Tempo Tirano : “AQUI, Ó !!!”

Ano Novo… Pro ano que vem, mais uma vez fica uma porção de pequenos detalhes da vida, como finalmente abrir aquela partitura de Debussy, sentar ao piano e poder voltar a uma dimensão atemporal, que sempre ficou pra depois… como…abrir aquelas sonatas de Scarlatti e mergulhar no cravo, sem me lembrar mais de nenhuma modernidade … como… finalmente alinhar aquele telescópio guardado no depósito de inutilidades, e acompanhar um Jupiter, uma lua que fosse, gigantesca na lente, impossível de perder de foco…e ao longo de uma noite de céu estrelado, sem a dor na coluna pra incomodar, sem as muriçocas e borrachudos usuais, …encontrar Saturno…como… finalmente terminar aquele texto que nasceu inspirado mas sucumbiu ao cotidiano esquecido num rascunho no fundo da bolsa… terminar aquelas canções eternamente inacabadas… como… voltar a ficar na oficina, trabalhando com madeira, com linhaças e lacas, remontar aquele gravador cassette que está desmontado na bancada … como… recuperar aquele computador 386, pra rodar aqueles programas primitivos em DOS, que não existem mais… como… voltar a ligar aquele Mario no Nintendinho da sala, e ficar, como eu ficava nos anos 80, perdendo tempo tão precioso… como… tirar uma tarde de bobeira pra ficar perambulando pela cidade, só vendo coisas e tendo idéias, nada de prático ou mais urgente do que simplesmente viver…
O ano de 2016, que ora se vai, tentou ser cruel comigo, mas foi fragorosamente derrotado. Pudemos passar o Ano Novo revisitando a Espanha, tomando Cava na Praça do Sol… Pude fazer um monte de cirurgias de manutenção… Pude casar com Marcia, meu amorzinho, numa festa pequena, mas chiquérrima de cores, sabores e humores tão delicados… Pudemos arrumar o ninho… Pude ver minha filha mais nova andando de bicicleta em Celebration, Florida, de cara pro seu futuro, e hoje, mais do que nunca, sem medo de nada e nem de ninguém…é uma mulher.
Pude dizer pra cada um dos filhos, mesmo aos mais distantes, sobre o meu amor e lealdade, não perdi oportunidade de manifestar meu amor, fazer cafuné nos netos, nos gatos, pude me despedir dignamente da cachorrinha que partiu, e em matéria de amor, fui privilegiado por não deixar nada pendente em tempo algum, nem no passado e nem no futuro. Pude, neste ano, aproveitar o tempo de balanço-geral e fazer milhões de pazes com várias personalidades, reatar sinapses desmanchadas, reforçar amizades e enterrar velhas implicâncias. Pude terminar de contar em vídeo as minhas Histórias de 40 anos de carreira, desovar isso no implacável mundão tresloucado, junto com minha caixa de Obras Completas, com libretinho detalhado com curiosidades impecáveis…Não é pouco, não : aqui, ó, pra você, Tempo Rei, Tempo Tirano, agora ninguém me impede mais de amarrar esse Pacotão… Pude tocar no Municipal do Rio, lotado-até-a-tampa pra me ver ,sozinho com um piano no palco…Pudemos fazer shows memoráveis, como em São Paulo, em BH, em Brasília com a Filarmônica, tudo muito inesquecível… Pude ser tão bem recebido em Cadernos de Cultura, em rádios e na televisão… Ainda, no finzinho do ano, pude trazer minha mãe pra Bahia, andar na praia com ela, levar pra tomar sorvete na Ribeira, visitar o Bonfim, passear no Shopping, comer acarajé, inutilizando “dias úteis” inteiros, dias “de semana”…só pra ela provar o sorvete de Coco Verde, Banana Caramelada, Amendoim, Bacuri, Cajá, Tapioca.
Prometo que, em 2017, aliás nos anos vindouros -todos- esse Tempo Tirano será encarado como um Tempo Brincalhão, e vou realizar o restante de todas as “pequenas inutilidades” absolutamente inadiáveis que o cotidiano insiste em deixar “pra depois”.
Aqui, ó !!!!

Roda da Historia

É triste olhar em volta e só constatar estagnação e desânimo. Vejo, ao cair da tarde, os comerciantes fechando seus estabelecimentos com um olhar perdido, de mais um dia perdido, de um tempo perdido, de uma geração perdida, um olhar vago no futuro incerto. Que esperanças fazem essas pessoas reabrirem a suas lojinhas, quando, amanhã, o sol raiar ?  Vejo os jovens procurando um caminho e encontrando o nada, a negação, a sensação do fracasso. É deles o fracasso? É dos milhões de desempregados a culpa? A culpa é de quem acreditou, votou, trabalhou, pagou impostos escorchantes,sempre dizendo: uma hora vai dar certo? A culpa é dos nossos pais, que estavam trabalhando em troca de parcos salários e não tiveram tempo para serem espertos e ganharem dinheiro de verdade, como sempre fizeram os parasitas?

A culpa é da precariedade, vulnerabilidade da Pátria. A culpa é da prodigalidade desta terra : muita fartura também vicia. O brasileiro é um eterno pobre, iludido com as “riquezas nacionais”. Mesmo ( e especialmente ) os crápulas miliardários, ridículos com suas jóias roubadas e carrões sonegados, seus luxos desconexos com a realidade, sua soberba desmesurada, acabam sendo infinitamente mais pobres e miseráveis do que os desamparados mais pobres de marré-de-ci… O “ranço de pobre” ( que nenhum perfuminho de griffe, nenhuma plástica, nenhum almofadismo, conseguem disfarçar ) está enraizado na alma dessa escória que rouba merenda escolar, que aparelhou o Estado, que acredita na grana como Poder e no Poder como Refúgio Supremo. Quanta ilusão ! A Lei da Causa e Efeito não tem refúgio! Por mais “Fôro” que tenha, é miserável, está condenado e ponto.

O Brasil ainda é uma UTOPIA. É apenas uma idéia, e quase nada mais. Mas uma idéia ainda não realizada, ainda cheia de gambiarras. Brasil, a Pátria dos Remendos, dos Atalhos, das Gambiarras. Repare bem, parece que o País, na verdade nunca saiu do lugar: sempre patinando, nas mesmas mazelas. Éramos crianças e escutávamos os mais velhos, nossos avós, tios, repetindo, já há 50 anos atrás, uma antiga ladainha sobre o Brasil, que não tinha jeito. O Brasil nunca teve jeito. E isso já encheu o saco. Uma hora vai ter. Às vezes, temos um “espasmo” de falsa prosperidade, mas tudo sempre muito ilusório , incipiente, acaba morrendo no caminho. Vai pra um lado, vai pra outro, aos trancos e barrancos o tempo vai seguindo célere, um festival de trapalhadas, e o rombo não só permanece, como é cada vez maior. Eternamente endividada, confusa, perversa, esta “sociedade” é um amontoado sem coesão, e apesar de um “Berço Esplêndido” que é um verdadeiro paraíso de riqueza incalculável, de uma beleza incomparável, tudo vai se degradando: Lixo, esgoto, criminalidade, roubalheira geral : tudo virou coloquial, corriqueiro, banal. Esta “sociedade”, que, sem um pacto de viabilidade real, arraigado, trata-se de um mero amontoado de pessoas, transforma-se numa filial do inferno na Terra, pois não se move em direção a nada, parece cachorro-morto, que nem adianta chutar. Por isso mesmo, não estou aqui para chutar esse cachorro-morto. Estou pra dizer que há esperança, pois uma hora a Roda da História vai andar, movida pelo único combustível que a faz girar: Sangue. E eu espero que não seja sangue do povo, mas sim de seus muitos malfeitores. O Brasil terá a sua Bastilha. Fundado como “Destêrro”, a Vera Cruz, Pátria Canarinha, foi receptáculo de todo tipo de facínoras e ladrões, esvaziando as masmorras lusitanas, oriundos de um resto-do-resto de uma Europa canalha para com as suas Colônias. Os nossos índios, que eram uma civilização limpa e legítima, foram repartidos em : homens, todos mortos por se recusarem a trabalhar para os brancos imundos e cheios de toda sorte de doenças da carne e do espírito ; mulheres, todas estupradas pelos facínoras. Restou o DNA indígena, o que já era e é para sempre uma vitória considerável da Raça Vermelha. Da África, para trabalharem como animais, vieram tribos inteiras, reinos destroçados em navios negreiros imundos, carregados de feridos e doentes, a ferro e a pau divididos ao chegar, apartando cônjujes, mães e avós, dos seus filhos, de seus maridos, numa crueldade, numa barbárie comparável às mais sórdidas de toda a mais ignóbil e desprezível História da Humanidade.  Mesmo assim, entre todos os absurdos, formou-se o Povo Brasileiro. Como dizia Ubaldo, Viva o Povo Brasileiro. Seu único defeito peculiar é ser paciente e pacífico, e ter esperado demais, fugindo do ranger da Roda da História  como o Diabo da Cruz. Mas ela vem aí. Porque não somos diferentes em nada dos outros povos: que grande titica os supra-sumos da Humanidade! O Sistema Financeiro Internacional é uma farsa, tudo é um grande cassino, os governos estão todos podres, e por mais que hajam honrosas exceções, o mundo vive de aparências e de propaganda enganosa: mais dia, menos dia, tudo cai. No nosso caso,porém, há peculiaridades.A gente não era pra estar tão mal assim. Foi preciso muito erro, muita incompetência, muita estratégia desastrosa, foi preciso mesmo perseverar firmemente nas coisas erradas pra pararmos no abismo onde estamos.

Como se tratava de uma terra pródiga, “que tudo dá”, esse povo de diversas procedências, foi recebendo correntes migratórias de outras etnias desgraçadas pelas guerras, pelo “Sangue que Move a Roda da História”, e por isso mesmo avessas ao seu ranger macabro – a caminho de tentar formar uma “sociedade” – coisa que jamais ocorreu de fato. Por pura inércia ou por preguiçosa tradição, ao longo dos séculos permaneceu o “Estado” como uma gigantesca teta : o maior empregador, o maior “player” de um “mercado” que jamais se desenvolveu: na realidade, as “Constituições” , conjuntos de regras normativas, sempre foram um simulacro. Tudo palhaçada. Palhaçada como a Previdência, onde um indivíduo deposita parte do seu esforço apostando na lisura do Estado. Mentira. Nada se cumpre, tudo é movediço como o samba. Reino da malemolência. Consagrou-se na realidade, na prática, a menor constituição do mundo, com apenas DUAS LEIS. ( menor do que a Constituiçao Americana, ao menos no que tange às leis ” que pegaram ” ) :

  1. A Lei DO MENOR ESFORÇO
  2. A Lei DE GÉRSON.

Corta para o ano de 2016.  Esse povo, um amontoado de gente sem nenhum amálgama social, habituou-se a explorar as riquezas, num cada-um-pra-si saqueador dos fartos recursos que sempre abundaram por aqui. O verbo abundar nunca foi tão adequado para um país. Multiplicação exponencial de uma população sem formação alguma + multiplicação exponencial de uma casta de parasitas. O povo brasileiro, usualmente alegre , não se reconhece mais, hoje anda cabisbaixo, olhando pro chão.

Como em todo mundo, proliferaram as varejeiras palacianas. Aqui, encontrando o seu habitat mais favorável do mundo, elas acabaram com o Brasil, e a carne do país está fétida, repleta de morotós. Esse é o fato : O Brasil que acostumamos a conhecer está morto. Talvez porque o velho “Estado” todo-poderoso faliu, e falido continuará com seu teatrinho de faz-de-conta : Brasília. Quem sabe uma outra idéia de país apareça por aqui. O lenga-lenga de que “o Brasil não tem jeito” só seria revogado no dia em que o Brasil estivesse no fundo do poço. Se não foi revogado ainda, é porque o fundo do poço ainda está a caminho.

Mas não percam a esperança : a Roda da História não para. Só precisa do seu combustível para ranger e espanar a ferrugem.