A ENTROPIA DA IMPOTENCIA

Faz um tempão que não emito opiniões, muito por conta do ano produtivo nas criações – o que é pra mim mergulhar numa aventura de um novo disco em meio às convulsões de toda sorte à nossa volta …. Entrei mesmo em parafuso frente ao ruído generalizado e caótico, a entropia do absurdo, essa degereração energética em que mergulhamos…Mas acho que esse “defeito” do nosso tempo atual tem muito mais a ver com a eclosão das “redes sociais” – fenômeno inédito – atingindo um grau de animosidade social com contundência ferina sem precedentes na História, portanto um processo mundial :  humanidade está mais do que nunca no “bagaço moral” , a Babel eletrônica – todo mundo falando ao mesmo tempo, exercendo sua “liberdade de expressão”, o que inclui e valida qualquer escrotidão explícita. O que legitima o Ser não é seu conteúdo, mas sua atitude. “Atitude” é tudo. As pessoas estão sem o menor “polimento”, o que é coisa de um passado empolado e remoto, condenado e condenável, onde as etiquetas sociais eram herança dos anacrônicos costumes cortesãos. Toda aquela codificação extrema de comportamento ditada pelas “elites” aristocráticas e pelas natas burguesas ficou sendo um relicário sem a menor utilidade, jogado no quartinho de bugigangas de nossos avós e nossos pais, mas engana-se quem pensa que deixou de existir. Nãnaninanã… Os códigos apenas mudaram de aspecto, e agora a fricção e o ruído da provocação passaram a fazer parte de uma paleta que sempre foi composta em tons-pastel. Agora é mais modernex, o shape e o design incluem a empulhação pós-industrial, a “desconstrução contemporânea” , o toque mais ousado contra a velha caretice… A lenda da modernidade… Mas vamos lá : de nossa parte, brasileiros, temos um quadro simultaneamente bem mais peculiar nesse frigir dos ovos, porque tendo sido eternamente tutelados, o nosso “timing” é extraordinária e tradicionalmente mais lento, e as questões aqui são de antanho, são feridas abertas que o mundo já viu cicatrizar, e abrir de novo, e cicatrizar sucessivamente inúmeras vezes : nós, não, aqui ainda tudo está na primeira vez. A verdade é que o pau nunca quebrou por aqui, Terra do Carnaval.  Um país que é uma utopia, uma idéia vaga de sociedade, por trás de tudo vejo um mero amontoado de gente desordenada, jogado a esmo no berço esplêndido obscenamente generoso, grande demais para ter qualquer tipo de governo. Não há governo. Nunca houve. Pátria jamais feita para dar certo, nunca deu certo : só arremedos e enganações : nunca vimos o Brasil “dando certo de verdade” : só de mentirinha. Tudo empulhação, roubalheira e marketing construído com conversa fiada pra boi dormir. Mistura e bata . Parece que com a Era da Informação nos descobrimos em toda a nossa esplendorosa impotência, frente à estrutura do Mal que foi se urdindo, década após década, aliás séculos após séculos de vergonhas e baixarias do último escalão do Planeta, sob o manto enganador de um Frankenstein que resulta ser a nossa Democracia Tabajara. Uma piada. Nos descobrimos nanicos especializados em gambiarras legais e ilegais, fiando um tecido social de qualidade medíocre e de natureza maligna : perversão por toda parte, a pátria de uma palhaçada sem fim.  Some-se o maciço mergulho coletivo no terreno imponderável da “fé”, manipulação criminosa praticada sem escrúpulos, correntes oportunistas se aproveitando do momento de especial vulnerabilidade. Emergem as teocracias, os dogmatismos, como sempre. ”Em nome de…” Basta ver nas votações dos nosso grandes “momentos Históricos” … Enfim, agora está todo mundo batendo boca compulsivamente, num teatrinho de marionetes sem talento, “opiniões” manipuladas por todo tipo de cordões ideológicos de natureza jamais questionada, portanto jamais revelada, uma precariedade intelectual sem fim, sem fundo, sem origem, sem objetivo, mera algazarra, furdunço primitivo de um povo escravo de si próprio, prisioneiro medíocre de sua presunção de inteligência, o velho mito do talento especial do Brasil. Nessa impotência de resolver o que interessaria de fato, que seria resolver como é que o apodrecimento político vai ficar, quando é que vai cair a vagabundália de nossa Bastilha, aliás Brasília, eis que surgem como “passatempo da Pólis”, e explodem , providenciais questões-tampão para preencher o vácuo e matar o tempo : Debates com a validade vencida sobre liberdades individuais, implicâncias e indulgências no campo dos costumes, um arremedo patético de “vigilância generalizada”. A repressão de um lado gera mais provocação do outro, e assim, todos latindo, se contentam com sua aparente ferocidade. Passa-tempo perigoso. Provocações mútuas aos moldes das ratazanas em esgotos de penitenciárias, rosnar de feras marcando territórios de hilariante fantasia moral, hienas disputando a carcaça podre da nossa natimorta Democracia : eis os sintomas de uma impotência coletiva, por toda parte, em todas as correntes de pensamento, cada uma se achando mais legítima e acabando por ser cada uma mais ridícula que a outra. Estamos plantando , e quem planta, colhe : a Guerra Civil fratricida, ou, quem sabe, nem isso : ( Talvez não sejamos talhados para a luta mas sim para a galhofa ) , talvez uma permanente barbárie de gangues e facções disputando a miséria geral quando a dignidade já estiver abolida. Estamos a caminho. A velha impotência de resolver as pendências das sociedades universalmente pendulantes entre liberalismo e projeto social , se reduz à mais macróbia impotência que move todo tipo de intolerância mútua entre progressistas e conservadores, impotência geral e irrestrita de zumbís imprestáveis e figurantes de ópera bufa – que sempre culminou na explosão boçal do totalitarismo auto- indulgente, assassino, criminoso, sempre luciferino  em suas boas intenções , inapelavelmente impotente em sua força bruta, na inútil grandeza de seu poderio ridículo e histriônico. É isso que vem aí ?

…não !.
nem isso !
Tudo continuará como está .
nossos antepassados nos diziam que no Brasil “o buraco é mais em baixo”, menos radicalismo, mais realidade modorrenta.
E Tom Jobim ( citando a frase de alguém que não se sabe quem ) dizia que não é pra amadores, para principiantes.
Talvez não seja para ninguém : terra de ninguém .

É por isso que tudo sempre é muito ruim, mas no final é ótimo : porque por aqui não acontece nada. ( vida que segue )