Classes de Intelectuais

 

A cultura de massa do século XX instituiu um sistema de classes altamente elaborado e questionável no panorama da intelectualidade do mundo. A industria cultural, a partir do surgimento do livro, e mais especialmente da imprensa, passa a ser codificada pelos critérios dos donos da opinião, os curadores : o jornalismo cultural estabelece uma Hierarquia de relevâncias, um jogo perverso de implicâncias e indulgências.

Nesse ambiente volátil e intrincado, a opinião corrente, uma vez plantada no senso comum, é uma commodity valiosa e incontornável , que viabiliza ou condena reputações e determina o sucesso ou o insucesso de carreiras e produtos culturais. Como toda mercadoria, a opinião, a qualificação e a cotação artísticas são bens manipuláveis, e esses curadores, até por afinidade, são egressos dos meios intelectuais, e não raro trazem recalques de talentos, de carreiras mediocres ou de incompreensões ( há inclusive vários casos de mentes brilhantes, talentos legítimos, que usaram a crítica como meio de expressão – mas não é essa a regra)  e se tornam portadores de prerrogativas especiais para determinar em qual gaveta da relevância do Mundo serão arquivados os artistas, os pensadores do mundo estético, e as suas obras. Arquivados para a vida toda, são raríssimas as exceções. Os resgates post-mortem são comuns. As mudanças de gavetas são raríssimas, e uma vez indexados no Sistema, os artistas geralmente lutam para melhorar de cela nessas verdadeiras “cadeias culturais” – e como este termo é apropriado !

Tenho me debruçado com prazer e vívido interesse nesse assunto, na boa bibliografia existente, e devorei, neste período sabático de recolhimento, uma porção de e-livros extremamente reveladores…Hobsbawn é meu preferido, disparado, seguido de perto por Eco ( este mais superficial e mais fácil de digerir)… Eric Hobsbawn se transformou numa espécie de irmão mais velho…se é que eu posso tratá-lo assim, porque do alto de sua erudição e de seu texto denso e de lenta absorção ( ainda mais no inglês original, repleto de termos e expressões que merecem e precisam de permanente, imediata tradução…sob risco de prejuizos ) o querido Eric se revela bem humorado e certeiro na sua finíssima mordacidade…Depois que o leitor se habitua a essa densidade e a todo seu refinamento, a coisa muda de conversa. Tantas coisas que já sabíamos passam a ser confirmadas em detalhe e desmistificadas em nossos corações magoados por um mundo até então incompreensível.

O mundo “moderno” da industria cultural se revela muito mais complexo em suas razões, e muito mais simples em seus resultados.

Um resultado imediato e aplicável ao nosso mundo real e contemporâneo, em nossa realidadezinha provincial da musica popular, em nosso vilarejozinho recôndito e esquecidíssimo do mundo, chamado Brasil, é a pergunta que não quer calar : como é que se pôde estabelecer, para a nossa geração da Música, um panteão de Vacas Sagradas cuja Trindade Suprema são poetas não-músicos, enfim, que não manjam nada de música ? Ignorantes totais de sons e instrumentos ? Como é que acontece isso, e, olhando-se bem, não é só no Brasil ? Porque a Música é assim tão maltratada… em nítido benefício de outras modalidades de relevâncias… Preste atenção e você constatará, como eu, que existe uma sutil hierarquia… Muitas vezes, nem tão sutil : descarada.

Para simplificar, e para resumir com sagaz crueldade, vou enumerar aqui a hierarquia de relevância intelectual, magistralmente construída pelo jornalismo cultural.

  1. No topo da cadeia alimentar da Cultura, estariam os Literatos : Escritores, Poetas, Dramaturgos,  e (obviamente, “comme il faut”) os Jornalistas e os Críticos de Arte. Estes últimos, são como os Parlamentares : legislam em causa própria.
  2. A seguir, numa já bem distante segunda categoria, viriam os Publicitários e os  Cineastas ( a Publicidade e a Indústria do Cinema não raro pagaram a conta dos salários da Imprensa, moradora do andar de cima ) Eu diria que esta segunda Classe anda meio “borocoxô” , meio “cambalache”, porque o mundo deu tantas voltas e despencou na mais elementar truculência… Acompanhado de perto pela Publicidade, o Cinema se rendeu à medíocre fábrica de Blockbusters – há muito que o Cinema vive de recordações : O que foi, e em que se tornou !
  3. Na Terceira colocação, vêm os Produtores e Agitadores Culturais, articuladas peças de ligação entre as artesanias e as prateleiras de mercado. Interessantes e descolados, dependem basicamente de personagens e “lendas” que constróem, formando um contingente efervescente nos ambientes culturais, infiltrados nos gabinetes políticos das Programações Culturais, dos Editais , e com trânsito feérico na mondanitè dos bares e points de onde se fabricam tendências, vanguardas, eventos e patrocínios.
  4. Nas galés, no populacho, “na graxa”, sendo portadores de “habilidades práticas, meramente manuais” , sendo adestrados para atividades mais “emburrecedoras” do que a Palavra, Palavra essa que é supremacia do Pensamento, e que por essas atividades paralelas à Palavra, são desprovidos de intelectualidade mais profunda, estão os músicos, desenhistas e pintores, escultores, atores, bailarinos e coreógrafos.

De minha parte, eu agradeço pelo meu talento de fazer minhas letras. Todas. Não dependo de especialistas na Palavra.

A não ser para julgarem o meu artesanato !

 

 

PERDIDOS NA SELVA

As vezes me deparo com uma citação da musica “Perdidos na Selva”, e fico espantado com a desinformação generalizada do que é, realmente, aquela jóia “cult” do “pop” brasileiro… Já vi muitas publicações na “rede” creditando até mesmo a autoria ao Barão Vermelho, levando a crer que é uma música do genial amigo Roberto Frejat… quando na verdade o Barão regravou magistralmente a canção originalmente gravada pela Gang 90 e Absurdettes. Mas basta dar um “google” para ver que nem a Gang 90 aparece mais !

Resolvi então contar as aventuras, o que realmente aconteceu – a sequencia extraordinária que levou a que esse hit inaugural dos Anos 80 se tornasse um clássico fundamental do Brasil Moderno, e qual a parte que me cabe nessa historia…Não é pouco.

É na verdade um marco indelével na minha trajetória. Esse momento mágico me abriu todos os caminhos poéticos e comportamentais para que eu desse uma guinada espetacular na carreira : gratidão eterna a uma linda amizade poética que me ensinou a destravar a minha liberdade .

Viva Julio Barroso, viva o trabalho criativo coletivo, que envolveu mais pessoas do que se possa imaginar. Julio era um jornalista, DJ , um gerador inesgotável de conteúdo, e pertencia a uma geração de jornalistas e artistas, uma turma muito à frente do seu tempo… amigos que o ajudaram naquele momento de formulação de um movimento : Gang 90 foi na verdade um movimento estético. Foi uma curtição de várias pessoas muito criativas, como Okky de Souza, Denise Barroso, Antonio Carlos Miguel, Katy Pinto, Tavinho Paes, Nelson Motta, Leonardo Netto. Eu,na verdade,entrei para resolver a parada, ensaiar a banda, pré-produzir,e principalmente dar acabamento e viabilizar no estúdio : para isso é que eu fui chamado.

E adorei, como vou contar a seguir…

Embora eu seja muito grato, e dê total valor à minha arte de tocar instrumento, sou genérica e miseravelmente citado na categoria “músicos que participaram da gravação”…
Ora, isso é mais do que uma mentira, é uma sacanagem inconsciente de pura inveja, a tal “inveja santa” de tantas pessoas que gostariam de ter estado ali, e fazer tudo que eu fiz… Fiz acontecer.

Esse papel secundário é uma redução vergonhosa, proposital e despeitada da parte de alguns formadores de opinião que se dedicaram a resenhar o pop rock brasileiro, publicando livros sobre esse incrível movimento,e no afã de dar o justíssimo destaque à genialidade seminal do meu parceiro Julio Barroso,um revolucionário,não por acaso “jornalista” brilhante e colega de redações de toda aquela (ótima) geração da inteligentzia vanguardista do final dos anos 70.

Desde sempre louvarei a realidade,de que Julio Barroso é o autor,evidentemente,de 70% da letra,autor da idéia libertária da banda,um poeta transformador e “figuraça” obrigatoria da cena riquíssima que se projetaria fulminante na abertura da década de 80.

Saboreio e compartilho meu quinhão nessa obra prima..até porque lembrar os detalhes e poder contar essas peripécias é motivo de muita alegria e de orgulho não só pra mim, mas para todos da “banda”, inclusive os posteriores que se agregaram a esse movimento. A Gang 90 é nossa !
É muito minha também, sempre será.

Em 1979 e 1980 eu havia gravado dois discos sob produção do Liminha, para a Warner do Midani, e a gravadora nos tratava muito diferenciadamente, Midani era um gentleman, um big boss afetivo e muito influente com sua cultura e incomparável “mondanité”… Muito acertadamente hospedando os artistas em Ipanema, na Prudente de Morais, altura da Rua Farme de Amoedo, em pleno Posto 9.
Eu costumava naquelas areias escaldantes ( basta ver as fotos da época..kkk. eu paulistão transformado em um quase surfista …invejoso.. pois jamais subi numa prancha na vida … só jacaré , o caipirão …) indo muito à praia, Ipanema, Arpoador…que lindo aquele Rio de 1980… encontrar Marina Lima, Dadi da Cor do Som, as Frenéticas Leiloca e Lidoca, e muitos amigos inesquecíveis como Paulette, Lauro Corona, e o meio artistico inteiro… Quem viveu Posto 9, Farme, no final dos anos 70… pode dizer que viveu boa parte desta vida !
E quem é que morava bem ali na Vieira Souto com Farme ? era o Barrosão, querido pai de duas figuras delirantes, o Julio e a Denise Barroso.
Julio eu conheci ali mesmo, na areia, pisando as ondinhas do quebra-mar… era um cara muito delirante e vulcânico, com idéias mirabolantes que borbotavam em mirabolâncias estratoféricas de sua verve culta que misturava Mallarmé com Kerouac… isso eu me lembro que foi assim, de cara… sem ninguém pra me apresentar, fui abordado por ele. E eu me assustei, talvez eu fosse todo metódico e “certinho”, a primeira impressão diante daquele Júlio Barroso (que eu nem sabia muito bem quem era…) foi querer distância.. me parecia parecido com outros “doidões” daquele período, um estilo que estava tão na moda, Damião Experiença, Guilherme Lamounier, Serguei… Um final de fase do Rock… Contracultura era um alicerce,mas eu era mais contido,mais encucado e com sérias críticas ao lado porra-louca e sujismundo dos velhos festivais de Rock… Só que Julio era literalmente um passo além…Me acendeu uma lampada…
Não demorou muito para que, no final de 1980, Leonardo Netto me ligasse pra São Paulo para me convidar pra fazer a direção musical da Gang 90, que o Nelsinho Motta estava lançando pelo seu selo independente “Hot”, distribuido pela Warner… , Leo sempre foi um amigão querido, diretor de Marketing na WEA, e eu era frequentador da sua casa na Rua Santa Leocádia, em Copacabana, então tínhamos muita afinidade, e eu me sentí atraído pela idéia. Me convenceu a topar.
Eu passava por um período de revisão geral da minha estética, os meus discos roqueiros com Liminha na WEA não tinham tido o resultado que se esperava, o pretensioso “Coração Paulista” havia “flopado” sem sucesso, e eu já estava recebendo cartão azul na WEA : não iriam renovar. Ferrado, eu estava aberto a “experimentar”. Primeiro degrau para o exito… Paradoxalmente frente ao meu desastre, eu tinha acabado de emplacar “Aprendendo a Jogar” na voz da Elis, um hit espetacular mostrando o caminho da simplicidade, da brincadeira, e estava preparando um repertorio mais pop e mais radiofônico – as FMs estavam explodindo no “dial”, e eu precisava “me virar” pra não desaparecer de cena.

Tendo alugado uma casinha na Rua Caramurú, perto da Estação Casa da Arvore do recém-inaugurado Metrô de SP, eu vivia um novo momento, pois eu saía de casa de manhã para “trabalhar” , de Metrô..tudo me parecia novo, com mais liberdade do que em casa ( Marietta era bebê, tinha nascido em Maio…e eu precisava de “ares” novos ) então agora eu tinha um “local de ensaio” – que seria precioso para compor um monte de hits … como “O Melhor vai Começar”, “Deixa Chover”, “Planeta Agua”, “Pedacinhos”… Só lembro que por causa desses “detalhes”, eu era feliz. Eu estava usando intensivamente um “kit” de instrumentos que foi muito importante pra mim. O piano Yamaha CP 70, combinado com um flanger Mutron, o meu velho Minimoog com camera de eco Echoplex Maestro, uma mesinha Tapco de 6 canais com reverber de mola embutido ( que eu havia comprado de segunda mão de uma banda se SP, o Grupo Fragata do Ronaldo Pascoa ), um microfone Shure SM 59 , recém-comprado junto – num abençoado sábado que fui à Leimar na Rua Bandeirantes – com um ítem que seria decisivo naquele momento para compor os hits : uma bateria eletrônica Electro Harmonix DRM16 , um stompbox precaríssimo, muito “disco” , muito eletrônico, mas que apesar das limitações, me ajudaria a colocar ritmo nas minhas musicas. Eu tinha um par de caixas Lando enormes funcionando como monitores… e estava compondo compulsivamente, tentando salvar a minha carreira.

De grana, eu estava arruinado. Sem sucesso e sem shows, tive inclusive que vender uma bateria Ludwig azulzinha , que eu tinha ali guardada mas não tinha banda para usar… acabei vendendo ela para o Eduardo Lemos da Transassom, por 2.000 dolares, para pagar os aluguéis atrasados de minha casa na Rua Juaracê, Vila Mariana, aluguéia que estavam vencidos há 4 meses e eu estava sendo despejado, com a Marcia e a Marietta…

Mal eu sabia…. aquela bateria, 3 meses depois, com o estouro de Deixa Chover, eu alugaria pelos mesmos 2.000 POR SHOW !!! É a vida ! Eu jamais poderia imaginar que eu estava a 3 meses de me tornar o numero 1 no Brasil…

Então nesse meio-tempo resolví aceitar a empreitada de dirigir a Gang 90.

De cara, com a letra do Julio Barroso na mão, fui dedilhando uma levada com a bateria eletronica e o Piano CP 70 com seus graves poderosos, bem à la Billy Joel, com um riff que remetia ao “Coração Paulista” que eu tinha lançado no primeiro semestre de 80… só que a batida, com a DRM16, estava na onda da Rita Lee com Roberto, de “Chega Mais”, de “Corre, Corre, Corre”… eu estava no caminho certo…porque estava divertido. Eu era muito resistente ao “bumbo reto”da onda “DISCO” que dominava a cena mundial, e, claro, a cena brasileira… Isso já havia rendido, no passado, muitos debates com o meu produtor e diretor artistico Liminha, nas nossas sessões de estudio recentes, e eu tinha uma “vergonha” da batida reta – teimoso, fazia o meu proprio processo de composição ficar engessado no preconceito… Com a chegada da stompbox rítmica, porém, eu agora ficava me deliciando em ter aquele “drive” rítmico nas mãos, com as teclas mais graves do CP70 fazendo linhas de baixos em oitavas, na verdade eu estava me reinventando, oxigenando meu som .

Perdidos na Selva seria uma OPORTUNIDADE DE MERGULHAR SEM NENHUM PUDOR NAQUELA BATIDA, porque não seria um produto do Guilherme Arantes, para o Guilherme Arantes … era uma experiência especialmente encomendada para uma banda “fabricada”, o descompromisso era total… então eu deitei e rolei propondo aquele “drive Disco Inferno” modernoso e “comercial” . Sem querer, só de brincadeira, eu estava “ inventando o Pop” …Aquela introdução histórica, com toques de progressivo no trinado agudo do piano e poderosos acordes heavy metal fazendo o suspense incendiário, realmente se tornaria um marco no Pop Rock e fulminava o publico instantaneamente. Lembrava Silvester, lembrava grandes hits de pista. Eu queria impressionar Julio, a turma do Julio, o Nelsinho, e toda a “inteligentzia” da crítica musical ali representada, e principalmente a Warner que estava me dispensando, então estava tentando dar o melhor de mim .

O grande problema de Perdidos na Selva era a FALTA DE UM REFRÃO. Não existe hit sem refrão. Para resolver logo aquele impasse, compus música e letra do trecho “Eu e minha gata rolando na relva… rolava de tudo… num covil de piratas pirados… perdidos na selva !!! “ …

Julio adorou, Nelsinho e toda a turma aclamou : é Hit.

Esse refrão se tornaria o maior sucesso da banda, até hoje. Outros músicos, mais tarde, imprimiram suas competências, suas marcas, cito como exemplo o Herman Torres, guitarrista, que fez Nosso Louco Amor, que viabilizou a Gang 90 em outro grande sucesso da banda, dois anos depois. E Herman, na História Oficial que é contada, também foi reduzido à categoria de “músicos que participaram” …

Voltando a “Perdidos na Selva”, foram então iniciados os ensaios com aquele bando de malucos: o Júlio, feliz da vida porque agora já o sonho virava realidade, e a música tinha agregado agora o refrão explosivo – o aroma do sucesso estava no ar, uma euforia só . Os músicos, excelentes, eram o Gigante Brazil ( Bateria) um velho amigo das batalhas contraculturais do circuito Bexiga/Morro dos Ingleses, um baterista mortal, tribal, um relógio !
Puxa que saudade… como eu adorava o Gigante !!… e mais duas novidades pra mim, o Wander Taffo ( Guitarra) e o Celso Vechione ( Made in Brazil , Baixo )… Músicos que haviam sido escolhidos num critério de “ecletismo” total – a ideia era formarmos uma espécie de “cover” de “Kid Criole and the Coconuts” – essa concepção Júlio trazia na raiz da idéia, era coisa que havia sido concebida ainda em Nova York, em suas temporadas de DJ…E eu ajudei também a formatar o restante do repertório, todo ele genial, concebido por Julio. Tinha um pouco de tudo naquele caldeirão. O sopro poetico delirante de Julio entrou como uma aragem , um vento revolucionário no meu espaço criativo particular, e eu me sentí abrigado numa turma nova, uma sensação de completa renovação. Pra mim, algo mais: eu estava brilhando do lado de dentro da imprensa especializada mais moderna, e Julio adorava as musicas que eu estava fazendo na época, como “Todo Mes de Maio” – era um incentivo importante numa hora crucial.

Como vocalistas haviam a genial holandesa Alice Vermeullen – mais tarde rebatizada artisticamente como Alice Pink Pank ,na epoca ainda “paquera”do Julio, recém chegada ao Brasil, a Denise Barroso, sua irmã, uma pessoa muito querida e afetiva, poetisa, engraçadíssima, casada na época e vivendo com Okky de Souza (meu amigo jornalista e já parceiro de letras, que na época frequentava a minha casa ), a Luiza Maria, que era discotecária junto com Julio Barroso e Dom Pepe nas casas de Nelson Motta, e para completar as “Absurdettes”, a Mae East, Maria Elisa Pinheiro, uma cantora muito criativa e artista de vanguarda, que na época estava namorando o Nelsinho Motta. Nelsinho havia inaugurado num shopping da Av. Faria Lima uma discoteca “cult”, a “Paulicéia Desvairada” e ali a Gang 90 teria seu palco de estréia e de residência, já que Julio e Luiza comandavam as Pickups.

A Gravação Histórica : Devidamente ensaiados os músicos (era uma curtição total, já que a combinação com Gigante Brazil e com a guitarra fulminante de Wander Taffo rendia um “drive” inacreditável com o meu piano. Estava inventado o Pop dos anos 80. Fomos então para o Estúdio na Rua Bocaina 72, o Nosso Estúdio , um point importante da música brasileira , e numa única sessão, uma tarde e uma noite, gravamos, sob o comando do saudoso amigo Marcus Vinicius, o legendário “Vinicão”, as bases, vocais e mixamos “Perdidos na Selva” para ser o lado “A” e Lilik Lamê” , o Lado “B”. Claro que, sob todos os aspectos, todos confiavam plenamente no meu taco, eu era o produtor, arranjador, fazendo milagres, com grande alegria, porque afinal era “só” uma brincadeira …Perdidos na Selva, uma parceria legítima e inesquecível de Julio Barroso comigo, teve a minha voz à frente, porque simplesmente ninguém da Gang 90 ou Absurdettes ainda sabia mesmo cantar … exceto, é bem verdade, a Alice , pois era a mais descolada musicalmente, afinada e refinada com suas influências européias. Mais tarde, ela mostraria seus talentos . Naquela circunstância, alguém teria que tomar a frente e liderar o côro. Na mixagem, Marcus Vinicius exagerou na minha voz…acabou ficando puro Guilherme Arantes com umas notas de Gang 90 !!! Além do arranjo, do piano, fiz aqueles chiquérrimos “Minimoogs” ao estilo de Gary Numan ( que eu ouvia muito naqueles meses, junto com Warren Zevon, The Cars, David Edmonds e outros …)

Já Lilik Lamê teve a voz de Denise , um pouco titubeante mas tão verdadeira – justamente porque não era cobra-criada, era espontânea, uma música linda de Siouxie and Banshees, canção de John Severin, bem pós-punk , com letra de Julio com Katy Pinto e A.C. Miguel.

Com a inscrição de Perdidos na Selva no Festival MPB Shell-81 , eu fui obrigado a escolher uma canção para prosseguir no festival , já que Planeta Agua estava inscrita e também foi selecionada . Guto Graça Mello, diretor do Festival, me ligou para resolvermos como ficaria resolvido esse impasse, pra eu não ser desclassificado ao descumprir o regulamento… Ora, para mim, não tinha problema algum abrir mão da parceria com Julio, para efeito daquela circunstancia do Festival, já que a Autoria , assumida no Copyright da Editora, poderia ser revista mais tarde – Julio era como um irmão para a gente.

Era como um irmão para todos nós, todos os que conviveram com ele.

De minha parte, sei que foi reciproco.

Não houve tempo… e nem motivação da minha parte… para modificar os créditos daquele Copyright editorial. Ficaria como um presente para Julio, por tudo que ele nos deu de inspirações.

Essa é a história verdadeira de “Perdidos na Selva”, que eu gostaria que nunca mais fosse esquecida. E nem reduzida a uma mera “participação de músico” numa ficha técnica de um Compacto Simples transformado em raridade de colecionador.

O Grande Satã Dualista

O GRANDE SATÃ DUALISTA

Grande é o Satã

Da Dialética, dos debates sem fim…

Se mostra imbatível, sem contendor… aniquilando inimigos de ambas as partes…

Ele Venceu !

O Mundo se reduz a essas 2 dimensões cativas… Num Complô Macabro contra toda visão multifacetada como deveria ser enxergada toda Realidade… Tudo Farsa !

Na Realidade, não existe essa mística pobre de Dualismo, nem mesmo nas Religiões !

Acordem ! Prestem atenção nos tempos de dissuasão que estamos assistindo e tentando pateticamente representar !!!

A qual burrice você pretende se alistar ???

Defeito de nascença

Porque não acredito na politica ?

Por um defeito de fabricação em todos , e eu digo TODOS os personagens da política.

Todo indivíduo que se atribui um papel de SOLUÇÃO PARA OS DEMAIS …

tem um componente patológico :

É UM SOCIOPATA.

A MATERIA ESCURA E O TEDIO

Nunca passei por uma fase tão longa de vácuo produtivo.

Mas hoje eu sei que é dessa “matéria escura”da negação que são constituídos 99% do  Universo… O “tédio”, a “crise”, o estado “letárgico da alma” são, assim, a regra da Existência, e a exceção são os píncaros materializados em “objetos”, em “corpos”, em “obras”.

Viver também inclui profundas cisões com a rotina de toda uma vida prolífica e “extremamente fértil em criatividades”…

… e porque coloco as aspas ?  Justamente porque é o senso crítico que nos faz  enxergar, hoje, do alto de muitas décadas de compulsão criativa, que muitas vezes somos premidos por pressões externas para produzir em quantidade : a indústria da loucura. O Sistema funciona assim. Nos faz acreditar na materialização e desacreditar no “vazio” existencial.

Hoje percebo claramente os períodos e territórios de esforços absolutamente em vão, sem a menor utilidade prática, armadilhas que nos  fizeram seguir em frente, em frente, sempre em frente, sem olhamos muito para trás ou para os lados !

São contratos de trabalho, são “períodos úteis para o Sistema” que nos levaram a remar, remar, e quantas vezes sem critério, só obedecendo a “vozes interiores” de origem suspeita….

Existe outra sobrevivência misteriosa que é colocada sempre de lado, a sobrevivência de nosso “Universo 99% Vazio”…

John Lennon, em sua melhor fase criativa, havia se transformado num Ser Preguiçoso que só dormia…dormia… ( I´m Only Sleeping).

…é que as Revelações dependem de uma forma muito especial de “Tédio”…

… é da profundidade do “Nada” que provém todo Big Bang…

Decadance Sans Elegance

… fico me indagando… quem passou pelos anos 60 que culminaram com 68, Woodstock, Nouvelle Vague……

… e quem passou pelos 70 na explosão da Black Music, do surgimento do Reggae, do Progressivo, da Era Disco…e quem virou para os 80 com o Punk, a New Wave e o auge do Pop,

…e quem ainda conseguiu virar para os 90 da cena Clubber da Eletronica e da Liberdade Urgente da Arte…

… este Século 21 que começou Yuppie,cresceu Ativista Alternativo,e por fim se acomodou em Hypster Gourmet …

é um TÉDIO SÓ.


Tudo encaixadinho nas gavetinhas nas prateleirinhas, como manda o figurino de um Tempo Chocho !

Que pobreza !

A Arte da Representação

Por força das “redes sociais”, estamos numa época de “representação”, uma época artificiosa em que as pessoas não valem pelo que são, mas sim pelo que “representam”.

Olhe em volta, olhe para dentro, constate isso, é fato. Quase tudo é ativismo e militância.

Pior : muitas vezes nossos “papéis” nem são escolhas nossas, em profundidade, e sim “papéis atribuídos” pela sociedade, e não sabemos, simplesmente desempenhamos !
E quase tudo perdeu poder de transformação real porque se tornou raridade toda espontaneidade do mundo.
Representar, dramaturgicamente, é incorporar-se de um personagem, é “assumir um papel”.
Estamos, assim, fazendo parte de uma grande peça de Teatro, para o bem ou para o mal, em farsa, drama, comédia ou tragédia.

E nada é real.

Real é o sopro soturno e fragoroso
da brisa indiferente ao vozerio da humanidade insana.

THC

Hoje eu sou barroco. Alguns contemporâneos meus, bastante criativos por sinal, mas que parecem ter parado no tempo, fazem questão de vir a público fazer apologia de seu “lado libertário” bandeiroso… Na parede, um manifesto… Seja Marginal, seja Herói… cada geração com seus signos inalienáveis… tudo é muito compreensível, tudo significa, mas o fato nú e crú de nossa geração é que… o THC deixou de funcionar quando virou ativismo.

Era interessante e muito inspirador quando era revestido de mistérios, como uma sociedade secreta, uma alquimia iniciática.

Esse caráter sigiloso e particular é que era verdadeiramente transgressor – combinado às propriedades psicoquímicas, era a verdadeira chave de uma Era de Ouro da Percepção !

Qualquer ingrediente, aliás, quando se politiza e emburrece na polarização reducionista, vira manifesto libertário, bandeira marketeira para todos os burros, desprovidos de talento, e na nova Pólis eletrônica os enganadores não têm limites para sua empulhação…

Nossos lados secretos são muito mais revolucionários do que qualquer posicionamento público. O território público se torna meramente político, o que é um reducionismo tóxico e desimportante.

Eis o paradoxo da modernidade : nem um aditivo emblemático como o THC escapa dessa regra.

O THC deixou de funcionar quando virou ativismo.

MATRIX ?

Nunca mais nossas vidas serão como eram antes …
…um dos mais graves processos de transformaçao de toda a História humana …

“Vidas” em “Rede”.
Mentes conectadas e escravas.
…e quando a sordidez humana se apresenta em todo seu monstruoso esplendor ?
… e quando a cópia da cópia da cópia vai gerando o mesmo do mesmo do mesmo…

Éramos inocentes, em outros tempos…nos quais quanto mais informação, melhor…
Não será mais possivel viver aberto às toxinas generalizadas.
As toxinas da informaçao estão diluindo nossas mentes no solvente da entropia.
Degradação da energia.
A cada dia um baque novo, um novo patamar de nivelação, a Humanidade se acostumando com a Matrix.
Face ao caos da informação em que este mundo se transformou, temos agora que escolher uma frequencia para sintonizar e tentar sobreviver naquele “nicho” de proteção .
Estão quase todas as pessoas trancadas em suas redomas de opinião …

Estarei num pesadelo ?

ANTENADO

Quando ser antenado vira defeito ?
Até pouco tempo atrás eu ainda me gabava de ser ligado nos acontecimentos e novidades…
Foi um processo cumulativo e exponencial que me trouxe ao desespero.
Tudo cansa , tudo cansou … foi uma vida inteira cultivando essa crença….De que seria virtuosa a informação e que toda informaçao teria utilidade… uma coisa era a informaçao analógica. Agora instala-se a barbárie. … Agora vivo num paradoxo que é o ruido monumental desse fluxo se tornando tóxico. As pessoas mais previsíveis vão se tornando as mais “articuladas em elementos da moda” , e com isso realimentando sua previsibilidade confortável e retribuidora… Vejo a humanidade chafurdar na lama da informaçao sem criterio nem escrúpulo e as pessoas transformadas em automatos repetidores de jargões e expressões pre-fabricadas…Neologismos são lançados em ondas como palavras-de-ordem …
e nos enxergamos mais inteligentes ao adotar esses arquetipos robot, células espiãs do pensamento…sua única utilidade é padronizar o encadeamento lógico,e todos nós vamos nos encaixando com prazer nas gavetinhas da aceitaçao de perfil … Quando eu tinha o ócio da mocidade preenchido pelas leituras as mais variadas… de Axel Munthe a Agatha Christie, de Proust a Jorge Amado, de Huxley a Castañeda , de Machado a Eça, de Cervantes a Dante , de Kafka a Sartre, de Hemingway a Truman Capote, de Borges a Saramago, de Hermann Hesse a Julio Verne, de Guimaraes a Graciliano, de Kerouac a Mautner… valia tudo… e o silencio da leitura era – ainda é – uma delícia
…mas isso não era absolutamente “antenação”… era outríssima estratosfera construtiva de uma Alma… E no silencio dos livros abertos , dos livros fechados, tudo eram possibilidades e não pre-requisitos para a engabelação coletiva…as possibilidades eram ferramentas diante da folha em branco infinita do pensamento… Antenagem não …é uma gororoba de fragmentos… ganchos mediocres de um alpinismo pré determinado, de construções de plataformas superficiais da vaidade intelectualerda…
Ganchos de marketing raso, Legos da mesmice universal…
Busco desesperadamente o silêncio que não existe mais nas redes ruidosas e cinzentas, assim como o branco absoluto sempre desapareceu com a primeira molécula de pigmento ou sujeira…
somos “antenados” ou somos sintonizados com uma rede invisível de repetições ?
A verdadeira leitura liberta.
A antenagem escraviza na ilusão.