Essencia Barroca

Sou um apaixonado pela modernidade, mas não sinto necessidade imperiosa de ser moderno.

Quando eu olho pra onde meu coração olha, também me vejo lá no século XVII.

Isso é ser antigo ? Obsoleto ?  É ser aristocrático ? Retrógrado ?

Pertencer a um mundo mergulhado na barbárie é coisa de qual época ?

Perguntas que aprendí a fazer. Quem sou eu ?

Estes são os responsáveis : Papai,  François Couperin  e Wanda Landowska.

 

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Oráculo ?

Apostei com todas as fichas que Trump ganharia a eleição nos EUA, inclusive com fartas testemunhas.
Até em shows eu disse isso !
Todos os amigos sabem disso, apesar de a princípio eu não ter opinião muito favorável a respeito, e achar Hillary competentíssima, experiente,com todos os elementos para ser escolhida. Ela era muito mais “razoável”.
A adesão maciça do “elegante” Obama e da extraordinária Michelle, agora, na reta final, era uma “bandeira” de que nem tudo ia tão bem como as pesquisas eleitorais diziam, com uma vantagem que nunca “se abriu” de fato…
Livre- atirador (como o average-american tanto adora), “self-made”, Trump sempre trabalhou com o “emocional truculento”, que seu discurso espontaneamente tosco e sem rebuscamentos ou sutilezas jamais procurou “maquiar” com o polimento politicamente correto.
Por aqui, ninguém o achava razoável.
Mas isso não é novidade : o Brasil “erra muito”.
No Manhattan Connection, por exemplo, o Lucas Mendes, o Caio Blinder, o Mainardi, fazendo piadas e rindo do “carisma” de Trump, não souberam identificar essa possibilidade…
Isto que aconteceu era impossível.
Mas o mundo É UM REALITY ! (contrariando o raciocínio “razoável” de Obama).
O mundo real pode não querer o “discurso razoável” que tanto apraz à “diversidade majoritária”…

Aliás, toda a imprensa mundial se esmerou em realçar os defeitos de Donald, tratando o Empresário como um “bufão”.
E eu dizia : muito cuidado com os líderes carismáticos, com os supostos “ridículos”., os possíveis “bufões”…
A História atesta a todo momento esse fato: o mundo não escolhe pela razão aparente.
A “emoção imponderável”, a “explosão do discurso” na política, são fatores via de regra decisivos, e esses que “chamam a atenção” por serem “controversos” tendem sempre a ganhar.

A melhor escolha anti-Trump teria sido o Sanders. Este sim, com um discurso explosivo e polarizador. Hillary era o mesmo-do-mesmo, muita gente ficou no meio do caminho, sem se definir muito. Hillary pareceu anódina, insossa e amorfa, jamais disparou como deveria, como se esperava..
Trump conseguiu SER A NOTÍCIA, ser o EPICENTRO da eleição.
Nos discursos democratas, o assunto sempre foi Trump: não deu outra.
O mundo só tem falado de Trump, Trump, Trump…afinal, ele é um mestre nos “reality shows”, um monstro na comunicação, um especialista em jogos, e sabia muito bem o que estava fazendo.
Tudo é uma questão de moda : estamos assistindo aos estertores do “politicamente correto”, que foi uma “moda hegemônica” no período anterior. Mas não há nada de mais, as modas passam, simplesmente isso.

Quanto ao Brasil, meus amigos e filhos, minha mulher, todos sabem o que eu venho avisando… mas deixem isso pra lá, que não vem ao caso…

Oráculo ?
Nem tanto. Apenas um “atento pessimista”…
Apostar na estupidez humana é certeiro: o mundo sempre escolhe o que insiste em parecer ser “o pior”. Pode não parecer sensata a maneira que a realidade escolhe se apresentar.

Sofrimento,drama e morte são supérfluos

Hoje começa a ser exibida a série do Documentário sobre o “making of” da minha vida. O “aspecto pessoal” mais prosaico, eu deixo, em boa parte, para os eventuais biógrafos terem  o que acrescentar e ganharem o seu pão … se é que sou personagem para tanto. Com uma vida muito “normal”, e muito parcimoniosa em escândalos e dramas pessoais, penso que sou pouco fértil pra se ganhar dinheiro com isso. Com perdão para a minha ousadia e por me mostrar presunçoso, sem querer me comparar, J.S.Bach era assim, parecido comigo. Ninguém conta fofocas sobre Bach. Então esse é meu Mestre, esse cara é que é F…%&*#$% !!

Minha vida é a música, desde pequeno eu me dedico a essa arte etérea, difusa, imaterial, e que embora matemática, consegue transcender ao divino de forma tão especial.  Os sons, em sua frequência aural, carregam um componente emocional que pode excitar regiões incógnitas da percepção da mente. É um mistério. Ou um segredo.

Em direção contrária, vamos à parte que não é segredo algum… Pra mim seria muito mais prático fazer (mais um ) DVD de grandes sucessos, ao vivo, com participações especiais, cordas, uma banda fazendo aquele “sonzão” em 5.1 surround, com microfones na plateia, câmeras voadoras em gruas, iluminação feérica com canhões, varilights e intelabeams em fachos lampejantes, telões, cenário luxuoso com grife de artista plástico famoso, celebridades na plateia fazendo consagradora “claque”, o público cantando em côro os refrões dos mais de 30 “grandes sucessos”. Mas com isso tudo seria um DVD igualzinho a todos, já que, pra mim, todos os DVDs comemorativos são absolutamente iguais, ressalva feita ao conteúdo musical e poético, que é o único diferencial.

Um DVD comemorativo é, a grosso modo, 80% sensorial, 50% visual, 20% sonoro, e apenas 20% de “conteúdo”. Quando a gente vai comer uma pizza, ao barzinho beber um chope, tem sempre um DVD passando esses “momentos especiais” das Grandes Carreiras dos Grandes Ídolos ( ou dos wannabes….).

Eu não queria isso pros meus 40 anos: orégano ou manjericão ? Claro ou escuro ?  Quem é que presta atenção naquilo ? É bom pra ganhar dinheiro ? Será que o DVD “já era” ?  ( Confesso que pra mim nunca foi : exceto filmes, eu, Guilherme, nunca ví um DVD de show…)

Minto : ví sim, mas do Woodstock !

Em 2001, fíz um belo DVD, com o Taffo e o seu RadioTaxi,…

Então vou fazer outro show gravado ?  Nessa mesma linguagem ? Acho que só daqui a um “bom” tempo…e põe “bom” nisso !

Não vou falar aqui das qualidades intrínsecas de nada, não estou querendo exaltar ou diminuir ninguém. Exceto pela diferença do repertório, da orquestra, do timbre das vozes, um DVD de um sublime tenor italiano, gravado nas ruínas de Pompéia com a Filarmônica de Viena, e um DVD de …XXXXX ( coloquem aqui o que quiserem…eu não dou mais a cara pra bater …eh…eh… nunca mais ! ) … ali, na pizzaria, entre muçarelas e calabresas, são ( na prática ) absolutamente iguais, devido à linguagem visual, direção de câmeras e edição. A fórmula está gasta, então os shows se transformaram no “Holiday on Ice” do entretenimento mundial…

Mas quem gosta, gosta. Pronto.

Usando um termo magistralmente resgatado à “modernidade”, pela genial Tulipa, a fama é efêmera. O significado, não. O sucesso pode ser meramente circunstancial aos investimentos de marketing. O sucesso também pode trapacear com a vitória do medíocre, quando fabricado, sem nenhum significado além da grana e da fama. Desde o início da minha paixão pela Música Popular, na tenra infância, eu já criticava a fabricação do sucesso.

O mercado da música e do Show Business cria suas fórmulas para se aprisionar nelas, tornando as estratégias de vendas mais certeiras e infalíveis. A previsibilidade é fundamental para a projeção de lucros. Só que não é assim que a vida funciona. As pessoas querem mais.

Quem é que, de sã consciencia,  ainda se impressiona com a quantidade de público, o alarido das multidões, a adesão instantânea nos “ritos”  ?  Vox Populi , Vox Dei ?  Resta saber o que se entende por “sã consciência”, porque ainda tem muita gente que adora. É insana ?

Até a Divindade, como concebida pelos humanos, pode trazer esse componente : quanto mais gente, mais significado tem. Será ?   Pois eu questiono isso.

O “Ritual” coletivo é antigo na Humanidade. As celebrações de “Poder” sempre se manifestam em um mar-de-gente-fazendo-a-mesma-coisa.  Isso não é novidade. O ser humano, pra acreditar em algo, precisa ver adesão à sua volta. Os insetos também. As manadas. Os cardumes. Os enxames. As técnicas pra se fazer isso foram dominadas, por exemplo, por Goebbels : um brilhante medíocre que ajudou a inventar um desastre sem precedentes para a Humanidade. Claro que o carisma existe, e sem Hitler, Goebbels não “se criaria” pra ser lembrado. O que eu quero dizer é que esse “significado” atrelado às multidões, ao critério de quantidade de fiéis (ou de fãs) também pode se prestar às finalidades mais espúrias… Pra mim, multidão é bacana, não tem problema, não tenho “asco” de multidão, mas também não é nada obrigatório. Tem um montão de coisas fundamentais na vida, nas quais multidões não fazem parte.

Que as pessoas ficassem “pasmas” com a histeria perante Orlando Silva, Elvis, Sinatra, os Beatles ou Roberto Carlos, é compreensível: estava se criando a indústria do disco, estava se engendrando o “show business”, a indústria cultural no Século XX. Tudo era novidade. E tem mais : eu era adolescente na beatlemania e na jovem guarda, então essa conjunção foi uma delícia !

Por isso, não critico os jovens de hoje. Deixa cada um viver seu tempo, e a festa da juventude é fundamental pro mundo. Mas eu queria algo além.

Hoje, com a tecnologia, tudo ficou muito democratizado, as ferramentas operacionais, os meios e os fins. Ficou banal. Ficou tão banal, que o próprio público também é celebridade, uma revolução sem precedentes nos costumes. Qualquer um pode fabricar o seu “sucesso” , qualquer “Zé-Mané” pode ser alçado a ter multidões para consagrá-lo.

Há, por outro lado, muitos artistas misteriosos para mim, que carregam uma aura especial, e que não frequentam os holofotes do mundo. Eles significam muito, suas obras despertam – não só em mim – sentimentos muito particulares.

O termo “particular”, para mim, encerra uma beleza extraordinária.

Particular porque especial. Particular porque não-público. Particular porque ligado ao infinitesimal da partícula, a grandeza do Universo insondável que existe, não só “para fora”, para as grandezas portentosas do infinito visivel , mas também “para dentro da Matéria e do Espírito”.

Então eu queria contar a minha história explorando essa natureza “particular”.

A idéia é boa, porque ninguém está fazendo isso. A idéia é urgente, porque eu estava com vontade há tempos. A idéia é factível, porque a minha memória ainda anda fresca a respeito de tudo na minha história, e por eu dispor do espaço e das ferramentas pra fazer. A execução poderia ser de uma forma inovadora, que é num coletivo de direção, onde a ótica de um diretor convidado não interferisse de forma alienígena numa narrativa tão pessoal.

Num mundo mórbido, via de regra, as reminiscências, a “memorabilia”, o relicário, são souvenirs que vão ser descobertos e desencavados quando a pessoa não está mais presente. Seja pela simples desistência da carreira, pelo auto exílio misterioso de um Rimbaud, de uma Garbo, pela extinção de uma banda, ou pela morte de um Hendrix, de um Freddie Mercury, de um Renato Russo, de um Cazuza, de uma Amy Winehouse, de uma Cassia Eller, o mundo então trata de recolher os vestígios daquela passagem pelo mundo…E todo mundo se interessa.

Eu gostaria que houvesse tido tempo, e meios, pra alguns dos meus ídolos que já se foram, contarem pessoalmente como é que fizeram suas coisas : Tim, Taiguara, Johnny Alf, Simonal, são alguns nomes entre inúmeros outros.

Alguns vivem um tempo maior, como Jorge Luis Borges, Oscar Niemeyer… Alguns têm um tempo exíguo, sendo ceifados precocemente, como o fundamental Richie Valens…

Mas é muito bom estar vivinho-da-silva !

Alive and kicking.

O que importa é que pra mim esse documentário é um prazer muito grande compartilhar !

Cheers !

 

 

Componente Existencial Zero

Estamos em casa, tentando tirar um final de semana de folga, sereno… Como todos sabem, moro na Bahia. Moro num bairro perto da praia, então os finais de semana são alegres e ensolarados. Como em todo país, reina um clima altamente etílico no ar… Carros com sistemas de som potentíssimos progressivamente vão invadindo o ar por toda parte. Vizinhos começam a beber às 9 da manhã e pretendem prosseguir até segunda-feira, então para “dar o clima” aos churrascos, nada melhor do que um sonzinho… Mas que sonzinho, heim ?

Há um significado nesse som alto, além de tornar a vida do vizinho insuportável. É uma invasão deliberada, existe uma afirmação primitiva de território, ali…

Já viajei muito pelo mundo, não existe isso no Japão, na Espanha, nos Estados Unidos, na Inglaterra, em Portugal, me parece que a legislação proíbe. No Brasil, país barulhento por natureza, se tornou costume a competição de volume sonoro, então fica ridículo…

Temos que fugir para o alívio reconfortante do silêncio, em algum lugar… Que fosse alguma música bonita, pelo menos…mas não : é bruta, é grosseira, é feia.

Às vezes me embrenho no emaranhado de conjecturar o que acontece no Brasil de hoje, de tão peculiar, que fez proliferar na arte popular (me diz respeito especialmente na música) um grande mal, que eu chamo de “utilitarismo”. A música popular sempre foi um item de forte identificação nacional. Com a mistura de culturas, os povos da America Latina sempre apresentaram grande riqueza rítmica, melódica e poética, e até ouso dizer , maior do que em qualquer outro Continente. Até os Estados Unidos têm na cultura latina um forte componente flavorizante : seria bem menos atrativo aquele grande país sem a contribuição da latinidade. Desde os inúmeros caribenhos, passando por México, Colômbia, a hoje triste Venezuela, Peru, Chile e Bolívia, são fortes no lançamento de gêneros musicais ricos e saborosos. A Argentina, com suas misturas de cultura europeia com o rico folclore…  No caso específico do Brasil, a harmonia – por força de uma inspiração “francesa” na cultura da República – é  um componente nobre, e que sempre nos diferenciou, se intensificando com a Bossa Nova, graças ao gênio de Tom Jobim e seus contemporâneos. É bem verdade que sempre foi uma nação excludente e perversa. Nos anos 40, por exemplo, havia uma “maioria invisível” às estatísticas.   Eu já sabia disso, intuitivamente, mas nunca tinha prestado muita atenção …

Há uns anos atrás, numa temporada de shows no Bar Brahma, eu ia todas as quartas feiras passar o som, depois voltava à noite pra tocar, e, me hospedando ali perto, virei frequentador… Ali há um mural com uma grande foto da São Paulo dos anos 40, tirada no Largo do Café… Milhares de homens de chapéu, ternos de casimira e de linho… Homens brancos. Pouquissimas mulheres. Nenhum único negro…Esse é o Brasil de Pixinguinha.

Havia, tradicionalmente, no país, uma “cultura dos salões”, aristocrática, e mesmo os expoentes da legítima cultura popular, como Donga, Nelson Cavaquinho, Cartola, Adoniram Barbosa, Cyro Monteiro, apresentavam uma sofisticação elaborada, que agradasse no Rádio e no mundo do Disco. Lembre-se que os toca-discos eram, a princípio, caros, eram objetos da elite. Assim foi com o Rádio e a Televisão : quem quisesse sobreviver, tinha que agradar aos paladares sofisticados dos “salões” da aristocracia… Isso ocorreu nos EUA, por exemplo, no auge do Jazz. Artistas das “periferias e guetos” se infiltrando nas altas rodas : era uma forma nobre de capilaridade social. Eis o segredo da qualidade dessa turma. O pressuposto de uma exigência de erudição.

E assim se consolidou o Samba, se gerou o Samba-Canção, que finalmente desembocou na Bossa Nova, uma moda irresistível  e chique , que varreu o mundo no pós-guerra, quando os americanos “descobriram” o grande irmão do Sul: até o Walt Disney inventou o Zé-Carioca, certamente sob encomenda do governo americano…

A Bossa Nova era a bola da vez no mundo, e foi avassaladora, invadindo todas as festas regadas a White Horse, Old Parr, Cuba Libre e cigarros, e só foi ultrapassada com o surgimento dos Beatles, em 62 : começava ali a era da maconha, costume já de uma outra geração…

O caminho percorrido pela tão propalada “Linha Evolutiva” de Caetano, daí pra frente, é sobejamente conhecido, e não carece ser relembrado aqui.

O que marca profundamente a música popular dos anos 30, 40, 50, 60, 70 e 80, é um certo “componente existencial”

Fosse o gênero que fosse, com todas as nuances entre a pura vanguarda e a mera diversão, sempre havia por trás essa busca pela individuação da pessoa humana.

Trazer alegria, melancolia, fazer a crítica, o deboche, evocar ideologia, ou até rancor, não importa : o importante seria penetrar na vida sensível do ser humano.

Encurtando essa prosa, quando chegamos ao momento atual, percebemos que houve um empobrecimento profundo na forma com a qual a música popular é utilizada pela maioria da população, e isso especificamente no Brasil. Isto é o momento que vivemos, um suplício para quem não está integrado ao movimento majoritário, que é “a balada”: um estado primitivo de embrutecimento cerebral, “engazopamento” auditivo, pano de fundo para um comportamento grosseiro que, via de regra, remete à celebração coletiva de um “clima de azaração”. Em nome da eficiência objetiva em grandes eventos do show-business, a música se torna utilitária. O importante é funcionar naquele contexto, e muitos são especialistas, mas as fórmulas viram uma prisão.

Não é só festa esse tipo de som, em todas as vertentes. Festa é o que o mundo gosta, sempre existiu, não há problema algum com a festa, ou com o mero entretenimento despreocupado. O problema começa quando é mandatória uma negação de qualquer sentimento mais elaborado ou profundo, um estado de brutalismo deliberado, voltado ao mais rasteiro utilitarismo funcional.

Não quero aqui tecer loas à delicadeza na arte, aos louvores diáfanos: estes também podem ser meramente utilitários e anódinos.  Longe disso:  a arte também pode ter nuances violentas, brutais, e o bom e velho Heavy Metal não me deixa mentir… Pode até descambar para o satanismo, ao brutalismo total, à escatologia, sem o menor problema : as celebrações e “ritos” vêm carregados de questionamento sobre a existência, são instigantes !

Esse componente existencial e emotivo ao qual me  refiro não é, absolutamente, coisa do passado… Ainda persiste, por exemplo, na cultura pop do mundo: os grandes sucessos de massas da hegemonia Anglo-Americana na música, por conta de um mundo que se tornou anglófono… ( por sinal, hoje em dia, irritantemente globalizado, onde você for, ouvirá os mesmos nomes, consumirá as mesmas grifes e produtos, verá os mesmos filmes ) . Mas a qualidade está lá.  Não se tenta vender porcaria, ao menos “via de regra”, a porcaria como critério seletivo…

Não existe o orgulho da falta de qualidade.  Há pungência nas vozes, há questionamentos nas letras, há uma busca de inovação nas sonoridades, por mais “fashions and trends” que sejam a cada temporada, há um culto à originalidade nas “levadas”, uma valoração do inusitado, seja nos arranjos acústicos ou nas programações eletrônicas.

Aqui, não. O que é pra ser “bizarro” se torna repetitivo em fórmulas , chato pra cacete ! E as letras … !@#$%&)#!!!!

Pra quem (como eu) um dia pegou coqueluches como a explosão de “Trem das Onze” , fica difícil… Pra quem (como eu) pode curtir o resto da vida a excelência universal de um Luiz Gonzaga, outro sucesso de assustadora potência, fica evidente que se construiu forte tradição na cultura genuinamente popular, uma mas o “mercado” artificializado com investimentos “alienígenas” à música, se caricaturizou, hoje é muito mais visual e marqueteiro do que sonoro. O som é o de menos. O público protagonista está ali para “se filmar na balada“, o artista é um mero coadjuvante, pode ser qualquer coisa que não faz diferença. É só o batidão, pano de fundo…

Mas parece que o objetivo “atual” é esse : ser tão achatado , que se torna bem-comportado , careta e chato.

Dessa forma, hoje, o Brasil é uma nação isolada. A graça toda, nesse grande movimento boçalóide que perversamente aprisiona os espíritos jovens numa redoma de ignorância, (e não só da vida real, mas também – pior – a ignorância de qualquer delírio – uma prisão voluntária) está justamente na esculhambação, na tentativa de ser transgressora de qualquer valor qualitativo : quanto pior for, quanto mais baixo levar na escala do emburrecimento, mais resultados colherá. A massa acha engraçado ser “peba”, existe uma afirmação de inferioridade identitária nesse “riso”, vigora um espírito de “nóis semo tatú...”
E é curioso que parte significativa dessa galera, uma garotada aderente a modas, quando tem grana, lota os grandes shows internacionais, shows com qualidade explícita, e lá se comporta de forma totalmente diferente… adoram as músicas, gostam das letras…. Acham tudo “superior”. Simplesmente, porque é importado, ou pior : pega mal não achar legal !

Mas então não têm senso de nada ? Engolem o que vier ?

O utilitarismo é, pois, um antídoto articulado e proposital contra qualquer componente existencial.

Existe vida, na música do Brasil de hoje ?

Sim, existe, sim, muita vida, pelas beiradas, nas vanguardas, no bom samba, no bom rock, na boa mpb, no bom pop, no bom rap, no bom funk, no bom blues, no bom reggae, no bom dub, no bom forró, no bom axé, no bom sertanejo, na boa eletronica, no bom hiphop, na boa cumbia, no bom regaton, no bom tudo…pode ser o que for, basta que seja bom, é pedir muito?

Existe sim, o idealismo dos que são sábios e lutam contra a corrente dos zumbís.

Agora, já é segunda feira, o “clima de festa” acabou, o povo está de ressaca, então já podemos voltar pra casa.

Só quero tempo

Eu já vinha percorrendo a saga de contar todas as minhas peripécias na música, fazendo o documentário em vídeo e turbinando a caixa de 40 anos, com todos os meus discos, ambos produtos que estão pra sair ainda neste 2016…com a data redonda da minha estreia como cantor/compositor solo, em 1976…

Contar as histórias é quase tão prazeroso – e doloroso também – quanto ter vivido tudo aquilo, ter criado tudo aquilo, ter levado adiante um sonho, e querer amarrar esse sonho em relatos consistentes e ricos em detalhes, num mundo tão antrópico ( no qual é sempre muito mais fácil dissipar a energia nobre da luz e da eletricidade, deixá-las degradarem no calor do esquecimento )…

Ganhei um livro excelente, “As letras dos Beatles”, (A história por trás das canções) de Hunter Davies, editora Planeta… Muito bom, principalmente pra mostrar a importancia do tempo na construção do conteúdo.

No caso dos Beatles, a química entre os componentes foi magistral, e é de se admirar o quanto havia um caldo de cultura naquela época, para a criação do novo. É fascinante entrar nos meandros da usina de arte de John, Paul, George, três companheiros de adolescência que mais tarde, com Ringo, com Epstein ( o quinto Beatle) levariam os delírios criativos dos anos 60 ao paraiso da perfeição. Mas também é fascinante observar a rotina extenuante dessa carreira, e os danos causados por ela.

Fica claríssima a contraposição do “show business” à produção criativa. Há um momento em que Paul declara que um homem com mais de 60 anos deve ficar no estúdio criando, e que jamais ele ficaria na estrada fazendo shows e se repetindo…É engraçado…logo ele que, dos quatro, se tornou o mais disciplinado à repetição e à consagração na cultura de “arena”…Se tornou exatamente o que apostava que jamais aconteceria.

John se apresenta, a princípio, como o chefe, o “guru” da banda, o ímã atrativo, com o “drive” exato que impulsionaria os Beatles, mas depois, com a vinda de Paul, se revelou a face metódica e determinada, e nessa competição, desde cedo se estabeleceu uma dinâmica mortal de criatividade na fabricação de canções. Ambos se superavam na genialidade, e essa genialidade era baseada no prazer e no divertimento da atividade criativa. Eis o segredo… e ainda mais, com a participação de um terceiro (George) com ainda mais habilidade instrumental, com seus mistérios e profundidades, era um trio incomum de criadores ( jovens, muito jovens). Ringo caiu como uma luva, com sua humildade e generosidade, passando a estabelecer as levadas fundamentais pra que aquela “guig” se tornasse uma coqueluche que o mundo tanto desejava…

Mas é bom observar a batalha – e a disciplina da genialidade.

Melhor ainda analisar o processo de degradação que essa disciplina, mantida à base das expectativas de um mundo explosivo , com o tempo foi minando a centelha do prazer .

O sonho, de tão veloz e alucinado, se transformando em traquitana desagradável dentro das mentes e corações…

Hoje, num tempo em que o “show business” venceu, é quase incompreensível esse laboratório.

E é nele que eu estou preparado, pronto, pra mergulhar.

Que privilégio.

O colapso das estratégias

Comemorando os 400 anos de Shakespeare…

A Comédia dos Erros
Muito além da discussão polarizada, empobrecida, e a estigmatização até de quem procurar relativizá-la, muito além de se estar ou não “em cima do muro…etc..”, devo dizer que, com os impostos que eu pago, que você paga, que todos nós carregamos como uma “canga” obscena sem receber nadica-da-silva de volta , qualquer um de nós tem o direito de se postar de um lado ou de outro, e até mesmo não se obrigar a aderir a qualquer discurso imediatista – a situação no País já é de um ridículo total, virou um fla-flu, um corinthians-palmeiras, um gre-nal, um cruzeiro-atletico, um ba-vi absolutamente infantil e histriônico..

Não sei não se tudo isto que estamos vivendo não passa de brincadeira de um povo brincalhão ! Palhaçada ? nem tanto. tem gente passando necessidades, não é comédia, é drama.

Prefiro falar das estratégias, do fracasso de todas elas, e questiono mesmo se houve alguma estratégia fora do precário amadorismo e da improvisação. A meu ver, o Brasil de hoje é “peba” : os dois lados da moeda apresentam estratégias muito falhas pra que se leve a sério.

Sinistra : Da parte da “esquerda”, tudo bem, está claro que houve uma arquitetura pra contrabalançar o poder secular das oligarquias , foi traçada uma operação historicamente de curto prazo, e faz sentido que isso fluiria naturalmente no aparelhamento dos setores de grandes obras, dependentes de decisão política – tradicionalmente nas mãos da velha elite… e onde a movimentação de grana é estratosférica. Mas acho que a maior falha estratégica foi, ao final do segundo mandato de Lula, não ter tido a sabedoria e a temperança do “respiro” tático : ter estudado o melhor momento para a alternância de poder. Deixar levar, saber jogar o jogo, mesmo tendo as cartas na mão. A vida é feita de respiração : inspira, expira . A vida real é como as marés : sobe, desce, enche, esvazia … No ponto em que estava, com a aprovação popular e o reconhecimento generalizado, e tendo “superado” cambalachísticamente o baque do mensalão, isso teria gerado uma massa crítica tão favorável quanto duradoura. Criadores do terremoto, deveriam ter previsto as marolas enganosas da crise que se aproximava, com a cobrança das faturas de toda a gastança e do estímulo ao consumo popular … Um governo “socialista” mandando o povo consumir, não parar de comprar, é o que se viu na virada para Dilma…Que estratégia é essa ? Isso era pura improvisação ! Todos lembram desse pedido patético de uma líder legítima da esquerda, solicitando que o povo se endividasse, torrasse impiedosamente as suas poupanças na 25 de março, porque a nova matriz econômica havia descoberto o caminho das pedras…O consumo. O povão adorou : muito churrasco, muita cerveja, TVs de led , linha branca completa em todos os lares, carro em 60 meses. Isso demonstrou de vez que o povo não é socialista. O povo quer consumir, “consumo , logo existo”. Socialismo de verdade, já postulava Gramsci, depende da educação . Educação que traria temperança, espírito crítico e desconfiômetro afiado desse povão contra as armadilhas do capitalismo selvagem, justamente contra esse consumismo incentivado… A presidente não pode reclamar, porque o povo respondeu ao chamado. Mas e se não desse certo essa jogada ? Pois não deu… mas também porque se contava com outros artifícios…da providência…

A armadilha do petróleo :

Aqui, neste ponto nevrálgico, entra a “descoberta do pré-sal” como fator primordial para o engodo se instalar, como um parasita assassino – vendeu-se a ideia ( inclusive internamente nas áreas do Poder os neo-burocratas se convenceram da descoberta de um tesouro tão fenomenal, que transformaria em trocados quaisquer desmandos numa operação de aparelhamento : foi por isso que a porteira se abriu…escancarou de uma vez ! ) só que o pré-sal foi uma aposta precipitada ( talvez desesperada, de quem precisa de algo providencial, prodigioso, algo maior em que acreditar…) e aqui devemos conjecturar porque pessoas que se deixam engabelar por teorias sociais que nunca deram exatamente certo… esses amados crentes também são tão permeáveis a mitos como esse, o totem do pré-sal….! O Brasil poderia se tornar uma potência-corrupta-perfeita, como são os milionários do ouro-de-tolo negro…Ah, o petróleo ! Quanta trapalhada com esse nome no mundo !

Certamente os estrategistas lá em Harvard, no MIT, no Lago de Genebra, sabiam disso. Parte de um pacote que incluiria a Copa, os Jogos Olímpicos, o que aconteceu com a Petrobrás obedece à engenharia de uma demolição… Prestem atenção se não é isso mesmo… Detonações em sequência que se assemelham à teoria da conspiração do 11 de Setembro….Como dizia o Imperador em Star Wars, “tudo corre de acordo com o plano…eh…eh…eh…. ) …aliás, é bom lembrar que nas redondezas do Lago de Genebra estão a FIFA, a F1, todas as sedes-de-maracutaia, os bancos, até mesmo onde estão as contas escondidas dos patetões “envolvidos”…

Mas vamos lá, há outras sutilezas…Se há um plano ( “Who´s in charge?” perguntaria Hobsbawn… ), esse plano contaria com preciosas colaborações – os operadores de esquema…e os vaidosos políticos.

Essa máquina precisaria ser desativada, entrar em hibernação, para sobreviver em outro estágio. Mas não tinha como parar…

Qualquer leitor medianamente atento aos historiadores e teóricos das mais diversas correntes ideológicas jamais descuidaria do fato de que a política consistente se faz ao longo de várias décadas, e que qualquer desenho de poder precisa considerar o recuo estratégico como elemento primordial para um futuro de poder… Direto e reto não existe, só para o abismo . Não adianta nada um poder que hoje se apresenta consolidado , mas que não tem futuro. Claro que sabiam que a sangria das contas públicas tinha data marcada pra estourar. Porque não deixar estourar tudo no colo dos adversários ? Não é uma boa pergunta ? A princípio, teria sido tão mais fácil implementarem este plano maligno…Uma onda neoliberal vinha se levantando… era só “sair da mesa” e confiar no taco , deixar um poder que voltaria sozinho para as mãos do PT , e melhor ainda – deixando o inimigo levar o racumin da crise pra dentro das tocas da rataiada… mas a vida real não é como no poquer…Resta saber se o Governo podia sair da mesa… ou já estaria sob o abraço estrangulador das Empreiteiras, era uma presa indefesa no abraço de tamanduá do “big business”, e a roda não poderia parar de girar. O esquema estava montado, era pra não ser descoberto, mas uma série de acasos, de amadorismos, de imprudências pôs tudo a perder. A Lava-Jato. Um fato recorrente nos esquemas de drenagem financeira da esfera pública é que mais e mais pessoas, aproveitadores, vão se agregando , fora de controle : sempre é um esquema com alto potencial suicida. Deu no que deu. Se hoje pudessem voltar na História, todos os operadores do esquema e o lulopetismo teriam preferido dar um tempo na sanha , já que um dia a casa ia cair… mas com a impunidade tradicional, quem poderia imaginar que desta vez seria diferente ? Caso tivesse tido um mínimo de sagacidade, o petismo e seus parceiros ( vira-casacas que hoje estão em grande frenesi, na tomada do Poder ) teriam “passado a bola”, e o abraço de tamanduá teria se voltado para a oposição na hora exata…o que daria ao petismo uma condição de similaridade total nas tramóias e perdão permanente para todos os desmandos…

Hoje, não adianta reclamar e ficar voltando na História pra uma outra década remota, pra argumentar que o esquema sempre existiu… Tivessem saído da mesa na hora certa, 2018 estaria marcado pra ser um ano de Royal Straight Flush… Uma Canastra Real para Lula… No entanto, poderá ter sido exatamente das hostes adversárias que viria a solução !

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2. “A Tempestade” ( mais Shakespeare…)

Destra : Em país de “tempestade perfeita”, todos estão sujeitos a errar (ainda) mais do que de costume. Na minha opinião discutibilíssima, de quem olha de fora, há uma estratégia desastrada em dobro, desta vez partindo da oposição, e que pode ser exatamente este impeachment…

Muito mais prudente seria aguardar com a fé inabalável focada no desastre final e total do atual governo. Afinal, esse desastre não seria tão líquido e certo assim ? …E o temor de uma reversão do quadro não poderia ser um dos componentes desse “açodamento”, deste “afogadilho” para desfenestrar a Presidente…???

Bem, eu não acredito um níquel que algo desse certo do jeito que vem, e nem do jeito que vai… Todos sabem que crescer, mesmo, só lá pra perto de 2020 – isso, se nenhuma cagada for cometida no caminho…Mas tá difícil de não ser cometida, heim ?

Dois anos não são nada, sequer pra frear esse descomunal transatlântico, desgovernado rumo ao abismo. A probabilidade de algum acerto efetivo, neste tempo que resta até as eleições de 2018. é baixíssima até para os mais otimistas. Aliás, não serão nem dois anos de prazo para tão urgentes milagres , pra um país que já não apresenta fé em mais nada…

Se com fé já é dificil, sem fé, então…Em 2018, uma vez havendo-se entrado na reta final ( e decisiva ) de novas eleições presidenciais, as tão ansiadas “novas eleições” depois de tanto quiprocó… qualquer um vira o tal “lame duck”…

Pior : feroz e barulhenta oposição. Com o impeachment, o PT – que ainda é grande e tem uma “seita” resiliente – deixa de ser vidraça, voltando a ser estilingue – seu papel histórico, preferencial na sua ascensão meteórica. Nada mais conveniente para quem alimenta ardentemente o retorno triunfal do “Carisma” de Lula.

Os “movimentos sociais” no Brasil, curiosamente, só são referidos à esquerda… Os movimentos a favor deste impeachment, ou seja, contra um governo “popular, sindical, vermelho”…, esses protestos não são considerados “sociais”, mesmo quando dão vários milhões nas ruas… então são movimentos “o que ? ” … movimentos de robôs ? O mais curioso é que as mídias replicam esse pre-conceito à exaustão. É o hábito do discurso hegemônico em ação sobre o senso comum.

Mas vamos lá… Dentro de alguns meses, os “movimentos populares de inclusão” estarão em posição bem mais confortável do que estão hoje… Hoje, seu maior incômodo é haver um poder contraditório, que é mas não é, que fala uma coisa e faz outra, que vai-e-vem, perdido entre o politicamente correto e o politicamente factível, uma gosma amorfa e pegajosa , indefensável, mas também inabandonável…. Em breve, dando graças-a-Deus, terão como judas um governo evidentemente “almofadinha”, levando as simbologias polarizadas às últimas consequências…

A meu ver, este controvertido impeachment, fruto da impaciência da classe média-liberal, queiram ou não queiram, prepara o retorno de Lula em condições ideais.

Principalmente por não construir um “carisma” com força e explosão que possa se contrapor – eis a grande lacuna. Em política, especialmente em paises com o nosso perfil, não basta adequação : é fundamental a explosão no discurso – e isso por hora não existe. Décadas se passaram, e não surgiu ninguém. Que as forças populares escolham as linguagens e candidatos com esse perfil populista, é compreensível e natural. Que os desassistidos, os relegados, os desempregados, os excluídos, os oprimidos sem casa, sem teto, sem terras, sem acesso, se alinhem à esquerda – no mundo inteiro, ontem, hoje e sempre – isto é absolutamente óbvio. Quem elegeu Lula, quem fez o diferencial desse ciclo “socialista” foi a classe-média impregnada pelo processo cultural do gramscismo. Hoje ela tenta pendular para o outro polo, e a intensidade dessa pendulação pode ser desastrosa, porque cria uma energia, que, se estiver no momento errado, gera uma contrária que pode beneficiar quem está no bagaço , como estão as esquerdas. Então o Destino poderá se mostrar implacável com quem não soube esperar.

É a mesma história, dando voltas, e causando estragos no outro lado da moeda…

 

Brasilia

Pela dimensão monumental do tapume divisório (o muro do impeachment ),

depreendia-se que as autoridades se preparavam para a possibilidade de um comparecimento de pelo menos 50 vezes mais gente na Esplanada.

muro Muro-Brasilia Snap1 Snap2 esplanada-muro-drone 4193169Pra nós, que somos da “geração BossaNova”, que assistimos toda essa história, com JK, Janio, Jango, 64, AI5, Diretas, Tancredo, Collor, FHC, Lula, etc…nada é novidade : Brasília se reafirma como uma capital-fantasia, um projeto magnífico de integração nacional, ( que até deu certo ) um sonho delirante tornado realidade a um custo estratosférico , ( o que inclui, até hoje, o seu funcionamento perdulariííssimo ) mas eternamente um mausoléu deplorável de desintegração de participações populares : manifestações sempre pífias, deixando muito a desejar pra um povo que precisa “ver a Roda da História” se mover, sair finalmente de sua habitual catatonia….
Fosse uma capital convencional, como Paris, Madrid, Londres, Tóquio, ou mesmo Buenos Aires ou Santiago, não teríamos sempre a mesma participação popular anódina, irrelevante, insípida, porque não dizer asséptica : manifestações populares em locais assim parecem coisa de laboratório . E são.
Foi essa a minha surpresa, uma “descoberta” quando entrei na FAU-USP , um sonho maravilhoso que eu acalentava desde o tempo dos Festivais, uma busca remanescente da velha Rua Maranhão, então transportado para um projeto incrível de Villanova Artigas, mas que havia sido despejado de propósito em uma Universidade urbanisticamente totalitária : grandes gramados de prudente distensão social/ideológica entre as escolas Politécnica, a Geografia, a Economia, as Comunicações, etc..
Eu começava a descobrir que nada disso jamais foi sem querer, ou ao acaso… Tudo armado.
Projetos político-paisagísticos de distensão em intermináveis gramados de platitudes neutralizadoras.
O espaço físico denuncia, assim, sua finalidade : ser palco de um teatro do real, mera representação imanente às funções pomposas escritas nas placas de suntuosos palácios…
O que se vê nessas cerimônias, nessas solenidades, os discursos, as pantomimas e deblaterações inflamadas, é tudo teatro, tudo de mentira, farsantes “jogando para a patuléia” , emoções de araque.

Por um instante, me veio um pressentimento estranho ao contemplar aquele muro interminável em frente aos 3 poderes…
Mas logo as minhas inquietações se aplacaram : o projeto de Brasília é infalível.
Tudo ali sempre serão gatos-pingados.
Os cidadãos comuns,como eu, como você, ali, não somos nada !
E sempre haverá uma segunda-feira em que o cotidiano recomeça, sem nenhuma novidade.

Medieval Times

Quando minha irmã estudava na St Paul´s School
eu tinha doze anos, e já achava curiosa uma rivalidade interna dos alunos, nos jogos, nas gincanas…
Ou a criança era “York” ou era “Lancaster”. Claro, uma estrutura de torneios medievais…
Os Yorks eram “vermelhos” e os Lancasters eram azuis…
Isso remonta às históricas disputas pelo Trono da Inglaterra, e faz parte
de um “lúdico” que nunca vai deixar de existir.

No Brasil de hoje, ou você é “York” ou você é “Lancaster”, e o propósito dessa divisão é basicamente LUDICO : estamos “nos distraindo” num jogo.
Medieval Times.
O que me preocupa muito mais é a perda de tempo : os anos dispendidos nessa “refrega” , nessa “procela”, serão anos perdidos para quem perdeu o fio da meada só protestando na rua e se esquecendo da “individuação”, se afastando do questionamento interior, que é uma refrega muito mais difícil de se resolver…
Há uma geração aí que poderá ficar de lado pela História.
A minha geração, dos anos 70 e começo dos 80, tinha herdado uma impossibilidade técnica de se manifestar: era a ditadura.
Com essa impossibilidade, nossa geração partiu para um tipo mais insidioso de “manifestação” : a revolução de costumes. Muito do que foi criado naqueles tempos de Nuvem Cigana, Clube da Esquina, Circo Voador, Asdrúbal, Lira Paulistana, num tempo de doidões delirantes, gerando uma nova realidade a partir da estética e do lúdico nas artes, perdurou de forma incrível, e está aí até hoje.
Não foi uma geração em vão.
A bem da verdade, as gerações anteriores também foram muito férteis e perduraram bravamente.
A Geração Samba-Canção , da “fossa” do pós-guerra, uma geração “gauche très chic” , logo sucedida pela Geração Bossa-Nova , com cinema novo, concretistas, os grandes arquitetos, o Brasil Designer do futuro…uma geração de ouro. Desta geração surgiria a geração Jovem Guarda e seu “corolário cult”, a Tropicália : eu costumo incluir o Tropicalismo na mesma prateleira da Jovem Guarda : é um apêndice politizado, culto, instigador da nova estética.
Com a repressão e o desabamento do AI5,em 68, que coincide com Woodstock, o Sargent Peppers e a onda lisérgica, surgiria no Brasil a geração Pasquim, uma geração mais “pesada”, “barbuda”, amarga (como deveria ser), reacionária contra o desbunde, mas progressista na “praxis” ,alinhada com a nova ordem gramsciana ( publicação dos Cadernos do Cárcere ) , uma geração revoltada, do contra, 100% etílica, e dentro dessas características, aparentemente careta. Esse período coincidiu, pra mim, com o tempo de entrar na Fau, Arquitetura da USP , no ano de 72. Congresso da Une em Ibiúna, prisões… Nas faculdades, era uma profusão de “grupos de estudos” ( que eu classifico como uma “moda” mesmo, uma coqueluche como as calças boca-de-sino… Tinha grupos Trotskistas, Leninistas, Stalinistas, e eu, que não levava nada daquilo a sério, era mais um “alienado”… Era classificado como “filhinho-de-papai” , ( hoje seria coxinha ) mas eu estava em OUTRA. Minha Revolução era PESSOAL , e só eu saberia disso…. Apesar da caretagem geral, aquela foi uma geração valorosíssima, com produtos de alta qualidade e um apelo mais do que legítimo. As marcas dessa geração estão presentes até hoje, nos cartazes, nas camisetas, nos palanques, e foram convenientemente incorporadas nas linguagens anti-liberalismo.

A meu ver, muitos dos herdeiros dessa linguagem, dessa “linhagem”, e que são da nova geração ( a geração dos nossos filhos, a geração Baixo-Augusta) vão pra rua principalmente movidos por uma CAUSA ANARQUISTA.
São CONTRA A ESTRUTURA EMPRESARIAL, são CONTRA o Capitalismo, CONTRA a “nova ordem neoliberal”, enfim, são CONTRA O “‘SISTEMA”.

Mas vejam, aqui está o paradoxo : Todas as gerações aqui descritas foram contra o “Sistema”.
A Geração 50 “gauche-chic” Samba-canção, a Geração Bossa Nova, a Jovem-Guarda-Tropicália, a Geração Pasquim, e a minha geração, a do Desbunde-80.

Todas contra o ‘SISTEMA”. E daí ?

E daí que, hoje, o discurso é um discurso aprisionado pelo utilitarismo, aliás, como tudo.
Será que os jovens estão ( como as demais gerações aqui descritas sempre estiveram… ) “voltando” pro mundo interior da individuação, será que estão realmente conseguindo gerar uma produção duradoura – aquela que NÃO se produz ali no meio das massas, na confusão confortavelmente comodista e enganadoramente ativista…das ruas, na empulhação do “coletivo” ?
Claro que não dá pra generalizar, e tem, sim, muitos jovens hoje gerando o futuro no recôndito de suas vidas, de suas lutas pessoais. Queremos ver isso. A História verá isso. Só que não “aparece”.
O revolucionário é silencioso e cava “na calada das Grandes Noites”…
Esses jovens revoltados de hoje podem nem ter consciência disso…
Podem até não acreditar um níquel no palavrório de palanque, podem até se render às evidências de êrros e descaminhos de uma certa casta que se apropriou da linguagem e montou uma estrutura similar à da uma facção: o SINDICALISMO .
O Sindicalismo não necessariamente traduz o discurso dessa juventude (já quase) perdida.
Mas é a opção que lhes é oferecida…
Até porque, do outro lado, o que se levanta pela polarização, pelos aproveitadores de ocasião, é exatamente a tonalidade neoliberal…
Quiçá até mesmo as “teias das vivandeiras” estejam se armando…
Mas tudo é muito confuso. Parece claro – e isso é muito pior…
Não tem “tu”, vai “tu mesmo”.
De ambos os lados.

Quem sabe surja nesse ínterim algo realmente revolucionário…
Uma coisa eu aposto : não será nem da Política , e nem das convulsões enganadoras desse Jogo Lúdico… Nunca foi.
Medieval Times Forever.

Obs : não me venham com impropérios, pois aqui sou apenas um observador….
Igualzinho ao Guilherme aos 12 anos…

E você, é “Lancaster” ou é “York” ?

A Semiotica nas encruzilhadas politicas e sociais

Manhã de domingo, tempo de encruzilhada ( ou não ? )

Vejo à distancia a Paulista toda lambida de cartazes com a foto antiga de um lider sindical barbudo que não existe mais : o tempo passa para todos, como passou pra mim, e as pessoas vira-e-mexe me vêm com a frase : Eu lembro de você com aquele cabelão, etc… É a semiótica em ação. Paro pra refletir na imagem muito reproduzida daquela moça de óculos, presa num interrogatório político, fichada no DOPS, e que se tornou residente no Alvorada. Quando convém, abrem a gaveta e lá vem aquela foto nos cartazes, nas camisetas. Semiótica em ação. Lembro ainda dos caras-pintadas depondo um presidente: a força dos signos é maior do que qualquer discurso, e os teóricos estrategistas sabem disso. Líderes históricos são danados em truques e artimanhas com signos. Muito do fascínio das convulsões totalitárias do Século XX repousa na atração mórbida que a Humanidade apresenta em relação aos signos. Quanto mais elaborada a simbologia, mais o Mito se estabelece, e os Mitos são fabricados, são perpetuados em direta proporção com a eficiência de sua codificação semiótica.

Vejo que o “movimento” dedicado a este domingo tem uma semiótica indefinida, senão inexistente.

Não há movimento socio-político efetivo sem os devidos signos.

Talvez seja mesmo como a Revolução Francesa : de uma massa amorfa, com sua miséria em ignição, seu signo final foi a Guilhotina. Qual será o signo que ficará desta era no Brasil ? O Verde-Amarelo da bandeira iluminista e aristocrática basta ?

O velho Hino parnasiano é belo, apesar do rococó-de-salão de um “Grand Monde” que também não existe mais.

É isso mesmo ? Ou estou enganado ?

“Recessão”

Congresso Natalino !!

Retrato do País :

nunca o Recesso Parlamentar, as férias de final de ano, foram tão ardentemente desejados, tão convenientes.
O País agora ficará meses sem nenhuma solução, e como diz o ditado : “o que não tem remédio, remediado está…”
Sinuca de bico, não vai nem pra um lado, nem pra outro, fica ruim pra todo mundo,

mas se ficar todo mundo igual nesse pântano, então estará bom : o importante é ficar todo mundo igual…

Cabe então um trocadilho…
A Recessão da Economia faz pano de fundo para “o Recessão” da Democracia.
Já é Natal. Já é Reveillon. Férias.
Preocupação, agora, só depois do Carnaval.