !

 

 

Componente Existencial Zero

Estamos em casa, tentando tirar um final de semana de folga, sereno… Como todos sabem, moro na Bahia. Moro num bairro perto da praia, então os finais de semana são alegres e ensolarados. Como em todo país, reina um clima altamente etílico no ar… Carros com sistemas de som potentíssimos progressivamente vão invadindo o ar por toda parte. Vizinhos começam a beber às 9 da manhã e pretendem prosseguir até segunda-feira, então para “dar o clima” aos churrascos, nada melhor do que um sonzinho… Mas que sonzinho, heim ?

Há um significado nesse som alto, além de tornar a vida do vizinho insuportável. É uma invasão deliberada, existe uma afirmação primitiva de território, ali…

Já viajei muito pelo mundo, não existe isso no Japão, na Espanha, nos Estados Unidos, na Inglaterra, em Portugal, me parece que a legislação proíbe. No Brasil, país barulhento por natureza, se tornou costume a competição de volume sonoro, então fica ridículo…

Temos que fugir para o alívio reconfortante do silêncio, em algum lugar… Que fosse alguma música bonita, pelo menos…mas não : é bruta, é grosseira, é feia.

Às vezes me embrenho no emaranhado de conjecturar o que acontece no Brasil de hoje, de tão peculiar, que fez proliferar na arte popular (me diz respeito especialmente na música) um grande mal, que eu chamo de “utilitarismo”. A música popular sempre foi um item de forte identificação nacional. Com a mistura de culturas, os povos da America Latina sempre apresentaram grande riqueza rítmica, melódica e poética, e até ouso dizer , maior do que em qualquer outro Continente. Até os Estados Unidos têm na cultura latina um forte componente flavorizante : seria bem menos atrativo aquele grande país sem a contribuição da latinidade. Desde os inúmeros caribenhos, passando por México, Colômbia, a hoje triste Venezuela, Peru, Chile e Bolívia, são fortes no lançamento de gêneros musicais ricos e saborosos. A Argentina, com suas misturas de cultura europeia com o rico folclore…  No caso específico do Brasil, a harmonia – por força de uma inspiração “francesa” na cultura da República – é  um componente nobre, e que sempre nos diferenciou, se intensificando com a Bossa Nova, graças ao gênio de Tom Jobim e seus contemporâneos. É bem verdade que sempre foi uma nação excludente e perversa. Nos anos 40, por exemplo, havia uma “maioria invisível” às estatísticas.   Eu já sabia disso, intuitivamente, mas nunca tinha prestado muita atenção …

Há uns anos atrás, numa temporada de shows no Bar Brahma, eu ia todas as quartas feiras passar o som, depois voltava à noite pra tocar, e, me hospedando ali perto, virei frequentador… Ali há um mural com uma grande foto da São Paulo dos anos 40, tirada no Largo do Café… Milhares de homens de chapéu, ternos de casimira e de linho… Homens brancos. Pouquissimas mulheres. Nenhum único negro…Esse é o Brasil de Pixinguinha.

Havia, tradicionalmente, no país, uma “cultura dos salões”, aristocrática, e mesmo os expoentes da legítima cultura popular, como Donga, Nelson Cavaquinho, Cartola, Adoniram Barbosa, Cyro Monteiro, apresentavam uma sofisticação elaborada, que agradasse no Rádio e no mundo do Disco. Lembre-se que os toca-discos eram, a princípio, caros, eram objetos da elite. Assim foi com o Rádio e a Televisão : quem quisesse sobreviver, tinha que agradar aos paladares sofisticados dos “salões” da aristocracia… Isso ocorreu nos EUA, por exemplo, no auge do Jazz. Artistas das “periferias e guetos” se infiltrando nas altas rodas : era uma forma nobre de capilaridade social. Eis o segredo da qualidade dessa turma. O pressuposto de uma exigência de erudição.

E assim se consolidou o Samba, se gerou o Samba-Canção, que finalmente desembocou na Bossa Nova, uma moda irresistível  e chique , que varreu o mundo no pós-guerra, quando os americanos “descobriram” o grande irmão do Sul: até o Walt Disney inventou o Zé-Carioca, certamente sob encomenda do governo americano…

A Bossa Nova era a bola da vez no mundo, e foi avassaladora, invadindo todas as festas regadas a White Horse, Old Parr, Cuba Libre e cigarros, e só foi ultrapassada com o surgimento dos Beatles, em 62 : começava ali a era da maconha, costume já de uma outra geração…

O caminho percorrido pela tão propalada “Linha Evolutiva” de Caetano, daí pra frente, é sobejamente conhecido, e não carece ser relembrado aqui.

O que marca profundamente a música popular dos anos 30, 40, 50, 60, 70 e 80, é um certo “componente existencial”

Fosse o gênero que fosse, com todas as nuances entre a pura vanguarda e a mera diversão, sempre havia por trás essa busca pela individuação da pessoa humana.

Trazer alegria, melancolia, fazer a crítica, o deboche, evocar ideologia, ou até rancor, não importa : o importante seria penetrar na vida sensível do ser humano.

Encurtando essa prosa, quando chegamos ao momento atual, percebemos que houve um empobrecimento profundo na forma com a qual a música popular é utilizada pela maioria da população, e isso especificamente no Brasil. Isto é o momento que vivemos, um suplício para quem não está integrado ao movimento majoritário, que é “a balada”: um estado primitivo de embrutecimento cerebral, “engazopamento” auditivo, pano de fundo para um comportamento grosseiro que, via de regra, remete à celebração coletiva de um “clima de azaração”. Em nome da eficiência objetiva em grandes eventos do show-business, a música se torna utilitária. O importante é funcionar naquele contexto, e muitos são especialistas, mas as fórmulas viram uma prisão.

Não é só festa esse tipo de som, em todas as vertentes. Festa é o que o mundo gosta, sempre existiu, não há problema algum com a festa, ou com o mero entretenimento despreocupado. O problema começa quando é mandatória uma negação de qualquer sentimento mais elaborado ou profundo, um estado de brutalismo deliberado, voltado ao mais rasteiro utilitarismo funcional.

Não quero aqui tecer loas à delicadeza na arte, aos louvores diáfanos: estes também podem ser meramente utilitários e anódinos.  Longe disso:  a arte também pode ter nuances violentas, brutais, e o bom e velho Heavy Metal não me deixa mentir… Pode até descambar para o satanismo, ao brutalismo total, à escatologia, sem o menor problema : as celebrações e “ritos” vêm carregados de questionamento sobre a existência, são instigantes !

Esse componente existencial e emotivo ao qual me  refiro não é, absolutamente, coisa do passado… Ainda persiste, por exemplo, na cultura pop do mundo: os grandes sucessos de massas da hegemonia Anglo-Americana na música, por conta de um mundo que se tornou anglófono… ( por sinal, hoje em dia, irritantemente globalizado, onde você for, ouvirá os mesmos nomes, consumirá as mesmas grifes e produtos, verá os mesmos filmes ) . Mas a qualidade está lá.  Não se tenta vender porcaria, ao menos “via de regra”, a porcaria como critério seletivo…

Não existe o quiero conocer un hombre para casarme orgulho da falta de qualidade.  Há pungência nas vozes, há questionamentos nas letras, há uma busca de inovação nas sonoridades, por mais “fashions and trends” que sejam a cada temporada, há um culto à originalidade nas “levadas”, uma valoração do inusitado, seja nos arranjos acústicos ou nas programações eletrônicas.

Aqui, não. O que é pra ser “bizarro” se torna repetitivo em fórmulas , chato pra cacete ! E as letras … !@#$%&)#!!!!

Pra quem (como eu) um dia pegou coqueluches como a explosão de “Trem das Onze” , fica difícil… Pra quem (como eu) pode curtir o resto da vida a excelência universal de um Luiz Gonzaga, outro sucesso de assustadora potência, fica evidente que se construiu forte tradição na cultura genuinamente popular, uma mas o “mercado” artificializado com investimentos “alienígenas” à música, se caricaturizou, hoje é muito mais visual e marqueteiro do que sonoro. O som é o de menos. O público protagonista está ali para “se filmar na balada“, o artista é um mero coadjuvante, pode ser qualquer coisa que não faz diferença. É só o batidão, pano de fundo…

Mas parece que o objetivo “atual” é esse : ser tão achatado , que se torna bem-comportado , careta e chato.

Dessa forma, hoje, o Brasil é uma nação isolada. A graça toda, nesse grande movimento boçalóide que perversamente aprisiona os espíritos jovens numa redoma de ignorância, (e não só da vida real, mas também – pior – a ignorância de qualquer delírio – uma prisão voluntária) está justamente na esculhambação, na tentativa de ser transgressora de qualquer valor qualitativo : quanto pior for, quanto mais baixo levar na escala do emburrecimento, mais resultados colherá. A massa acha engraçado ser “peba”, existe uma afirmação de inferioridade identitária nesse “riso”, vigora um espírito de “nóis semo tatú...”
E é curioso que parte significativa dessa galera, uma garotada aderente a modas, quando tem grana, lota os grandes shows internacionais, shows com qualidade explícita, e lá se comporta de forma totalmente diferente… adoram as músicas, gostam das letras…. Acham tudo “superior”. Simplesmente, porque é importado, ou pior : pega mal não achar legal !

Mas então não têm senso de nada ? Engolem o que vier ?

O utilitarismo é, pois, um antídoto articulado e proposital contra qualquer componente existencial.

Existe vida, na música do Brasil de hoje ?

Sim, existe, sim, muita vida, pelas beiradas, nas vanguardas, no bom samba, no bom rock, na boa mpb, no bom pop, no bom rap, no bom funk, no bom blues, no bom reggae, no bom dub, no bom forró, no bom axé, no bom sertanejo, na boa eletronica, no bom hiphop, na boa cumbia, no bom regaton, no bom tudo…pode ser o que for, basta que seja bom, é pedir muito?

Existe sim, o idealismo dos que são sábios e lutam contra a corrente dos zumbís.

Agora, já é segunda feira, o “clima de festa” acabou, o povo está de ressaca, então já podemos voltar pra casa.

Só quero tempo

Eu já vinha percorrendo a saga de contar todas as minhas peripécias na música, fazendo o documentário em vídeo e turbinando a caixa de 40 anos, com todos os meus discos, ambos produtos que estão pra sair ainda neste 2016…com a data redonda da minha estreia como cantor/compositor solo, em 1976…

Contar as histórias é quase tão prazeroso – e doloroso também – quanto ter vivido tudo aquilo, ter criado tudo aquilo, ter levado adiante um sonho, e querer amarrar esse sonho em relatos consistentes e ricos em detalhes, num mundo tão antrópico ( no qual é sempre muito mais fácil dissipar a energia nobre da luz e da eletricidade, deixá-las degradarem no calor do esquecimento )…

Ganhei um livro excelente, “As letras dos Beatles”, (A história por trás das canções) de Hunter Davies, editora Planeta… Muito bom, principalmente pra mostrar a importancia do tempo na construção do conteúdo.

No caso dos Beatles, a química entre os componentes foi magistral, e é de se admirar o quanto havia um caldo de cultura naquela época, para a criação do novo. É fascinante entrar nos meandros da usina de arte de John, Paul, George, três companheiros de adolescência que mais tarde, com Ringo, com Epstein ( o quinto Beatle) levariam os delírios criativos dos anos 60 ao paraiso da perfeição. Mas também é fascinante observar a rotina extenuante dessa carreira, e os danos causados por ela.

Fica claríssima a contraposição do “show business” à produção criativa. Há um momento em que Paul declara que um homem com mais de 60 anos deve ficar no estúdio criando, e que jamais ele ficaria na estrada fazendo shows e se repetindo…É engraçado…logo ele que, dos quatro, se tornou o mais disciplinado à repetição e à consagração na cultura de “arena”…Se tornou exatamente o que apostava que jamais aconteceria.

John se apresenta, a princípio, como o chefe, o “guru” da banda, o ímã atrativo, com o “drive” exato que impulsionaria os Beatles, mas depois, com a vinda de Paul, se revelou a face metódica e determinada, e nessa competição, desde cedo se estabeleceu uma dinâmica mortal de criatividade na fabricação de canções. Ambos se superavam na genialidade, e essa genialidade era baseada no prazer e no divertimento da atividade criativa. Eis o segredo… e ainda mais, com a participação de um terceiro (George) com ainda mais habilidade instrumental, com seus mistérios e profundidades, era um trio incomum de criadores ( jovens, muito jovens). Ringo caiu como uma luva, com sua humildade e generosidade, passando a estabelecer as levadas fundamentais pra que aquela “guig” se tornasse uma coqueluche que o mundo tanto desejava…

Mas é bom observar a batalha – e a disciplina da genialidade.

Melhor ainda analisar o processo de degradação que essa disciplina, mantida à base das expectativas de um mundo explosivo , com o tempo foi minando a centelha do prazer .

O sonho, de tão veloz e alucinado, se transformando em traquitana desagradável dentro das mentes e corações…

Hoje, num tempo em que o “show business” venceu, é quase incompreensível esse laboratório.

E é nele que eu estou preparado, pronto, pra mergulhar.

Que privilégio.

Em busca do tempo perdido

Um jovem, às vezes nem tão jovem assim…já que a velocidade vai se tornando uma ilusão real…Descrente com qualquer conversa furada de ideologia ou processo social, tem como única certeza o ceticismo…Seu tempo é escasso e fragmentado para a individuação, raramente, ou mesmo jamais, caminha sozinho recolhendo pensamentos e sensações, que ajudem a elaborar uma visão particular… peculiar…  Muito pelo contrário, se vê atirado às ruas fervilhantes das cidades, que a tudo oferecem de feérico, sumariamente coletivo, no hedonismo que visa preencher o vazio interior e o questionamento, com o ruído supostamente “transgressor”, mas que é pura entropia neutralizada e sem significado. Manipulação total de uma mídia dirigida ao esmagamento.Seu tempo é escasso e fragmentado para o silêncio, a leitura, a assimilação de qualquer estudo, nada escreve, nada cria, nada tem de mais profundo ou substancial, que o ajude a promover sua virada face às dificuldades, ou mesmo que argumente algum conteúdo que propicie transformação  efetiva à sua volta, e que dê algum resultado concreto…Cético quanto a qualquer ambição realizadora, entrega-se à negação de qualquer encaixe nas frágeis estruturas oferecidas pelo mundo. Tudo é falso, tudo é enganoso, não há discurso persuasivo que o motive a lutar. Lutar para quê, para quem, por quê, se tudo é ruína e não vai dar em nada.Nos poucos lampejos de criação, motivados por um trago de empolgação qualquer, uma tragada de delírio qualquer, resolve não ir para a festa sensórea das ruas e dar tratos à bola.Liga uma tela eletrônica e tem a tentação da rede para puxar outra vez sua atenção para o coletivo brutal, a feira moderna.

Um jovem, às vezes nem tão jovem assim..

 

Ser Pai

Ser pai

Chega uma data dessas, o Dia dos Pais, em que a gente quer homenagear o pai da gente.
Mas eu quero homenagear a própria Paternidade, a minha condição de pai, os ensinamentos e o sentido para a vida que ela me proporciona. Vou então homenagear cada filho que a vida me deu, em agradecimento supremo à vida.
Sobre meu pai, o Dr Gelson, seria um capítulo à parte, já sobejamente homenageado não só em cada momento que faço musicas, mas também em várias oportunidades, em particular, e em cena aberta também,até em Shows : me lembro de ter confessado meu amor abertamente, para o público saber, e para êle ver isso perante o mundo.Houve uma vez, no Parque do Ibirapuera,num show com orquestra,que eu o chamei pra ficar do meu lado no palco, inesquecível. Outra vez, no Palace, eu o convidei para ficar nos camarotes, com colegas médicos, e ele não aguentou: no intervalo de duas músicas, no silêncio do intervalo, ele chamou : “Meu filho!….” Não aguentei, e às lágrimas, pedí para o canhão de luz apontar para ele, e expliquei que tudo que eu fui, era, sou, e serei, sempre foi por causa dêle que me ensinou,com 5 aninhos, a “tocar de ouvido” o cavaquinho, o bandolim. E deu no que deu : tudo que êle mais queria evitar, que eu fosse artista, compositor, era também seu desejo mais secreto, e que êle demorou para admitir. Papai, eu te amo, e isso eu disse centenas de vezes em particular, olhos nos olhos, sem subterfúgios nem válvulas de escape. Sei que você está ouvindo, aí do outro lado da Vida !
Mas a paternidade que eu quero homenagear, hoje, se manifesta nos meus filhos.
Marietta, quando você nasceu a minha vida deu uma cambalhota metafísica. Durante a sua gravidez, eu fiz “EXTASE”, um diálogo com o Sobrenatural, que fica aqui consignada em sua homenagem. Nunca vou me esquecer de voce bebê, em Petrópolis, de você pequenininha, sempre doce, mamava e dormia numa boa, sem dar trabalho… Um bebê maravilhoso, uma paz. Seu signo é esse : da Paz. Lembro de levar você, bebezinho, para o palco no SESC Vila Nova, e mostrar para o público, todo orgulhoso, babão. Lembro de voce de óculos,de voce arrumadinha quando eu te pegava para visitas e te levava para o Maksoud pra ficar comigo, voce adorava a piscina quente, o hamburger gigante com fritas do Maksoud… De voce mais tarde brincando com os meninos que foram nascendo, da nossa bagunça na sala, voce era a “Change Mermaid”. De voce curtindo os anos dos especiais infantís, o Lindo Balão Azul, de voce adolescente já aprendendo a tocar musica, piano, bateria. De voce se transformando numa moça linda e alto-astral, sempre com seus desenhos e criações maravilhosas, de voce fazendo parte de uma geração muito privilegiada, criativa, fazendo parte do Afetos, dos Rockers, de suas sinapses musicais com o mundo, de seus toques, sua generosidade, sempre seu amor, não só comigo, mas com a vida, com a humanidade. Lembro do incêndio na sua casa, que lambeu furiosamente com voces dormindo,e que voces não sofreram nada, escaparam por um fio ! Proteção divina ! Lembro de voce no Coaxo, sonhando junto com este pai tão batalhador quanto alucinado. De voce cantando comigo, nos shows, que grande honra !
Sem voce, Marietta, eu não seria o que sou.
Gabriel, quando voce nasceu minha vida deu outra cambalhota metafísica. Voce estava pra nascer durante o Festival do Planeta Água, e nesse astral de eu ter você se somando à Marietta, eu fiz um montão de músicas, dedico pra você “O MELHOR VAI COMEÇAR”, que tem a cara daquela época em que fomos morar no Alto da Lapa. Lembro de você nenê aprendendo a engatinhar no carpete, perseguindo a própria sombra no chão, uma sombra forte porque a gente não tinha nem lustre no teto. Voce achava graça de não conseguir alcançar a propria sombra… Eu te ninei muito, porque voce era duro na queda pra dormir, era um chorão,um chatão ranzinza, mas eu desenvolví a técnica do “cone do sono”, em que, com voce no meu colo eu “adormecia” junto, pra depois eu “voltar” e voce embarcar…Sem o seu sono, eu não conseguiria compor noite adentro… Lembro de voce em suas lutas intermináveis com os irmãos, ( e comigo também ) você era o “Change Pegasus”. Lembro de voce no programa “Balão Mágico”, com Marietta, cantando e dançando o Lindo Balão Azul e o Xixi nas Estrelas… Lembro de você quando a gente tocou o “Tema da Vitória” do Ayrton Senna, voce num teclado, eu em outro,no Clube Naval, na festa de fim de ano da Chave….Todo mundo chorando…Lembro de voce na Disney, e depois nos “programas de TV” que voce produzia quando comprei uma câmera de vídeo…Lembro da explosão de um “vulcão” de fogos, que você foi acender no São João da fazenda de amigos, graças ao bom Deus nada aconteceu…Lembro do assalto a mão armada, em São Paulo, quando o bandido crackeado colocou um 38 na sua têmpora, querendo minha carteira, meu relógio…A vida por um fio… Lembro de você sendo o primeiro a acreditar na minha mudança pra Bahia, e vindo morar comigo pra fazer sua faculdade. Lembro de você voltando de um serão/virote de faculdade, entrando na caixa de areia com o carro, passando a centímetros da pilastra do viaduto de Itapoã… Proteção divina! Lembro que eu não conseguí ir na sua formatura, e que tenho muito orgulho de você. Que sinto um alívio enorme ao saber que voce ficou “bem criado”, uma pessoa do bem, trabalhador, cheio de esperanças neste Brasil de tanta provação.
Sem você, Gabriel, eu não seria o que sou.
Pedro, quando você nasceu, foi a terceira cambalhota metafísica. Lembro que voce era um nenê bochechudo, que o Gabriel pegava no seu pé com ciúme. Lembro de voce engatinhando e tomando uma picada de marimbondo na mão ( deve ter tentado “comer” o marimbondo, coisa de nenê. ) Lembro da gente na praia, no Posto 6, eu, Marietta, Gabriel, e você de fralda. Por essa época, fiz “Cheia de Charme”, “Fã numero 1”, mas dedico pra você a musica “OCEANO”, que marca muito a nossa passagem pela paisagem do Rio, aquele marzão nas janelas, aquele espetáculo ! Lembro de você de botas ortopédicas, pois tinha pé chato , igualzinho a mim…Eu usei botas ortopédicas até os 14 anos… E que, por minha experiência, fiz você abandonar as botas pra só andar descalço, e rapidamente a natureza corrigir sozinha… Lembro também de voce quando eu montava , com peças de sofá de espuma da Tok Stok, um labirinto para nosso “pega-pega”, eu e os (já) três filhos…Eu era o mais criança de todos ! Você sempre foi o “Change Dragon”. Mais tarde, lembro de voce brincando com as crianças do predio na Patápio, a casa cheia de toda a criançada, um verdadeiro playground…Lembro de voce quando um cavalo disparou com voce montado, e que por proteção divina voce se inclinou para trás, passando em alta velocidade,rente a um galho enorme de árvore. Foi por um triz ! Outra vez a Proteção ! Lembro de voce ao final do Colegial indo se aventurar em Tarifa, na Espanha, trabalhando no “Vesúvio”, uma pizzaria…Lembro das preocupações de voce ir para a Inglaterra trabalhar como operário, em trabalho de alto risco… Lembro de pedir pra voce voltar para o Brasil e estudar Áudio pra vir me ajudar pois eu estava montando um estúdio, o embrião do Coaxo…Lembro de voce voltando e fazendo jornalismo aqui na Bahia, vindo se juntar a mim e ao Gabriel na nossa aventura. Lembro de você rapidamente assimilando o negócio da música, e de tudo que voce tem feito por mim e pelo meu sonho ! E também pelo sonho de tantas pessoas ! Lembro também que voce já é papai pela segunda vez, e um pai maravilhoso, amoroso, responsável, exemplar em todos os sentidos. E já posso lembrar de você, Davi, um menino lindo e muito esperto, muito especial. E também de Ester, uma coisinha de menina, um presente que a Vida nos deu !
Sem você, Pedro, eu não seria o que sou.
Tiago, quando você nasceu, foi a quarta cambalhota metafísica. Um ursinho. Voce sempre foi, pra mim, como um menino de pelúcia. Recém nascido, teve bronquiolite e ficou internado, naquela noite eu chorei porque nosso nenê não estava em casa. Mas tudo correu bem, logo você estaria na praia também, pegando sol, de fralda, brincando no Posto 6, junto com Marietta ( já com 6) , Gabriel ( já com 4) Pedro ( já com 2 ) . Voce era a coisa mais fofa do mundo, com seu cabelo cor de mel encaracoladinho. Eu levava todos no Parque do Arpoador , pra voces brincarem nos balanços, nas gangorras, fazer castelinho de areia na primeira ondinha. Nas brincadeiras, voce era o “Change Gryphon”…Lembro de voces andando de bugginho na barra, eu mandando voces “brecarem”, “brecarem”, era pra eu mandar voces “freiarem”, e Pedro não entendeu, ficou me olhando distraído: voces foram com tudo no meio-fio, o bugginho virou e vocês dois foram arremessados no tufo de espinhos… Graças a Deus, nada aconteceu…Me lembro que você era o nosso “Topo Giggio”, um ratinho que morava num buraco na parede da casa, que eu desenhei com pincel mágico, com a inscrição em cima : “GIGGIO”. Fiz uma música nessa época, que eu dedico a você, Tiago – a música “IMAGENS”, feita para o Gabeira, na sua candidatura para prefeito do Rio. Era o berço do ambientalismo explícito.Lembro que voce quase foi levado pelo mar, em Fernando de Noronha, nua praia traiçoeira.Voce foi acudir Marietta, que estava se afogando. Você já havia desaparecido nas ondas bravíssimas e eu ouvi a gritaria, entrei no mar desesperado, um vagalhão me afundou, quando então, lá no fundo do mar, UMA MÃOZINHA PASSA NA MINHA FRENTE : agarrei com força, era você. Fomos acudidos por mais de 11 guarda-vidas heróicos que tiraram Marietta, Tiago, e eu do mar. MILAGRE, MILAGRE, MILAGRE, Gratidão eterna, Proteção. Me lembro de voce na Disney, no Busch Gardens de Tampa, chorando revoltado, porque não tinha altura para passar no gabarito da “Kumba”. Fomos ao banheiro, coloquei um tufo enorme de papel higiênico fazendo uma “palmilha” grossa dentro do seu tênis. Resultado : Passou no gabarito, e lá foi na montanha-russa gigantesca, totalmente proibida para a sua idade. No seu aniversário, fomos à Jacuzzi do hotel, fazer “guerra de bolo”, uma aprontação irresponsável… A temperatura na Florida estava 04 graus, a Jacuzzi estava a 38 graus. Resultado : pneumonia grave, tive que chamar um médico, e ficar dias a fio de “molho” no apartamento, junto com você. Lembro sempre do seu carisma, sempre achando graça de tudo. Lembro de voce, lider estudantil na Unirio, indo de bicicleta para a Urca. Lembro de voce e seus malabares. De voce aqui na Bahia terminando a Biologia na UFBA, e o quanto a Bahia te fez bem.
Sem você, Tiago, eu não seria quem sou.
Paola, quando voce nasceu, foi a minha quinta cambalhota metafísica. Voce veio para transformar tudo em mim. Lembro o quanto amamentei e te coloquei pra dormir. Lembro de voce, pequeninhinha,andando de cavalinho nas minhas costas.. De voce vir morar comigo, das tartaruguinhas no Tamar, você arremessando os bichinhos no mar…Lembro de eu te arremessar na cama, fazendo uma montanha com os edredons e travesseiros, com se fosse uma “modalidade olímpica”… Lembro de voce dormindo no banco de trás da Land Rover. Lembro de voce na escola, eu fingir que era um “Lagarto” e apavorar a criançada…De eu fazer gira-gira com toda a sua classe… e todos pedindo : “Agora eu…Tio…Agora eu…” Voce não pegou a época dos ChangeMan, por isso, voce é outra espécie de personagem mítica..Teletubbie. Lembro de eu pegar uma foto sua e depois fabricar no PhotoShop uma foto dos Teletubbies, onde você era a quinta dos Tele-Tubbies…Tinky Winki… Gipsy…Lala…Paola…Pô….Lembro de voce chegando aqui na Bahia e indo pela primeira vez na praia…dedinho na água, provando..e dizendo “é sagada”…Lembro de voce na Escola Panda e seus temores na mudança para o Mendel… lembro de nossas viagens, para Brasília, Cuiabá, Florianópolis ( ainda nenê ) depois Porto Alegre, Caxias do Sul, Natal, Maceió, São Luiz e os Lençóis, Belo Horizonte, João Pessoa, muito Rio de Janeiro… muita Foz do Iguaçú… lembro do quanto o seu carisma a todos conquista, por onde voce vai…e do quanto todos te amam… lembro de nossa primeira Disney, em que eu chorava tanto, de nossa segunda Disney, junto com Letícia – uma espécie de irmã que a vida te deu… Lembro de seu talento nas coisas, dos nomes que você deu à cachorra Cristal, à tartaruga Cintia , aliás “O” Cintio…, e ao gato “Caramelo”. Lembro do quanto você é vitoriosa, e sabe superar todas as dificuldades. Pra voce, Paola, eu dedico a música “PÃO”, que é explicitamente sobre a PATERNIDADE,expressa o que é esse CRESCIMENTO que a paternidade representa na vida da gente.
Paola, sem você, eu não seria quem sou.

Concluo fazendo esta homenagem à PROTEÇÃO.
Obrigado !
Feliz dia dos Pais !

Há 40 anos

Rua Augusta anos 70

 

Era assim a velha Augusta.

Encarapitado no fundão do ônibus CMTC, linha Largo da Concórdia, eu subia essa ladeira sonhando em como mudar a minha precariedade.

Reparem na roupa, nos cabelos dos pedestres na calçada : éramos assim.

Exatos 40 anos atrás, participei de uma gravação com Tiago Araripe ( Papa Poluição ) sob produção de Tom Zé, no Estudio Pauta, esquina da Major Quedinho com Santo Antônio – perto do Estadão… Era um estudio de apenas 01 ( hum ) canal. Mas era um bom estudio, onde conheci o Luiz Arruda Botelho e seu fiel escudeiro, o Seu Joaquim da manutenção… : tinha um bom piano de cauda, com microfone Neumann, e isso para mim bastaria no meu projeto de mudança…Egresso do seminal Moto Perpétuo, minha banda progressiva de estreia, eu procurava um meio de viabilizar minha carreira particular, meu sonho de me tornar um músico popular. Mas eu não queria ser “maldito”, ser engessado pela “contracultura” , eu me via indo além do que era oferecido pelo mundo… No ano anterior,os excelentes Secos e Molhados entraram em seu colapso, mas haviam deixado um legado importante : tudo era possível, mas muito adverso. Iacanga, o Festival de Aguas Claras, havia ocorrido em janeiro daquele ano de 75, e eu havia ficado muito mal impressionado com o que se chamava de “cena roqueira”. Essa “cena” era o que tinha : os Festivais haviam ficado para trás, com o recrudescimento da Ditadura…O Brasil era essa caretice que se vê na foto : era mesmo em branco e preto. Nossa banda era muito diferente das demais, tinha peculiaridades devido à minha profunda ligação com o Clube da Esquina, com Milton e Lô, com Gismonti, com Jorge Mautner e Walter Franco. Eu já compunha fluentemente fazendo letras que remetiam ao Nuvem Cigana, uma misturada só…E, claro, acompanhava a ascensão de Elton John, um pianista baladeiro de óculos, e me identificava também : as canções inspiradas, belas, as letras viajeiras e existenciais, tudo tinha muito a ver com o que eu já fazia há anos…Aquele estilo estava na moda. Havia uma música que tocava sem parar : Dream Weaver, de Gary Wright, era isso que eu queria fazer, com pianos elétricos, Elka Strings, baladas… Por volta desta época do ano, precisamente neste mês da Agosto de 75, resolvi fazer uma fitinha em 7,5 polegadas ( fita de rolo ) no Estudio Pauta, com qualidade razoável, que me permitisse levar cópias em todas as gravadoras : RCA,RGE,Phillips, Som Livre, Copacabana, Continental… Lá fui eu, de ônibus, de endereço em endereço, calça boca de sino, cabelão, jaqueta de camurça marron, eu era um cara simples, pobre até ( apesar da casa abastada do meu pai, eu era um “deserdado”… ) deixando minhas sementes de esperança… Mas a esperança não era muito grande, não: tempo de Censura, retração absoluta na MPB, ninguém estava contratando. O Brasil vivia infestado de temas de novelas em inglês: era um filão recém-descoberto, já atolado de ídolos brasileiros com nomes saxões : Morris Albert, Terry Winter, Christian, etc.. E todos da minha geração estavam enfrentando essa brutalidade : ou gravava em inglês , ou nada feito. Oportunidade zero. Além desses “brazileiros” ,as novelas tinham, nas trilhas internacionais, várias baladas tradicionalmente num estilo que era muito familiar para mim : apesar de “comerciais”, eu, particularmente, gostava muito do Bread, do Marmalade ( Reflections of My Life ) , do B.J.Thomas em Rock and Roll Lullaby – verdadeiros hits “blackbusters” – e era isso que eu tinha nas mãos , só que em português : era altamente improvável , mas se desse certo, eu ficaria cara a cara com o sucesso que (quase) ninguém estava sendo capaz de produzir. Mas eu tinha um precedente importante, mostrando o caminho Naquele ano de 75, o disco Fruto Proibido, e a Ovelha Negra de Rita Lee. A Som Livre se mostraria mais tarde o lugar certo pra mim…

Lá em baixo na Augusta, perto da Estados Unidos ( exatamente nesse trecho da foto ) ficava a filial paulista da Som Livre, no primeiro andar de um predinho comercial, e eu subí aquela escada para deixar uma cópia da minha fitinha em 7,5. Fui recebido por uma secretária, a Suely, e me sentei ali, na recepção, querendo falar com o produtor Otavio Augusto Cardoso, o “Pete Dunaway”, que havia sido cantor do Memphis, uma banda paulista importante na minha recente adolescencia… Na sala ao fundo, estava o Diretor Comercial da Sigla, Antonio Paladino, espichou o olhar curioso enquanto eu conversava com Otavinho. Este disse não prometer nada, mas que ia ouvir minhas musicas e que me ligaria caso algo interessasse.

Isso acontecia há exatos 40 anos.

As estéticas,a moda,e os maneirismos….

Nesses 40 anos, literalmente, me atirei no mundo,ví tudo mudar,das verdades quer eu sabia,só sobraram restos,e eu não esquecí toda aquela paz que eu tinha…Eu que tinha tudo,hoje estou mudo,estou mudado,à meia noite,à meia luz, sonhando…
Na letra original não tinha “quando eu fui ferido”,esse componente dramático só entrou para alavancar a música na novela Anjo Mau, na virada de 75 para 76…Provavelmente,se eu tivesse me recusado a alterar aquele primeiro verso,não teria começado a carreira fonográfica naquele momento,teria demorado bem mais ou talvez nem acontecido,vai saber…
Há 40 anos,com a minha saída da incrível banda Moto Perpétuo,eu estava livre para ser um cantor popular, mas a batalha estava desumana. Só se gravava em inglês,para tentar as trilhas de novelas. Meu pai,sabendo que eu queria mesmo partir para a música e largar a faculdade de Arquitetura ( A FAU-USP), já não aguentava mais a minha presença na sua casa e o clima andava literalmente hostil . Na Faculdade, eu andava com um tecladinho de estudos, e ao entrar atrasado na sala de aula fui humilhado por um importante professor de Cálculo,que disse para eu ir mesmo “fazer musiquinha” – os colegas riram e me zoaram. Ali foi um basta pra mim. Quebrei o pau geral, descí para a secretaria,tranquei minha matrícula e fui embora daquele “suplício” para nunca mais voltar.
Angustiadíssimo e neurótico, estive por um triz de me atirar do prédio. Mas na beirada da marquise, lá no alto, na hora “H” eu resolví que era bem melhor me atirar no mundo, que o mundo teria que me aturar, e aqui estou eu.
“Me atirei no mundo” era a frase com a qual eu começava aquela musica ancestral,iniciada no final do ano de 1968 do AI-5 no Brasil,e concluída em 1969,ano de Woodstock. Woodstock marcou muito nos costumes e na moda porque se propunha a instituir uma estética descarnada de maneirismos – ilusão. Instituía outros. Se é verdade mesmo que cada época tem os seus maneirismos, tudo tem como pano de fundo a realidade social, os movimentos pendulares da política,as convulsões econômicas,os colapsos e rupturas,e especialmente os períodos de reconstrução,as decadências e ascensões que propulsionam a moda…
Hoje em dia,aos 40 anos de trajetória,é natural que,para a nossa geração já longeva,pareçam ridículos os maneirismos exagerados de parcela considerável dos protótipos da época atual – especialmente no Brasil, país de notória adesão à superficialidade – mas o Brasil não escapa a uma época mundialmente “nonchalant”, pedantemente “cool” : os corpões malhados “comme il faut”, intuindo-se ali horas diárias de deliciosos suplícios de academia, suas endorfinas naturais, nutrientes e aditivos artificiais,óleos em corpos musculosos de suspeitas intenções e espelhos narcísicos, camisetas justíssimas enroladinhas nas mangas exibicionistas, barriguinhas de fora, ripadas,bainhas de cuecas cuidadosamente desleixadas pra aparecerem sem-querer-de-propósito nos jeans folgadões e caidões,nos exageros das ostentações protopunk,nos ouros dos “funks”,nos aços dos “punks”,nos óculos e bolsas exclusivésimos dos hypsters e descolettes,nas bykes yuppies,nos xadrezes grunge,e muito destacadamente – pro meu gosto- os cabelos batidinhos do lado e espetados no alto (tudo a ver com o design ridículo dos automóveis modernosos -batidinhos atrás e espevitados para a frente), os topetes abusados que nem Elvis ousaria, as impecáveis barbas metrossexuais aparadinhas com o zêlo exemplar das absolutas falta de conteúdo e falta do que pensar,do que fazer,pra onde ir, a profusão de tatoos e seus slogans buscando “fazer política” nos corpos,exibidos a público com seus manifestos de fé e de atitude,tudo isso acaba sendo uma alegoria de transformação numa realidade de mesmice e estagnação.
Parecem costumes antípodas de Woodstock.
Posso prever os impropérios das carapuças que se sentirão ofendidas aqui.
Os topetudos dirão que só pode mesmo ser um careca pra falar tão mal dos topetões. Ah, mas isso com certeza : naquela época,os carecas precoces, jovens como Joe Cocker, viraram símbolos de uma Era, de uma Revolução de verdade,de uma rebeldia que mudava de fato um mundo careta e absurdo. Não me lembro de nenhum topetão fazendo história ali. É bem verdade que teve uma banda palhaça de NY, Sha Na Nas, valeria pelo “teatro”, por ser “100 % Comédia” ,mas passou batido geral, uma atração de quinta categoria dentro de uma coleção irrepetível de gênios :
Outra verdade é que a nossa geração também foi plena de maneirismos: calças boca-de-sino,cabelões forçadamente “transgressoramente” desgrenhados de Jim Morrison, quando não, posteriormente, cabelos de glitter rock farofento, afofados com muito secador, chegando-se mesmo ao cúmulo do ridículo dos “mullets” ,curtinhos em cima e compridões atrás, que fizeram e fazem até hoje a caricatura dos vendedores dos “Guitar Departments” nas lojas de instrumentos musicais…E os primeiros neo-sertanejos também pagaram esse mico…
O mundo sempre foi um festival de maneirismos. Querem mais caricatura do que Hitler, Mussolini,e de resto, todos os “salvadores da Pátria” ?
No pós-guerra, década de 50, o niilismo “cool” dos muitos cigarros filosóficos (essa moda perdura resiliente nos “meios pensantes”) fazia parte de um mundo que precisava se reconstruir do absurdo das Grandes Guerras mundiais e sua macabra Morte Industrializada e do genocídio escancarado ( na verdade o genocídio só deixou de ser escancarado e localizado – agora é geral e “mocozado, na moita”).
Os 50 eram tempos de nouvelle-vague,de samba-canção,da fossa,da depressão alcoólica do “meu mundo caiu”. Os homens usavam bigodinho-e-escovinha e fumavam,ah, os cavalheiros fumavam sem parar. Uma multidão de Humphrey Bogarts, precederam os James Dean e os Marlon Brandos da década seguinte:uma nova onda de niilismo,nos 60 viria carregada de maneirismos “cool”: sussurros minimalistas de Chet Baker,dos sambinhas dos cantinhos dos violõezinhos,nos barquinhos,das tardinhas,tudo certinho em Copacabanas e Ipanemas de uma burguesia declarada com manifesto e claras palavras de ordem, embora progressistas – nada retrógradas diga-se de passagem, mas eram palavras de ordem “aristocráticas-gauche”, o design e moda invadindo as capas dos discos, logo desembocariam na reação popular de classe média-baixa da beatlemania,com seus terninhos “mod” e muitos charmosos joelhos de fora à la Twiggy e Mary Quant,no marketing descarado dos Beatles em suas caretas sessões de barbearia explícita com topetes chanel e corte-tigela, formato-de-capacete, nas emulações descaradas da Jovem Guarda com seus muitos anéis, botinhas de bico-e-salto-alto quadrado…
Nesse trecho, precisamente,entro eu, adolescente com muitas espinhas, com 14 anos no ginásio,sapato de La Pisanina, camisa da Franita com colarinho gigante, de palhaço mesmo, verde-limão, perfume Rastro, etc..etc..A gente era ( e ainda deve sempre ser) ridículo, por menos ridículo que queira parecer…Paciência…Pudemos de quebra curtir a chegada dos discos do Led Zeppelin, a chegada do Rubber Soul, do Revolver e do Sargent Peppers. Muito Steppenwolf, Grand Funk, etc… Que época incrível ! Eu, tocando nos bailes do Tenis Clube da Aclimação…Time of a Season, Donovan, The Zombies… Jimi, Janis vieram um pouco depois, já radicalizando bem mais…Com a evolução da lisergia,muitos panos orientais e oculozinhos de aro,babados rococó retrô…
O Rock era um mote perfeito, mas também tinha um defeito grave do qual seria vítima mais tarde : era eminentemente masculino. Prisioneiro da testosterona caricata, boa parte do que permaneceu cortante no Rock,hoje, se deve muito mais a uma estética gay: Queen, Cazuza, Legião. O resto é pura memorabilia , só “ritos coletivos”, previsíveis, como todo Rito deve ser… Não é curioso ? O quanto o satanismo também precisa ardentemente se assemelhar à liturgia “sacra” ?

Este post se deve muito às críticas aos “maneirismos vocais” introduzidos em re-interpretações de músicas minhas, e, de resto, em todo o mercado da música de hoje…
A mim, não incomodam. Mas eu mudo de estação.
Penso sim que há um excesso contemporâneo em vibratos, melismas e artificialidades virtuosísticas nas vozes que buscam um mísero lugarzinho ao sol, cada vez mais complicado pelo excesso de oferta, sejam sertanejos, soul music, axé, pagode, rock, pop,etc..
È rara a voz “lisa”, despojada de enfeites, que eu me habituei a gostar na Bossa de Nara, nos vocais despojados dos Beatles, nos lancinantes Stones, no rock/pop de Rita, de uma Chrissie Hynde, de uma Annie Lennox, no pop de uma Suzanne Vega, na elegancia econômica e discreta de uma Norah Jones de uma Dianna Krall… : seria a adorável voz lisa um outro maneirismo, uma caricatura de outras épocas ? E que agora se deve transgredir com exagerados pendurucalhos vocais ?
É por isso que eu não me sentiria confortável como jurado de reality vocal…
Rotulou-se como “aristocrático” cantar de forma “lisa” . É um êrro.
No Brasil, pátria das cantoras, eu destaco a maravilhosa Maria Gadú, soberana em estilo. A Danni Carlos com seu hit ( já antológico) “Coisas que eu Sei”, idem para Vanessa Rangel ( Palpite), tantos casos de incrível sucesso, como a Roberta Sá, a Céu, a Vanessa da Matta, a Adriana Calcanhoto, Leila Pinheiro, Joyce, Rosa Passos, Tiê, Mariana Aydar, Bruna Caram… nem dá pra enumerar aqui o quanto a voz lisa é infinitamente mais cortante e atinge mais os objetivos.
Não sei porque esse vício de vibrato. Quem gosta de voz do tipo “atração circense” é diretor de TV, que não entende nada de música e pensa que entende de audiência, pensa que o povão gosta de exagero e de caricatura – descambando frequentemente até para grandiloquencias líricas e histrionismos gospel desnecessários…Até o Gospel deveria cuidar para que o exagero não ponha tudo a perder….
Afora minha firme convicção de que lugar de artista é lá na sala dos calouros, junto com os colegas, e JAMAIS na mesa flavio-cavalcantiana de um “júri” ou nos abomináveis “tronos de jurados”…
Um artista será eternamente um calouro, como eu acho que sempre serei: do lado dos colegas, e não tirando o espaço de jornalistas, produtores musicais, mais adequados para estarem do “outro lado”…
Tenho alergia a essa enfeitação “moderna” da voz. Moderno é o despojamento, menos é mais. Eu iria ser o Zé Fernandes : só nota zero. Não suporto “clones” e nem “covers” – mas como está cheio disso, meu rádio fica muito mais no noticiário : mas aí é que é uma tristeza, só noticia ruim e baixo astral, lava isso, lava aquilo, desligo o rádio. Ligo a TV. Só realities. Concurso de vozes. Muita caricatura barata.
Sejam os exibicionismos “ao estilo” das divas Celine Dion, Mariah Carey, Toni Braxton, Laura Fabian e quejandas ( todas eu adoro, mesmo com excessos, para mim são divas e ponto final, jamais eu criticaria como fez certo colega… ) e que representam um vício insuportável das produções das TVs que privilegiam esse estilo…
Sejam os recursos trucosos de “autotunes” de “vocal punch”, que infestam o pop internacional, com vozes que já vêm desde a tenra infância com um “compressorzinho” insuportável, excessos de respirações, colocações de voz-de-boneca, todas iguais…

Não adianta: pra onde a gente vai, tem caricatura. Mas confesso que algumas parecem feitas mesmo para incomodar, porquanto gratuitas, numa época vazia de ideais e de significados.

Um dia vão lembrar das caricaturas de cada época. Todas podem ser questionáveis…
O que importa, mesmo, é o conteúdo, e não a mera embalagem.
Seja no estilo que fôr, com ou sem adereços, o que fica mesmo são as músicas, as letras, a emoção nas pessoas, os significados.
Querem saber ?
Nestes 40 anos não estou nem aí : no fundo,no fundo, nada da moda incomoda mais.
Só intolerância, ignorância, violência e impunidade.
No mais, cada um vive como quer.

O sucesso na arte

É incrível como sempre foi poderoso o “mercado da opinião”,as “curadorias”,a eterna balança da indulgência versus implicância,que levada às últimas consequências,se transforma em “culto” versus “condenação”.
Romero Britto é um fenômeno, independentemente do que achem que é Arte ou não-Arte.
Mas é único, e fez seu o sonho de nove entre dez artistas do mundo… Vender sua arte !!!
O maior problema na vida de Van Gogh : ser um mau vendedor.
Essa foi a verdadeira causa de sua agonia, de sua piração, e de sua morte. E muito do seu mito também – a injustiça,o drama,são fundamentais para o mundo se “solidarizar pela tragédia” – mundo macabro.
Mas eu confesso que, diante de um Van Gogh, qualquer um fica desconcertado porque é grande, é monstro, e ponto final.
Eu ví, com estes olhos que a terra há de comer, os Van Goghs a centímetros de distância, para “devorar” suas pinceladas trágicas.
Mas essas sensações diante da Arte são frutos de uma idéia construída…

O problema de Romero Britto com a crítica não é a grana inacreditável que ele está ganhando, mas sim a presença generalizada de seus trabalhos por toda parte. E a onipresença pode ser prejudicial, porque todo mundo tem, e se torna “menos valioso” já que a valia é proporcional à escassez e exclusividade… Armadilhas do sucesso…
O segredo de Romero Britto é uma combinação de marketing com ACABAMENTO. Os produtos dele são muito bem acabados, o material é de primeira, sem pobreza, os esmaltes e vernizes são espessos, generosos. Agradou em cheio.
É decorativo ? Certamente.
Romero é Pop, se apropriando despudoradamente de cores, texturas e formas em “estilo Picasso/Miró” – que se tornou um “top-trend” universal – é completamente competente e predador em sua esperteza : mas faz coisas belíssimas também.
Se Andy Warhol tem frequentado o MoMa, o Metropolitan, a Tate, a Documenta de Kassel, porque não deixar Romero chegar lá ?
Para o meu paupérrimo e prosaico entendimento crítico, Warhol fez muita bobagem também, mas morreu a tempo de não cair em desgraça pós-sucesso…Muitos “darlings” da crítica têm esse fator certeiro : morrer é um ingrediente fundamental na construção da Lenda…
O ideal é morrer logo após o sucesso: não esperar o refluxo.
Ou então sumir, como Greta Garbo ou Rimbaud…Ou os Beatles…

Belchior, por exemplo, demorou muito para implementar seu plano Rimbaudiano. As pessoas viram êle “na pior…”
Mas está virando um mito – e com muita justiça.

Bob Marley foi outro que demorou um pouquinho para partir deste insensato mundo. Quase caiu. Mas não demorou a morrer, o suficiente para prejudicar a imagem e a construção de sua lenda impecável.

Vejam bem, não estou comparando Britto a Marley, a Rimbaud , nem a VanGogh, e nem muito menos a Picasso, o meu grande ídolo catalão,artista monumental,bon-vivant,esperto,milionário,que viveu tudo que todos seres humanos gostariam de viver e que ninguém conseguiu jamais derrubar. Mas devem ter tentado…
O mundo não tolera o sucesso.

Humilde, prolífico, muito trabalhador e focado, Romero tem a mesma esperteza que um Malcom McLaren teve no Rock.
E Mc Laren era “roqueiro” ? Nem de longe.
Picareta ? Para muitos, McLaren era um mero mercador de faro oportunista. Mas fez também coisas legais, e é cultuado.

Isso é que deu o “modernismo” levado ao extremo,a busca irrefreada de “quebra de valores”,que deu tantos louros a tantos pastiches,meros rabiscos e os mais variados dejetos de pura picaretagem…
Quantas vezes, em museus, nos deparamos com quadros “importantíssimos”, cercados de uma multidão ignara, tirando fotos e babando ôvo, anotando garatujas vazias em seus ridículos caderninhos de puro fingimento erudito, perante “obras de Arte” que visivelmente são uma bosta, que só conseguem achar belíssimas os conhecedores de refinados memoriais descritivos e suas (já repetitivas, manjadíssimas) teorias de História da Arte…
Essa discussão é velha conhecida.
O mundo assistiu,no Século XX da transgressão,a vários endeusamentos de artistas que colocavam nas paredes das galerias mais conceituadas papel higiênico sujo com fezes, animais podres em decomposição,e outras “propostas estéticas altamente revolucionárias” que, francamente, a estas alturas já não têm mais significado nenhum. Se tiveram, foi significado fugaz, volátil, ninguém lembra.
Diante de um evidente “pastiche picareta” , eu prefiro mil vezes um bom Romero Britto – porque é evidente que é bonito e ponto final.

Romero não deve se importar com essa campanha de desgraçamento que os pedantes querem lhe impor.

É um profissional que disse sim aos seus desejos, disse sim aos desafios, disse sim aos desejos da classe média/alta, disse sim para as regras de mercado de um mundo globalizado, disse sim para os que acham que seu trabalho é Arte. E é um brasileiro que DEU CERTO !!!!
Milagres acontecem !

Um jornalista perguntou a Luciano Pavarotti qual era o segrêdo dele ter se destacado tanto numa prodigiosa geração de tenores, para se tornar o número um do mundo, uma lenda…
E Pavarotti, bonachão, respondeu que numa carreira artística o que vale mais é a capacidade de dizer NÃO.

Eis o dilema : dizermos SIM ou dizermos NÃO…

http://www1.folha.uol.com.br/ilustrada/2015/05/1623971-representantes-das-artes-tentam-explicar-a-rejeicao-de-romero-britto.shtml