Outros Carnavais

Nunca gostei, de fato, de Carnaval : sou um sem-graça. Hoje em dia, então, reduziu-se a um hiato de espera pela vida real, e quase nada mais. Há alguns anos atrás ainda fui com Márcia revisitar o Carnaval, nos aventurando até o Edifício Oceania, na Barra, pra ver como andava esse lance da avenida, dos trios, etc… Fomos bem recebidos pela equipe de Flora Gil, e logo nos puseram no pulso um maço de pulseiras de várias tonalidades, cada uma dando acesso a um setor do grande Camarote 2222… O lendário Expresso 2222 como expressão de um grande banco ( o maior banco, aliás ) . O problema é que, ao ver Gilberto Gil reinando como um legítimo Rei Nagô, em seu terraço sobre a avenida, recebendo a merecidíssima reverência dos trios em seus carros de som , formando “guigues” de sucessos com as bandas, começou a ecoar na minha cabeça “O Sonho Acabou…ihhh…” , uma referência seminal do Gil que sempre fez a minha cabeça, e o Carnaval começou a girar, girar, como num pesadelo …. E eu escutando ”O sonho acabou…Ihhh…” não conseguia escutar mais nada. Pedi pra Marcia pra irmos embora o mais rápido possível : era, sim, um pesadelo. Lá em cima do Morro do Gavazza, onde estava nosso carro, ainda ouvimos Gil chamar, junto com Lulu Santos : “Guilherme, cadê você ? “… Queriam minha presença pra cantar Lindo Balão Azul… Mas já era tarde : uma pena, perdí a oportunidade de abraçar dois amigos queridos e festejar com o público de Salvador…Que desfeita… Mas é que não combino mesmo com Carnaval…Várias vezes fui convidado a subir nos carros de som do Asa, de Ricardo Chaves, de Margareth Menezes, de Tatau e seu Araketu…Mas, francamente, sempre me sentí um peixe fora d´água… Lá no passado, até saí na legendária Ala dos Compositores do Salgueiro , com muita honra por sinal, de colete listrado branco e vermelho, na cabeça a palheta, e o distintivo “Compositor” no peito , o que muito me orgulhou por estar simplesmente na companhia de Taiguara e de Jorge Benjor…entre os demais Compositores da grande escola. Me orgulhei ainda mais porque uma escola concorrente , a Mocidade, apresentava um carnaval cujo tema era Chuê, Chuá, As águas vão rolar, e me convidou para ser destaque com um carro “Planeta Água” , e eu recusei solenemente, por estar 100% empolgado com a minha escola, o Salgueiro. Disso eu me lembro com carinho. Poderia ter cedido à tentação da exibição, e até foram campeões, mas não tenho esse tipo de vaidade, uma coisa típica de Carnaval… Esse foi o melhor momento meu como carnavalesco. Um momento com consistência na cultura do Carnaval, coisa que eu respeito profundamente… A abertura do portão na Avenida, com os fogos, a Escola explodindo aquela energia da concentração, em som e fúria de cores lisérgicas , foi realmente uma emoção inesquecível e indescritível. Mas não me encaixo no absurdo Dionisíaco do Carnaval. Devo ser de outra falange, ou o meu Dionísio aproveita pra tirar folga no Carnaval : já é muito ocupado no cotidiano! Essa incompatibilidade em mim remonta a tempos imemoriais.
Me lembro da infância com carinho pelos Carnavais ingênuos de Araraquara, fantasias de pirata e o corso caretíssimo pela Avenida São Bento , o saquinho de confete e os maços de serpentina… As bisnagas de sangue-do-diabo… Na adolescência, a chegada dos lança-perfumes aos salões do baile do Municipal tirou o resto de inocência e substituiu por um embrião de perversidade tóxica. Não era mais infância. Nas décadas seguintes, logo a seguir, nosso cotidiano se transformaria em algo bem mais alucinado do que qualquer Carnaval… Vou usar um exemplo gritante, pra deixar mais evidente, por ser de um contraste acachapante: Na década de 60, que, por uma fortuna incomensurável , pegou em cheio a nossa puberdade e adolescência, a semana do Carnaval significava um retrocesso bizarro com seus discursos machistas, racistas, reacionários, nas letras das marchinhas anacrônicas com levadas marciais, uma pausa inaceitável para um mundo em estado revolucionário. O dia a dia da gente, este sim um verdadeiro carnaval, era simplesmente fascinante com os Beatles, a Jovem Guarda, a Tropicália, o Cinema de Godard, Visconti, Antonioni, Pasolini, Fellini, um mundo de Brigitte Bardot , de Serge Gainsbourg, do Led Zeppelin, dos Stones, das lutas dos Panteras Negras, Primavera de Paris, um mundo em convulsão e completamente descolado do passado. A chegada do Carnaval sempre significou uma parada obrigatória para uma grande alegria compulsória, e eu fazendo parte de um mundo careta de dedinhos-para-o-alto, girando como idiota nos salões dos clubes enfeitados com alegorias horrorosas ao som estridente e esborrachado de trompetes e trombones caricatos.
Isso quando eu era jovem…
Hoje, até abstenho-me de comentar!
E também aqui só falo por mim : Mas quem curte o carnaval, que curta sim ! Quem tem oportunidade de sair e celebrar o que bem quiser…
Cada um faz o que acha melhor, e o mundo adora festejar, não é defeito específico de algum povo querer um pouco de alegria… E todos os povos são iguais : o ser humano é bagunceiro, adora festa.

A diferença é quando acaba.

Quanto a mim…só posso dizer que sempre resta uma esperança : a quarta-feira de cinzas.

Ano Novo

Perdas e Ganhos : Reflexões de Ano Novo…
A cada ano que passa, é mais um ano que se foi … ou é mais um ano que foi agregado ao nosso acervo ? Essa é uma boa pergunta… Porque, afinal, viver sempre se constitui em ganhos e perdas, e disso não há como escapar.
Perdas muitas vezes são mais visíveis, menos sutís, a partir do próprio conceito da pureza original do bebê, referência para todas as correntes espirituais desde que o mundo é mundo.
Entre as primeiras e mais inocentes perdas, há os dentes de leite, que, se a memória não me falha ( olha a perda aí, gente…) eram jogados no telhado das casas, acompanhados de um pedido…me lembro dessa cena lá em Araraquara, na casa do vovó Iracema…Dessa mesma infância, me lembro da São Silvestre, transmitida pelo rádio gigantesco do vovô Luigi Martuscelli, um radião de madeira que “pegava” canais de ondas-curtas do mundo inteiro, com uma antena exagerada de “molas” penduradas no forro do teto da sala… Mas a São Silvestre era sempre uma decepção, nunca adiantou torcer – aquele silencio no meio da barulheira- tinha sempre um tal de Emil Zatopek, um chato de galocha pra ganhar…
Nunca entendí essa história de Ano Novo. Porque as pessoas precisam festejar uma coisa tão corriqueira, que aliás ocorre em minutos e horas desiguais num mundão redondo que gira em períodos desiguais em torno de si próprio, e em anos ainda mais desiguais em volta de uma estrela de quinta categoria esquecida num arrabalde secundaríssimo de uma galáxia de terceira categoria lá nos cafundós de um espaço sem fim… serão mesmo os humanos seres racionais ?
Mesmo assim, prefiro incorporar o ano que se vai como mais um na minha coleção particular, que ninguém jamais vai roubar de mim. Esse ano que se vai, ninguém tasca : tá bem vivido-da-silva, e por isso é que é motivo de alegria pra mim… Não é o ano que entra, porque ele ainda não mostrou serviço. O futuro é incerto, mas claro que é bem-vindo, não sou imprudente a ponto de negligenciá-lo e nem de deixar de reverenciá-lo com todas as pompas de praxe, como manda o figurino…
Feliz Ano Novo, tudo bem, mas “adeus” Ano Velho é lamentável pra mim !
O Ano Velho é que está ganho !
…É que tenho pena do aninho que se vai, por mais decepcionante que tenha sido, não merece tamanha desconsideração, tadinho. Me bate uma tristezazinha boba, porque afinal nos apegamos a ele… Nem deu tempo de convivermos direito, e ele já acabou assim sem mais nem menos. Tínhamos tantos planos juntos – e faz tão pouco tempo, ele ainda era novinho e tão festejado, cheio de expectativas… Hoje é só mais um ? Negativo.
Pelos anos que se foram, sinto muito quem discorda, mas tenho um carinho especial, todos são fundamentais.
Essa é a minha vida. A única coisa que, de fato, não posso jamais negligenciar.
 
O futuro, já responde o ditado popular a Quem pertence!
O que podemos mais desejar uns aos outros?
Apenas que as pessoas possam conjugar os mesmos verbos : dormir, acordar, caminhar, correr, enxergar, saborear, sentir, respirar, ouvir, falar, provar, tocar, amar, conversar, entender, compreender, comer, beber, digerir, defecar, urinar, beijar, transar, gozar, engravidar, dar à luz, aprender, ensinar, escrever, desenhar, costurar, fabricar, trabalhar, estudar, sonhar, sobreviver enfim…
Qualquer verbo, por mais “secundário” que fosse, mas que nos fosse subtraído, e que fosse importante para nós – faria toda diferença !
Que não faltem Verbos – que nenhum deles nos faça falta em 2018.
O resto, a gente tira de letra !

O dia em que tomei café da manhã com Kirk Douglas ….

 

Um dia, cheguei num sábado a Londres, e desavisadamente esquecí que era fim de semana, e não tinha como pegar a chave do apartamento do amigo pianista Marcelo Bratke , em Knightsbridge, onde eu passaria vários meses, muito marcantes na minha vida, por sinal… Com as malas na mão, sem hotel pra ficar, me ví “obrigado” a atravessar a rua e me hospedar no antigo ( e legendário) Hyde Park Hotel…( uma nota preta… mas… pra ficar 2 dias… nada que o cartão de crédito não resolvesse …paciência…)
Exigí então um quarto que ficasse na torrezinha…com vista para o verde do parque.
Ao chegar no apartamento, uma cestinha de produtos da exclusivíssima marca “Penhaligon´s” na cama com dossel,( e eu ficaria viciado dali pra frente ) … já me anunciava o final de semana mágico que me surpreenderia….
Ao descer de elevador, pude conhecer este simpaticíssimo senhor …
Um dos maiores atores de todos os tempos no mundo…
Fui logo puxando papo…
Encantado com minha conversa fiada, com o fato de eu ser um compositor de música brasileira, Mr Kirk virou pra mim e disse : OK , let´s take the breakfast together !!!…
Descemos então para uma pérgola envidraçada , com vista para o Carriage Drive ( Hyde Park ) , e, ao som de violinos tocando Vivaldi, pude contar a ele um pouco do que é fazer música no Brasil.
Tomamos champanhe com morangos … que chique.
Um encanto , inesquecível !

Nesta vida tem cada surpresa… tanto da vida real como do Cinema !!!

https://cinema.uol.com.br/…/ator-lendario-e-pai-de-michael-…

O dia em que Glauber cagou para mim…

Um dia, lá no (nem tão ) longínquo ano de 1978, eu estava numa mesa do ( até hoje lendário ) Fiorentina do Leme, já trabalhando o disco A Cara e a Coragem pela Warner de Midani, e ví de relance que numa mesa próxima estava o sempre falante e carismático Glauber Rocha…
Empolgado com o magistral diretor, fui lá cumprimentá-lo como mero fã tietão…Dizendo que eu adorava ele, etc.. que bobo ! Ele perguntou (assim genericamente, falando alto para todos ouvirem, como era bem o seu estilo ) quem eu era, para, assim sem mais nem menos, dirigir a palavra a ele…”Quem é esse bosta que me dirige a palavra ? ”
Orgulhoso com minha canção “Amanhã” , que naquela época fazia a trilha da genial novela “Dancin´Days”, respondí que eu era o compositor Guilherme Arantes…
Pessoas que estavam com ele falaram da novela, etc.. constrangidas com a indelicadeza do “gênio” …, mas não adiantou … Glauber cravou impiedoso : “Caguei pra você, pra mim você não é ninguém…”
Ora, quem havia me perguntado “quem eu era” foi êle, que , nobiliárquico, exigiu “credenciais” para que lhe dirigissem a palavra…
Que lindo !
Um episódio tão marcante…inesquecivelmente característico.
 
Com o tempo, aprendí que esse comportamento sempre foi recorrente entre os endeusados, quando interiorizam, assimilam à sua “persona” o próprio mito…
Sei que é ridículo, mas ví muito disso, não foi uma, nem duas, foram várias vezes que figuras similares agiram assim, em episódios lamentáveis e gratuitos, e nem só comigo, isso acontece toda hora, com todo mundo, uma atitude que hoje eu sei classificar como “auto-flagelo em público”, é uma auto-desconstrução proposital, pra se tornar figurinha polêmica : faz parte daquele show…
Precisavam disso ? Acho que sim, pois são personagens, e acreditam numa dissociação entre o mito e a pessoa. No fundo, a escrotidão acaba funcionando como adjutória à consolidação do mito…
às vezes a obra nem é tão genial assim, tão seminal, tão acachapante… mas a polêmica o mundo adora !
No fundo, isso também ajuda a figura a se auto-destruir no ressentimento.
E há várias modalidades de auto-destruição, com as quais os mitos auto-construídos podem se deleitar e afundar em seus potes até aqui de mágoa !
O mundo, que é perverso, só saboreia.
 
Hoje, quase 40 anos depois, ainda acho ele genial, e aquela atitude ainda acho naturalíssima. Viva o cineasta !
Não era isso que ele queria ?
 
http://www1.folha.uol.com.br/ilustrada/2017/12/1941254-terra-em-transe-faz-50-anos-e-levanta-reflexoes-sobre-a-atualidade-do-roteiro.shtml

A ENTROPIA DA IMPOTENCIA

Faz um tempão que não emito opiniões, muito por conta do ano produtivo nas criações – o que é pra mim mergulhar numa aventura de um novo disco em meio às convulsões de toda sorte à nossa volta …. Entrei mesmo em parafuso frente ao ruído generalizado e caótico, a entropia do absurdo, essa degereração energética em que mergulhamos…Mas acho que esse “defeito” do nosso tempo atual tem muito mais a ver com a eclosão das “redes sociais” – fenômeno inédito – atingindo um grau de animosidade social com contundência ferina sem precedentes na História, portanto um processo mundial :  humanidade está mais do que nunca no “bagaço moral” , a Babel eletrônica – todo mundo falando ao mesmo tempo, exercendo sua “liberdade de expressão”, o que inclui e valida qualquer escrotidão explícita. O que legitima o Ser não é seu conteúdo, mas sua atitude. “Atitude” é tudo. As pessoas estão sem o menor “polimento”, o que é coisa de um passado empolado e remoto, condenado e condenável, onde as etiquetas sociais eram herança dos anacrônicos costumes cortesãos. Toda aquela codificação extrema de comportamento ditada pelas “elites” aristocráticas e pelas natas burguesas ficou sendo um relicário sem a menor utilidade, jogado no quartinho de bugigangas de nossos avós e nossos pais, mas engana-se quem pensa que deixou de existir. Nãnaninanã… Os códigos apenas mudaram de aspecto, e agora a fricção e o ruído da provocação passaram a fazer parte de uma paleta que sempre foi composta em tons-pastel. Agora é mais modernex, o shape e o design incluem a empulhação pós-industrial, a “desconstrução contemporânea” , o toque mais ousado contra a velha caretice… A lenda da modernidade… Mas vamos lá : de nossa parte, brasileiros, temos um quadro simultaneamente bem mais peculiar nesse frigir dos ovos, porque tendo sido eternamente tutelados, o nosso “timing” é extraordinária e tradicionalmente mais lento, e as questões aqui são de antanho, são feridas abertas que o mundo já viu cicatrizar, e abrir de novo, e cicatrizar sucessivamente inúmeras vezes : nós, não, aqui ainda tudo está na primeira vez. A verdade é que o pau nunca quebrou por aqui, Terra do Carnaval.  Um país que é uma utopia, uma idéia vaga de sociedade, por trás de tudo vejo um mero amontoado de gente desordenada, jogado a esmo no berço esplêndido obscenamente generoso, grande demais para ter qualquer tipo de governo. Não há governo. Nunca houve. Pátria jamais feita para dar certo, nunca deu certo : só arremedos e enganações : nunca vimos o Brasil “dando certo de verdade” : só de mentirinha. Tudo empulhação, roubalheira e marketing construído com conversa fiada pra boi dormir. Mistura e bata . Parece que com a Era da Informação nos descobrimos em toda a nossa esplendorosa impotência, frente à estrutura do Mal que foi se urdindo, década após década, aliás séculos após séculos de vergonhas e baixarias do último escalão do Planeta, sob o manto enganador de um Frankenstein que resulta ser a nossa Democracia Tabajara. Uma piada. Nos descobrimos nanicos especializados em gambiarras legais e ilegais, fiando um tecido social de qualidade medíocre e de natureza maligna : perversão por toda parte, a pátria de uma palhaçada sem fim.  Some-se o maciço mergulho coletivo no terreno imponderável da “fé”, manipulação criminosa praticada sem escrúpulos, correntes oportunistas se aproveitando do momento de especial vulnerabilidade. Emergem as teocracias, os dogmatismos, como sempre. ”Em nome de…” Basta ver nas votações dos nosso grandes “momentos Históricos” … Enfim, agora está todo mundo batendo boca compulsivamente, num teatrinho de marionetes sem talento, “opiniões” manipuladas por todo tipo de cordões ideológicos de natureza jamais questionada, portanto jamais revelada, uma precariedade intelectual sem fim, sem fundo, sem origem, sem objetivo, mera algazarra, furdunço primitivo de um povo escravo de si próprio, prisioneiro medíocre de sua presunção de inteligência, o velho mito do talento especial do Brasil. Nessa impotência de resolver o que interessaria de fato, que seria resolver como é que o apodrecimento político vai ficar, quando é que vai cair a vagabundália de nossa Bastilha, aliás Brasília, eis que surgem como “passatempo da Pólis”, e explodem , providenciais questões-tampão para preencher o vácuo e matar o tempo : Debates com a validade vencida sobre liberdades individuais, implicâncias e indulgências no campo dos costumes, um arremedo patético de “vigilância generalizada”. A repressão de um lado gera mais provocação do outro, e assim, todos latindo, se contentam com sua aparente ferocidade. Passa-tempo perigoso. Provocações mútuas aos moldes das ratazanas em esgotos de penitenciárias, rosnar de feras marcando territórios de hilariante fantasia moral, hienas disputando a carcaça podre da nossa natimorta Democracia : eis os sintomas de uma impotência coletiva, por toda parte, em todas as correntes de pensamento, cada uma se achando mais legítima e acabando por ser cada uma mais ridícula que a outra. Estamos plantando , e quem planta, colhe : a Guerra Civil fratricida, ou, quem sabe, nem isso : ( Talvez não sejamos talhados para a luta mas sim para a galhofa ) , talvez uma permanente barbárie de gangues e facções disputando a miséria geral quando a dignidade já estiver abolida. Estamos a caminho. A velha impotência de resolver as pendências das sociedades universalmente pendulantes entre liberalismo e projeto social , se reduz à mais macróbia impotência que move todo tipo de intolerância mútua entre progressistas e conservadores, impotência geral e irrestrita de zumbís imprestáveis e figurantes de ópera bufa – que sempre culminou na explosão boçal do totalitarismo auto- indulgente, assassino, criminoso, sempre luciferino  em suas boas intenções , inapelavelmente impotente em sua força bruta, na inútil grandeza de seu poderio ridículo e histriônico. É isso que vem aí ?

…não !.
nem isso !
Tudo continuará como está .
nossos antepassados nos diziam que no Brasil “o buraco é mais em baixo”, menos radicalismo, mais realidade modorrenta.
E Tom Jobim ( citando a frase de alguém que não se sabe quem ) dizia que não é pra amadores, para principiantes.
Talvez não seja para ninguém : terra de ninguém .

É por isso que tudo sempre é muito ruim, mas no final é ótimo : porque por aqui não acontece nada. ( vida que segue )

A pretensão da Pólis

Porque todo aquele que, se intitulando ente “politizado” se arvora a ter soluções para uma sociedade , ou é político, ou seja, profissional da presdigitação, da empulhação e do ilusionismo , ou é bandido, querendo álibi e perdão nas brechas da lei esponjosa de uma sociedade esburacada , ou é o “famoso útil” a uma “causa justa”, querendo aparecer por motivação extra-talentos, marqueteiro sem escrúpulos posando de idealista, vendendo seu peixe podre como produto de luxo.
E porque as três coisas se confundem….

Ou melhor, ( ou pior ) porque o ser político é intrínsecamente um enganado enganador. E que até acredita na sua Divina Comédia Humana !

Viva o ser humano que tem os pés no chão, carregando a História Real no lombo do seu anônimo dia-a-dia !

Gilbert

No esplendor dos 20 anos, um gênio em ação.
Esse garoto do vídeo é o maior inspirador de toda a minha carreira musical.
Vejam que incrível ele é.
O talento, a voz, as harmonias, as letras inspiradíssimas, o “style” de Dublin… 
Ah !… A Irlanda … além de tudo é Celta, como a minha adorada Galícia …
A Irlanda, com seus poetas, seus músicos, foi lá da Irlanda que veio tanta coisa em mim…nem sei porque…deve ser algo ancestral.
Ao ouvir esta música,até hoje, não tem pra ninguém.

GILBERT O´SULLIVAN , the best !

Tudo o que eu mais queria ser !!!
Quem quiser realmente entender quem sou eu, adentrar no
” Meu Mundo” e decifrar de onde eu tirei muitas inspirações, precisa conhecer esse grande artista, muito além dos maiores “hits” que ele compôs e cantou com tanta , mas tanta personalidade.
E, como eu, “still alive-and-kicking”…

Eis a minha maior influência na vida.

 

Manuscritos

Um dia, numa arrumação do estúdio, encontrei uma caixa com as fitas k7 onde eu alinhavava os “demos” de inúmeras fases, e uma sacola com vários cadernos antigos, muitos com espiral enferrujado, pastas com papéis soltos amarelados pelo tempo, versos datilografados com garranchos de correções… Nos cadernos, sucessivas versões de letras ainda em fase de criação…
Por coincidência (ou não…) por esses mesmos dias ganhei de uma fã um livro contendo as letras dos Beatles, em fac-símiles dos manuscritos originais, e contando como é que foram criadas as muitas obras-primas dos fab-four… Um puro deleite de se ler!
Ah! A memória é tudo …especialmente quando se tem lendas pra contar…Então essa minha seção-museu também poderia ser um tesouro …
Resolví, então, agregar esse meu material nas comemorações da minha carreira de 40 anos. Pois aqui está.
Nesse conjunto, o motivo das lacunas de alguns períodos é que se perderam, por exemplo, os cadernos do “A Cara e A Coragem”, e vários outros, com muitas mudanças de casa e de modo de vida… Outro motivo é que, uma vez gravadas em disco, as letras e fitas-demo não tinham porque serem guardadas. E eu não sabia que a carreira iria durar o que durou, e nem exatamente o que eu iria significar, com o tempo…O fato é que esses dois pacotes, o de fitas-demo em cassettes e o de cadernos e papeladas soltas de letras, ficaram guardados por puro acaso. Houve vários períodos em que eu, acometido por raivas e revoltas, joguei muita coisa fora, são os meus “incêndios de Alexandrias”…não sei como este material sobreviveu…Aliás, pensando bem, não sei como a gente sobrevive, porque uma coisa inerente à memória, é ela ser apagada, mais dia, menos dia…
Hoje, eu não tenho como “fakear” e fazer de conta que um papel, ou um “demo”, é de uma época em questão… Seria feio da minha parte “inventar rascunhos originais” – a beleza desse material é a “minha descoberta” deles, 40 anos depois… Juro que eu relutei por muito tempo, em abrir esses baús, porque a gente fica mais e mais envolvido com o presente e com o futuro, e a revisitação de “outras vidas” muitas vezes é dolorosa, há um transporte no tempo e nem tudo são flores lá atrás – apesar do passado estar confortavelmente ( e situado seletivamente ) numa zona de prazer e “segurança”. Mas ao olhar minha letra e ouvir minha voz, algo me causa um estranhamento, não sei o que é.
Parece que foi outra pessoa que passou por ali…
O fato é que muitas estátuas de nosso passado estão mesmo sem braço, sem cabeça, mutiladas pela ignorância do tempo.
Também houve um período, com a entrada dos PCs e Macs nas nossas vidas , que a gente passou a fazer tudo no computador…e esse efeito é devastador, porque só permanecem os produtos finais, em sucessivos “salvamentos” que soterram o caminho : resta apenas o “produto”.
Mas eu redescobrí, depois de 2007, o prazer de fazer cadernos, a princípio esparsos, e já em 2013 voltam a ser sistemáticos, com a feitura do Condição Humana.
Hoje eu sei profundamente que o bom mesmo não é a paisagem da chegada, mas a experiência do caminho.

Faísca Avançada

Quando a vaidade transforma figuras notáveis em patéticas…

Eu era uma criança alegre, gostava de pescar, de ler Julio Verne, Monteiro Lobato e Machado de Assis. Brincava de correr em carrinhos de rolimã, esfolando mãos, braços, joelhos, escangalhando tênis no cimento caótico das calçadas das Alamedas Campinas, Jaú e Itú… Tocava piano toscamente, mas com prazer, me recusando a me alinhar aos ditames dos Czernys , dos Hannons torturantes , e era considerado um estudante de quinta categoria pelos esforçados professores que Papai contratou , os adoráveis Gorga e Hélio… Papai achava que eu tinha que ser algo mais… sonhava pra mim com os salões da Europa em concertos de Tchaikovsky , Rimsky-Korsakov e quejandos…que eu admirava, de coração, mas não conseguia me enxergar naquilo… A minha onda era outra… Eu me amarrava na simplicidade piramidal de Bach, e os que eu gostava de fato, Chopin, Beethoven, e mais tarde, Debussy e Ravel, Papai não era muito chegado não… Mesmo assim eu encontrava, ludicamente, na música, uma alegria, um frescor que até hoje não consigo descrever…uma identificação profunda, que não tinha nada a ver com os rigores acadêmicos obrigatórios.

Na música, é muito comum haver uma completa desconfiança com as prodigalidades de crianças e adolescentes, quando o jovem demonstra desembaraço e criatividade, logo os “pedagogos” tratam de “cortar as asinhas”, e os exemplos de crianças como o pequeno Mozart, que Papai citava constantemente, que “dormia em baixo do piano”, que “fazia concertos aos 5 anos de idade”, etc… o geniozinho tendo apanhado diariamente para se coadunar com a teoria musical…eu achava tudo isso uma palhaçada e nunca dei ouvidos, literalmente eu pouco estava me lixando para a infância de Mozart, para a tuberculose de Beethoven, para os dramas existenciais de Chopin…

Eu preferia meus carrinhos de rolimã, e escutava os discos da gravadora Elenco, com Baden, Tamba Trio, Nara Leão, Edu Lobo, com a mesma pouca-cerimônia de quando colocava Jorge Ben, as Canções Praieiras do Caymmi, Luiz Gonzaga, ou mesmo a magistral caixa de interpretações da Wanda Landowska ao cravo, para repertório barroco ( Haendel, Couperin, Rameau, Scarlatti ) . Pra mim, música era uma alegria só. O que me atraía mesmo eram os sucessos no Rádio, Trem das Onze, Ray Charles com “I Can´t stop Lovin you”… e as feéricas tardes de domingo com o Jovem Guarda , assim como o filme A Hard Days Night.

A música que me interessava tinha que ser fácil de fazer e fácil de gostar. Ponto final : algum problema nisso ? Em ver a música como uma arte deliciosa, de prazer , e não um flagelo de torturas e submissão. Isso era coisa relacionada aos rigores da erudição.

Certa vez, o Dr Gelson me levou para o meu caso ser “analisado” por um casal de “entendedores de música erudita”, e, de pronto, fui classificado como um exemplar clássico de “Faísca Avançada”, que é aquele jovem que, por causa do talento criativo, é um problema pedagógico. Eu achei isso uma piada…

Quer dizer que existia essa tipificação doutrinária nos meios acadêmicos…Com o passar dos anos, fui aprendendo que é assim mesmo, que o mundo é repleto de acadêmicos catiçadores : qualquer pessoa que apresenta qualquer tipo de “vaidade criativa” deve logo ser enquadrado pelos verdadeiros “connaisseurs” e devidamente colocado em seu reles lugarzinho dos zé-ninguéns…

Mais tarde, já no tempo da Faculdade e pós-tropicalismo, eu comecei a reparar que tudo era uma questão de “griffe” , surgiriam os louváveis “Discípulos de Smetak”…e já nos pedantes anos 90 de Yuppies e Hipsters , em plenos tempos de Drum N´Bass revisionista da Bossa, os veneráveis “Discípulos de Koellreutter”. Tudo conversa de quem ouviu-dizer acerca da erudição , tudo lixo, tudo gancho de marketing. Smetak e Koellreutter são figuras adoráveis, e concordariam comigo em gênero, número e grau, e eu tenho, sim, a (boa) inveja de quem pôde conviver com eles. Os dois iriam adorar ensinar muito pra mim, trabalhar com esta “Faísca Avançada”… Os maiores citadores-de-nomes-referência-do-meio-acadêmico só ouviram falar dos mestres… E os trouxas compram esse pacote-enganação… Daí tamanho desdém com quem usufrui do delicioso prazer da música, onde o maior sucesso é entrar na vida das pessoas e banhar os amores com os sons de uma criação espontânea, fácil. Ninguém precisa desses empolamentos pretensiosos dos meios acadêmicos, feitos de pura arrogância e vaidade. E isso se aplica a vários outros gêneros de atividades humanas. Pra quê tanta Pós, tanto MBA , tanta certificação, se o mundo continua a mesma titica de sempre ?

Hoje, eu vejo tudo isso de forma diferente, com perdão e compaixão, porque são expressões da vaidade. O talento verdadeiro tem, também, sua dose de vaidade embutida…Mas a vaidade dos desprovidos de talento também existe, e se direciona no sentido de diminuir a facilidade alheia em se expressar, criando zonas de excelência, manuais de pré-requisitos e ritos de iniciação.

Um dos problemas que eu enfrentei com os professores foi a moda da Bossa-Nova, refinada, sim, bela e eterna, sempre, mas onde se alojaram inúmeros exemplares de uma cultura musicalmente esnobe.  Meus professores de piano, claro, tinham na Bossa-Nova uma referência de sucesso, onde a técnica virtuosística passou a dominar, e onde o músico com maior formação acadêmica era o artista mais valorizado. Começou a ficar chatinho, pro meu gosto, até porque o mundo era invadido por uma onda de simplicidade genial, a Beatlemania, fazendo dez vezes mais sucesso, numa tsunami globalizada… Houve um período em que a simplicidade da Bossa foi agregando virtuosismos mais e mais empolados e, metidíssimos, se tornaram figuras insuportáveis em termos de cagação-de-regras.  A Bossa já não apresentava a mesma leveza genial do início do movimento, onde a simplicidade se aliava à qualidade criativa, surpreendendo o mundo. Nessa segunda fase da Bossa, por um lado,  a MPB já agregava conteúdos social-nacionalistas, folclorísticos, e surge o discurso de resistência política, em face do momento histórico no Brasil.  Fica, então, a música popular refém de duas desastradas correntes de exigências. Nas letras, nacionalismo socialista. Nas melodias e harmonias, a praga da erudição. É quando eclode o Tropicalismo, resgatando a alegria de fazer música e a liberdade criativa explode, agregando as lições da Jovem Guarda. Penso mesmo que a Jovem Guarda e o Tropicalismo são uma coisa só – mas isso é opinião pessoal.

Uma geração inteira de craques na música eruditóide ficava pra trás. Fazer o quê ?

Outro dia, eu estava vendo uma filmagem, com um ícone dessa nobre estirpe, rodeado de jovens músicos da Geração Baixo Augusta babando ovo, e fiquei só observando os efeitos da vaidade, no discurso, no “rasteiro filosofes”, e me lembrei de quantas vezes fui esnobado por bossa-novistas mais rancorosos… Não foi uma vez só. Foi desde a infância.

Sorte minha foi a simplicidade e a generosidade do grande Tom Jobim, pra me dar uma força, com suas palavras de incentivo. Sorte minha foi ter ouvido do próprio João Gilberto as palavras que eu ouví. Tem figuras da Bossa-Nova que não precisam de vaidade nenhuma.

Uma vez, bem mais recentemente, em Nova Iorque, eu estava lançando meu instrumental de piano, distribuído pela Sony, mas 100% independente, com um concerto no Steinway Hall, onde eu gastei, do meu bolso, 25000 dólares, num esforço descomunal, uma produção e execução completamente solitária, contra tudo e contra todos… Tive até que vender meu estudiozinho no Itaim pra pagar essa aventura…  E esse mesmo “ícone da nobre estirpe” da Bossa Nova estava fazendo um show coletivo com mais dois outros “ícones da nobre estirpe”, (exemplares clássicos) e eu caí na besteira de ir lá assistir ao show e depois ir ao camarim, presenteá-los com meu CD instrumental, com o maior orgulho e simplicidade, com a maior pureza de fã, e ouvi , pasmo, um comentário de que a “Sony” estaria me proporcionando tudo aquilo, isso dito com um certo desdém…”Olha só, quando os caras querem, o que eles são capazes de fazer…”  Só faltava emendar “para um mequetrefe como você, Faísca Avançada…”

Mas só que aquele disco era uma vitória pessoal, solitária, quixotesca, sem a menor participação de ninguém, e a observação ficou sem sentido, no vazio. A maioria dos “eruditódes” não sustenta o discurso e se perde no caminho, quando se mete a ter muito “senso crítico” sobre o mundo.  Pois é…A vaidade de uma suposta “erudição” se mostra, em todo seu esplendor de rancores, falando demais, e nada como o tempo pra depurar.  Hoje, eu acho tudo muito ridículo.

Fico então na maior atenção com a vaidade…

Às vezes o mundo diz que a gente é uma bosta – na maioria das vezes.

Outras vezes – raras -o mundo diz que a gente é o máximo.

É bom tomarmos cuidado com ambas. Não acreditar em nada que não é dito com o coração.

 

Engendrando na calada

Às vezes eu mesmo me assusto com a “desligada” geral que promoví recentemente…Mas já tô dando as caras de novo…É que estou com um trabalho novo na prancheta, e sem tempo pra compartilhar migalhas ou fragmentos de idéias… Tudo está indo para o conteúdo… que vem aí…espero, com caldo substancioso de presente pro mundo!

Preciso urgentemente desovar uma nova “coleção”…Que cumpra minha função de trazer novidades pra dentro das vidas das pessoas.. Que faça cantar, de fato, menos blá blá blá … o “discurso sobre a realidade crua” está cansado e inútil !  O mundo precisa de inspirações, sonho, delírio, romance, tudo que se consubstancia naquilo que sei fazer de melhor – se é que sirvo pra acrescentar alguma coisa… isso é que eu gostaria de exercer como função social e política : fazer cantar. Sem isso, todo raciocínio “articulado”, “antenado”, “inteligente”, vai tudo por água abaixo !!!

Tomara que dê certo ! Desta vez, estou profundamente ocupado em me perguntar, em me responder, afinal, o que é que as pessoas gostariam de ouvir…

E isso dá trabalho…