MATRIX ?

Nunca mais nossas vidas serão como eram antes …
…um dos mais graves processos de transformaçao de toda a História humana …

“Vidas” em “Rede”.
Mentes conectadas e escravas.
…e quando a sordidez humana se apresenta em todo seu monstruoso esplendor ?
… e quando a cópia da cópia da cópia vai gerando o mesmo do mesmo do mesmo…

Éramos inocentes, em outros tempos…nos quais quanto mais informação, melhor…
Não será mais possivel viver aberto às toxinas generalizadas.
As toxinas da informaçao estão diluindo nossas mentes no solvente da entropia.
Degradação da energia.
A cada dia um baque novo, um novo patamar de nivelação, a Humanidade se acostumando com a Matrix.
Face ao caos da informação em que este mundo se transformou, temos agora que escolher uma frequencia para sintonizar e tentar sobreviver naquele “nicho” de proteção .
Estão quase todas as pessoas trancadas em suas redomas de opinião …

Estarei num pesadelo ?

ANTENADO

Quando ser antenado vira defeito ?
Até pouco tempo atrás eu ainda me gabava de ser ligado nos acontecimentos e novidades…
Foi um processo cumulativo e exponencial que me trouxe ao desespero.
Tudo cansa , tudo cansou … foi uma vida inteira cultivando essa crença….De que seria virtuosa a informação e que toda informaçao teria utilidade… uma coisa era a informaçao analógica. Agora instala-se a barbárie. … Agora vivo num paradoxo que é o ruido monumental desse fluxo se tornando tóxico. As pessoas mais previsíveis vão se tornando as mais “articuladas em elementos da moda” , e com isso realimentando sua previsibilidade confortável e retribuidora… Vejo a humanidade chafurdar na lama da informaçao sem criterio nem escrúpulo e as pessoas transformadas em automatos repetidores de jargões e expressões pre-fabricadas…Neologismos são lançados em ondas como palavras-de-ordem …
e nos enxergamos mais inteligentes ao adotar esses arquetipos robot, células espiãs do pensamento…sua única utilidade é padronizar o encadeamento lógico,e todos nós vamos nos encaixando com prazer nas gavetinhas da aceitaçao de perfil … Quando eu tinha o ócio da mocidade preenchido pelas leituras as mais variadas… de Axel Munthe a Agatha Christie, de Proust a Jorge Amado, de Huxley a Castañeda , de Machado a Eça, de Cervantes a Dante , de Kafka a Sartre, de Hemingway a Truman Capote, de Borges a Saramago, de Hermann Hesse a Julio Verne, de Guimaraes a Graciliano, de Kerouac a Mautner… valia tudo… e o silencio da leitura era – ainda é – uma delícia
…mas isso não era absolutamente “antenação”… era outríssima estratosfera construtiva de uma Alma… E no silencio dos livros abertos , dos livros fechados, tudo eram possibilidades e não pre-requisitos para a engabelação coletiva…as possibilidades eram ferramentas diante da folha em branco infinita do pensamento… Antenagem não …é uma gororoba de fragmentos… ganchos mediocres de um alpinismo pré determinado, de construções de plataformas superficiais da vaidade intelectualerda…
Ganchos de marketing raso, Legos da mesmice universal…
Busco desesperadamente o silêncio que não existe mais nas redes ruidosas e cinzentas, assim como o branco absoluto sempre desapareceu com a primeira molécula de pigmento ou sujeira…
somos “antenados” ou somos sintonizados com uma rede invisível de repetições ?
A verdadeira leitura liberta.
A antenagem escraviza na ilusão.

CRUCIFICADO

Aqui onde estamos há um bom  tempo… em nossas andanças, vou constatando o peso e a fundamentação do Cristianismo na Europa, algo meio fluido, meio líquido e amorfo para nós, catequizados pelas Colônias… Daqui destas Metropoles, onde a religião se propulsionou substituindo o Império Romano, aqui de dentro das matrizes dessas Colônias, há um verdadeiro Espetáculo. O enredo é contado com uma pompa e circunstância inigualáveis, e com uma incrível moldura de riqueza e glorificações materialistas, revelando uma natureza contraditória da Fé, oscilando sempre entre a Força do Poder Ilimitado e o despojamento da Pureza Desprovida de qualquer Poder que não fosse sua Imanente Verdade…

Uma sensação recorrente, desde menino, na minha pureza da infância inocente, e que teima em reavivar a todo momento, é a resposta íntima a uma pergunta que se recusa a calar cada vez que me defronto com a cena da crucificação, tão cara à Religião e à iconografia da Fé…

…”O que está ali ? “

O que vemos, realmente, quando estamos diante de tão inúmeras obras de arte magistrais, diante de altares e templos, que retratam repetidamente a mesma cena, um Ser Iluminado “em forma humana”, semi-nú, crucificado, e esta cena conter como memorial descritivo a saga de UMA DAS MAIORES CANALHICES ( e de resto, provavelmente a maior INJUSTIÇA ) de toda a História  da precaríssima Raça Humana sobre este planeteco de pequena significação ( hoje sabemos ) num Universo que a cada dia se revela mais e mais insondável…

…”O que está ali ? “

O Fato é Real ?  Sim,  é Real, até pelos precedentes de outras inúmeras consagradas injustiças e conhecendo um pouquinho a Raça Humana não fica muito difícil de se acreditar que tamanha canalhice tenha mesmo acontecido : é para isso que serve a imponente construção de toda uma Cultura : fazer acreditar e edificar em cima dessa crença. Com isso, a Arte ganhou um impulso extraordinário no Ocidente, e o Apogeu de uma coisa está ligado ao Apogeu de outra. O que fica evidente nesta chamada “Cultura Ocidental” é que todo seu monumental alicerce repousa nesta cena-símbolo, importada do Oriente, e que atinge em cheio a náusea humana com sua própria canalhice. É magistral como Obra, e uma Obra coletiva, de sucessivas gerações, e que explode em esplendor de ornamentação quando, com as navegações e Colônias, o ouro passa a ser derramado neste Continente hegemônico.

…”O que está ali ? “ … naquele Ser abandonado num martírio supremo ?

É o retrato do próprio abandono da precária Natureza Humana, o retrato de toda a maldade da subjugação dos povos, da retaliação à “rebeldia” do Iluminado, não por acaso representante rebelde de uma etnia que não se dobrou outras vezes – e que não se dobraria jamais – uma etnia rebelde que sempre se disse Especial e herdeira direta do Criador do Mundo, em tradições construídas em Escrituras com Profecias…

Aquele homem nú, ali, está entregue à turba ignorante e manipulada pelo fanatismo sectário, que se aproveitava de uma escravidão a um Império sanguinário de dimensões e crueldades sem precedentes (outro símbolo embutido ali, em sua coroa de espinhos e seu corpo todo esfolado, supliciado), um Império pagão que ali naquele arrabalde triste (daquele mundo da época) estava crucificando multidões de corpos apodrecendo a céu aberto… aquele homem nú ali está assassinado por trazer revelações e ser dotado de uma mensagem nova no mundo, avassaladora e revolucionária de fato por vasculhar a alma e o poder da Natureza Milagrosa da fé e propor uma nova modalidade de Aliança…

Aquela é uma cena propositalmente mórbida, torturante, mas também se propõe a trazer o retrato da suprema vitória do Espírito sobre esse abandono e sobre essa morte inútil – enquanto suplício e aniquilamento desse Ser – já que, nos momentos que se seguem a essa Cena, esse Ser se levanta para a Eternidade e humilha a pequeneza de toda canalhice a que foi submetido…

Bem, este é só o princípio deste relato sobre esta pergunta que permanece :

…”O que está ali ? “

Universo de Desperdício

…após um longo período de maturação, volto pra acrescentar aqui um subtítulo…

O nome da Opinião de Humanidade é: Marketing !

…marketing é TUDO que acontece quando alguma obra ou conhecimento se destaca do “limbo do descaso” na História…

podia não se chamar “Marketing” nas diferentes Eras, mas JÁ ERA e SEMPRE FOI.

O Colosso de Rhodes… as Pirâmides… o Farol de Alexandria…

Uma encomenda para que um gênio pintasse a abóbada da Capela Sistina era puro… Marketing.

Uma encomenda para que Bach compussesse os Concertos de Brandenburgo era puro… Marketing.

A Muralha da China… Neil Armstrong na Lua… e coloquem aí o que bem quiser… acho que nem o Sagrado escapa ! ( quando tudo é “construido” para a mitificação, para a opinião…  infelizmente é assim mesmo que caminha a humanidade )

Uma das aquisições mais avassaladoras da idade é a consciência do imenso desperdício que acompanha a vida. Às vezes, nos parece um mundo estúpido que não responde (ou responde mediocremente)  às nossas ações, nossos esforços e obras parecem sempre muito aquém das especificações e exigências : um mundo cobrador e extremamente pão duro em gratificações, quase nada recíproco.

Num País esbanjador como o Brasil, considerado historicamente um celeiro “inesgotável” de possibilidades e recursos, esse fenômeno parece ainda mais perceptível : a palavra do Brasil é “desperdício”: de recursos naturais, de idéias, de projetos, de esperanças, desperdício inacreditável de vidas. Vidas desperdiçadas. Gerações perdidas, décadas perdidas, oportunidades históricas jogadas na lixeira monumental do desperdício brasileiro. Talvez nosso fenômeno seja mesmo amplificado por nossa precariedade e ausência de experiência histórica, um país eternamente imaturo. Mas se olharmos bem, não estamos sozinhos. A Humanidade é precaríssima, e até a religião, que se propõe a dialogar com o “infinito imutável” , é toda ela fundamentada no desperdício e no sacrifício quase sempre em vão : daí a necessidade da “fé” para preencher o vácuo da inutilidade do homem. Da vida ? Mas o Universo também parece quase que “totalmente em vão”, e a palavra “vão” é riquíssima para descrever um vazio que é preenchido por uma incalculável infinitude de possibilidades, tentativas e erros numa escala em que o acerto não é a regra. Mas a quantidade redime a Criação : então é um Universo esbanjador, para compensar o pão-durismo do êxito !

Quando somos criativos e generosos, isso nos faz felizes, em nossa sanha realizadora, vamos tocando em frente sem prestarmos muita atenção no imenso descaso com que o mundo trata a Obra da Criação. Partindo-se do pressuposto do próprio fenômeno da fertilidade, podemos perceber como é que o Universo funciona. Somos um gameta vitorioso entre dezenas de milhões, isto numa única oportunidade de fertilização. Serve para dar uma ideia do quanto somos fruto de uma resiliência da natureza, que, para atingir o índice de “sucesso” a que se propõe, gera sempre milhões de bilhetes-de-loteria. Universo Lotérico.

Comecei cedo com meus sonhos, dei sorte inúmeras vezes, e estava  quase sempre pronto para montar e cavalgar o cavalo-selado dessa “sorte”. Me dizem que sou pródigo em “sucessos”, e até exageram com o mito de Midas de que é “tudo sucesso”… A estas alturas da vida, é natural que eu deite um olhar retrospectivo e me surpreenda com a quantidade de músicas trabalhosíssimas e intrincadas que eu fiz e que ninguém conhece, e muito provavelmente quase ninguém conhecerá. Mas as Sonatas de Scarlatti também são assim: nem eu mesmo, que sou “apaixonado” por elas, as conheço, e sonho um dia ter tempo de abrir aquele livro comprado na loja da Yamaha em Tóquio, e sentar ao Cravo e finalmente estudar, para a minha paixão fazer sentido.   Dá até uma espécie de “tristeza”, uma melancolia, uma sensação de que tanta coisa passou em branco, o mundo não teve capacidade de absorver nem 1% do que foi gerado. Uma sensação de que a vida vai de trambolhão, que não dá tempo de nada mesmo. Mas olhando à volta, vejo que não estou solitário. Drummond, por exemplo, é (mais) conhecido por dois versos :  “…No meio do caminho tinha uma pedra…” e “…E agora, José ? “

É isso que o mundo é capaz de reconhecer ? E é isso mesmo tão importante, o espelho do que o mundo nos diz ?

O que dizer do Beethoven, cuja obra monumental, para a patuléia do mundo em geral, se resume à Pour Elise dos caminhões de gás, ao “Tchan Tchan Tchan Tchan”… da sua Quinta e meros trechinhos épicos da Nona…não mais.  O que dizer de Michelangelo, com o seu David , Leonardo com sua Mona Lisa, Shakespeare com seu bordão “Ser ou não Ser”, Tom com sua Garota de Ipanema, Newton com a Gravidade, Disney com o Mickey , etc. etc. etc. etc.  O mundo vulgar é feito de “greatest hits”, de lírios de Van Gogh, com sua orelha decepada. O Charuto de Churchill. A Boina de Che, o bigodinho de Hitler. A luneta de Galileo. Flor de Lotus de Buda. Madeiro de Jesus. O mundo é um hit-parade ?

E o desperdício seria essa “matéria escura” que forma o Universo.

Por isso, não faz mal se o mundo ignorou solenemente 99,9999% do que a gente fez.

Faz a gente se perguntar : será que a gente também não é seletivo, e só se lembra de 0,0001% do que a vida nos deu ?

No meu caso, apesar da tristeza, eu olho pra trás com o olhar da Gratidão, e juro que vou procurar a paz em mim.

…senão a gente pira !

Outros Carnavais

Nunca gostei, de fato, de Carnaval : sou um sem-graça. Hoje em dia, então, reduziu-se a um hiato de espera pela vida real, e quase nada mais. Há alguns anos atrás ainda fui com Márcia revisitar o Carnaval, nos aventurando até o Edifício Oceania, na Barra, pra ver como andava esse lance da avenida, dos trios, etc… Fomos bem recebidos pela equipe de Flora Gil, e logo nos puseram no pulso um maço de pulseiras de várias tonalidades, cada uma dando acesso a um setor do grande Camarote 2222… O lendário Expresso 2222 como expressão de um grande banco ( o maior banco, aliás ) . O problema é que, ao ver Gilberto Gil reinando como um legítimo Rei Nagô, em seu terraço sobre a avenida, recebendo a merecidíssima reverência dos trios em seus carros de som , formando “guigues” de sucessos com as bandas, começou a ecoar na minha cabeça “O Sonho Acabou…ihhh…” , uma referência seminal do Gil que sempre fez a minha cabeça, e o Carnaval começou a girar, girar, como num pesadelo …. E eu escutando ”O sonho acabou…Ihhh…” não conseguia escutar mais nada. Pedi pra Marcia pra irmos embora o mais rápido possível : era, sim, um pesadelo. Lá em cima do Morro do Gavazza, onde estava nosso carro, ainda ouvimos Gil chamar, junto com Lulu Santos : “Guilherme, cadê você ? “… Queriam minha presença pra cantar Lindo Balão Azul… Mas já era tarde : uma pena, perdí a oportunidade de abraçar dois amigos queridos e festejar com o público de Salvador…Que desfeita… Mas é que não combino mesmo com Carnaval…Várias vezes fui convidado a subir nos carros de som do Asa, de Ricardo Chaves, de Margareth Menezes, de Tatau e seu Araketu…Mas, francamente, sempre me sentí um peixe fora d´água… Lá no passado, até saí na legendária Ala dos Compositores do Salgueiro , com muita honra por sinal, de colete listrado branco e vermelho, na cabeça a palheta, e o distintivo “Compositor” no peito , o que muito me orgulhou por estar simplesmente na companhia de Taiguara e de Jorge Benjor…entre os demais Compositores da grande escola. Me orgulhei ainda mais porque uma escola concorrente , a Mocidade, apresentava um carnaval cujo tema era Chuê, Chuá, As águas vão rolar, e me convidou para ser destaque com um carro “Planeta Água” , e eu recusei solenemente, por estar 100% empolgado com a minha escola, o Salgueiro. Disso eu me lembro com carinho. Poderia ter cedido à tentação da exibição, e até foram campeões, mas não tenho esse tipo de vaidade, uma coisa típica de Carnaval… Esse foi o melhor momento meu como carnavalesco. Um momento com consistência na cultura do Carnaval, coisa que eu respeito profundamente… A abertura do portão na Avenida, com os fogos, a Escola explodindo aquela energia da concentração, em som e fúria de cores lisérgicas , foi realmente uma emoção inesquecível e indescritível. Mas não me encaixo no absurdo Dionisíaco do Carnaval. Devo ser de outra falange, ou o meu Dioniso aproveita pra tirar folga no Carnaval : já é muito ocupado no cotidiano! Essa incompatibilidade em mim remonta a tempos imemoriais.
Me lembro da infância com carinho pelos Carnavais ingênuos de Araraquara, fantasias de pirata e o corso caretíssimo pela Avenida São Bento , o saquinho de confete e os maços de serpentina… As bisnagas de sangue-do-diabo… Na adolescência, a chegada dos lança-perfumes aos salões do baile do Municipal tirou o resto de inocência e substituiu por um embrião de perversidade tóxica. Não era mais infância. Nas décadas seguintes, logo a seguir, nosso cotidiano se transformaria em algo bem mais alucinado do que qualquer Carnaval… Vou usar um exemplo gritante, pra deixar mais evidente, por ser de um contraste acachapante: Na década de 60, que, por uma fortuna incomensurável , pegou em cheio a nossa puberdade e adolescência, a semana do Carnaval significava um retrocesso bizarro com seus discursos machistas, racistas, reacionários, nas letras das marchinhas anacrônicas com levadas marciais, uma pausa inaceitável para um mundo em estado revolucionário. O dia a dia da gente, este sim um verdadeiro carnaval, era simplesmente fascinante com os Beatles, a Jovem Guarda, a Tropicália, o Cinema de Godard, Visconti, Antonioni, Pasolini, Fellini, um mundo de Brigitte Bardot , de Serge Gainsbourg, do Led Zeppelin, dos Stones, das lutas dos Panteras Negras, Primavera de Paris, um mundo em convulsão e completamente descolado do passado. A chegada do Carnaval sempre significou uma parada obrigatória para uma grande alegria compulsória, e eu fazendo parte de um mundo careta de dedinhos-para-o-alto, girando como idiota nos salões dos clubes enfeitados com alegorias horrorosas ao som estridente e esborrachado de trompetes e trombones caricatos.
Isso quando eu era jovem…
Hoje, até abstenho-me de comentar!
E também aqui só falo por mim : Mas quem curte o carnaval, que curta sim ! Quem tem oportunidade de sair e celebrar o que bem quiser…
Cada um faz o que acha melhor, e o mundo adora festejar, não é defeito específico de algum povo querer um pouco de alegria… E todos os povos são iguais : o ser humano é bagunceiro, adora festa.

A diferença é quando acaba.

Quanto a mim…só posso dizer que sempre resta uma esperança : a quarta-feira de cinzas.

Ano Novo

Perdas e Ganhos : Reflexões de Ano Novo…
A cada ano que passa, é mais um ano que se foi … ou é mais um ano que foi agregado ao nosso acervo ? Essa é uma boa pergunta… Porque, afinal, viver sempre se constitui em ganhos e perdas, e disso não há como escapar.
Perdas muitas vezes são mais visíveis, menos sutís, a partir do próprio conceito da pureza original do bebê, referência para todas as correntes espirituais desde que o mundo é mundo.
Entre as primeiras e mais inocentes perdas, há os dentes de leite, que, se a memória não me falha ( olha a perda aí, gente…) eram jogados no telhado das casas, acompanhados de um pedido…me lembro dessa cena lá em Araraquara, na casa do vovó Iracema…Dessa mesma infância, me lembro da São Silvestre, transmitida pelo rádio gigantesco do vovô Luigi Martuscelli, um radião de madeira que “pegava” canais de ondas-curtas do mundo inteiro, com uma antena exagerada de “molas” penduradas no forro do teto da sala… Mas a São Silvestre era sempre uma decepção, nunca adiantou torcer – aquele silencio no meio da barulheira- tinha sempre um tal de Emil Zatopek, um chato de galocha pra ganhar…
Nunca entendí essa história de Ano Novo. Porque as pessoas precisam festejar uma coisa tão corriqueira, que aliás ocorre em minutos e horas desiguais num mundão redondo que gira em períodos desiguais em torno de si próprio, e em anos ainda mais desiguais em volta de uma estrela de quinta categoria esquecida num arrabalde secundaríssimo de uma galáxia de terceira categoria lá nos cafundós de um espaço sem fim… serão mesmo os humanos seres racionais ?
Mesmo assim, prefiro incorporar o ano que se vai como mais um na minha coleção particular, que ninguém jamais vai roubar de mim. Esse ano que se vai, ninguém tasca : tá bem vivido-da-silva, e por isso é que é motivo de alegria pra mim… Não é o ano que entra, porque ele ainda não mostrou serviço. O futuro é incerto, mas claro que é bem-vindo, não sou imprudente a ponto de negligenciá-lo e nem de deixar de reverenciá-lo com todas as pompas de praxe, como manda o figurino…
Feliz Ano Novo, tudo bem, mas “adeus” Ano Velho é lamentável pra mim !
O Ano Velho é que está ganho !
…É que tenho pena do aninho que se vai, por mais decepcionante que tenha sido, não merece tamanha desconsideração, tadinho. Me bate uma tristezazinha boba, porque afinal nos apegamos a ele… Nem deu tempo de convivermos direito, e ele já acabou assim sem mais nem menos. Tínhamos tantos planos juntos – e faz tão pouco tempo, ele ainda era novinho e tão festejado, cheio de expectativas… Hoje é só mais um ? Negativo.
Pelos anos que se foram, sinto muito quem discorda, mas tenho um carinho especial, todos são fundamentais.
Essa é a minha vida. A única coisa que, de fato, não posso jamais negligenciar.
 
O futuro, já responde o ditado popular a Quem pertence!
O que podemos mais desejar uns aos outros?
Apenas que as pessoas possam conjugar os mesmos verbos : dormir, acordar, caminhar, correr, enxergar, saborear, sentir, respirar, ouvir, falar, provar, tocar, amar, conversar, entender, compreender, comer, beber, digerir, defecar, urinar, beijar, transar, gozar, engravidar, dar à luz, aprender, ensinar, escrever, desenhar, costurar, fabricar, trabalhar, estudar, sonhar, sobreviver enfim…
Qualquer verbo, por mais “secundário” que fosse, mas que nos fosse subtraído, e que fosse importante para nós – faria toda diferença !
Que não faltem Verbos – que nenhum deles nos faça falta em 2018.
O resto, a gente tira de letra !

O dia em que tomei café da manhã com Kirk Douglas ….

 

Um dia, cheguei num sábado a Londres, e desavisadamente esquecí que era fim de semana, e não tinha como pegar a chave do apartamento do amigo pianista Marcelo Bratke , em Knightsbridge, onde eu passaria vários meses, muito marcantes na minha vida, por sinal… Com as malas na mão, sem hotel pra ficar, me ví “obrigado” a atravessar a rua e me hospedar no antigo ( e legendário) Hyde Park Hotel…( uma nota preta… mas… pra ficar 2 dias… nada que o cartão de crédito não resolvesse …paciência…)
Exigí então um quarto que ficasse na torrezinha…com vista para o verde do parque.
Ao chegar no apartamento, uma cestinha de produtos da exclusivíssima marca “Penhaligon´s” na cama com dossel,( e eu ficaria viciado dali pra frente ) … já me anunciava o final de semana mágico que me surpreenderia….
Ao descer de elevador, pude conhecer este simpaticíssimo senhor …
Um dos maiores atores de todos os tempos no mundo…
Fui logo puxando papo…
Encantado com minha conversa fiada, com o fato de eu ser um compositor de música brasileira, Mr Kirk virou pra mim e disse : OK , let´s take the breakfast together !!!…
Descemos então para uma pérgola envidraçada , com vista para o Carriage Drive ( Hyde Park ) , e, ao som de violinos tocando Vivaldi, pude contar a ele um pouco do que é fazer música no Brasil.
Tomamos champanhe com morangos … que chique.
Um encanto , inesquecível !

Nesta vida tem cada surpresa… tanto da vida real como do Cinema !!!

https://cinema.uol.com.br/…/ator-lendario-e-pai-de-michael-…

O dia em que Glauber cagou para mim…

Um dia, lá no (nem tão ) longínquo ano de 1978, eu estava numa mesa do ( até hoje lendário ) Fiorentina do Leme, já trabalhando o disco A Cara e a Coragem pela Warner de Midani, e ví de relance que numa mesa próxima estava o sempre falante e carismático Glauber Rocha…
Empolgado com o magistral diretor, fui lá cumprimentá-lo como mero fã tietão…Dizendo que eu adorava ele, etc.. que bobo ! Ele perguntou (assim genericamente, falando alto para todos ouvirem, como era bem o seu estilo ) quem eu era, para, assim sem mais nem menos, dirigir a palavra a ele…”Quem é esse bosta que me dirige a palavra ? ”
Orgulhoso com minha canção “Amanhã” , que naquela época fazia a trilha da genial novela “Dancin´Days”, respondí que eu era o compositor Guilherme Arantes…
Pessoas que estavam com ele falaram da novela, etc.. constrangidas com a indelicadeza do “gênio” …, mas não adiantou … Glauber cravou impiedoso : “Caguei pra você, pra mim você não é ninguém…”
Ora, quem havia me perguntado “quem eu era” foi êle, que , nobiliárquico, exigiu “credenciais” para que lhe dirigissem a palavra…
Que lindo !
Um episódio tão marcante…inesquecivelmente característico.
 
Com o tempo, aprendí que esse comportamento sempre foi recorrente entre os endeusados, quando interiorizam, assimilam à sua “persona” o próprio mito…
Sei que é ridículo, mas ví muito disso, não foi uma, nem duas, foram várias vezes que figuras similares agiram assim, em episódios lamentáveis e gratuitos, e nem só comigo, isso acontece toda hora, com todo mundo, uma atitude que hoje eu sei classificar como “auto-flagelo em público”, é uma auto-desconstrução proposital, pra se tornar figurinha polêmica : faz parte daquele show…
Precisavam disso ? Acho que sim, pois são personagens, e acreditam numa dissociação entre o mito e a pessoa. No fundo, a escrotidão acaba funcionando como adjutória à consolidação do mito…
às vezes a obra nem é tão genial assim, tão seminal, tão acachapante… mas a polêmica o mundo adora !
No fundo, isso também ajuda a figura a se auto-destruir no ressentimento.
E há várias modalidades de auto-destruição, com as quais os mitos auto-construídos podem se deleitar e afundar em seus potes até aqui de mágoa !
O mundo, que é perverso, só saboreia.
 
Hoje, quase 40 anos depois, ainda acho ele genial, e aquela atitude ainda acho naturalíssima. Viva o cineasta !
Não era isso que ele queria ?
 
http://www1.folha.uol.com.br/ilustrada/2017/12/1941254-terra-em-transe-faz-50-anos-e-levanta-reflexoes-sobre-a-atualidade-do-roteiro.shtml

Gilbert

No esplendor dos 20 anos, um gênio em ação.
Esse garoto do vídeo é o maior inspirador de toda a minha carreira musical.
Vejam que incrível ele é.
O talento, a voz, as harmonias, as letras inspiradíssimas, o “style” de Dublin… 
Ah !… A Irlanda … além de tudo é Celta, como a minha adorada Galícia …
A Irlanda, com seus poetas, seus músicos, foi lá da Irlanda que veio tanta coisa em mim…nem sei porque…deve ser algo ancestral.
Ao ouvir esta música,até hoje, não tem pra ninguém.

GILBERT O´SULLIVAN , the best !

Tudo o que eu mais queria ser !!!
Quem quiser realmente entender quem sou eu, adentrar no
” Meu Mundo” e decifrar de onde eu tirei muitas inspirações, precisa conhecer esse grande artista, muito além dos maiores “hits” que ele compôs e cantou com tanta , mas tanta personalidade.
E, como eu, “still alive-and-kicking”…

Eis a minha maior influência na vida.

 

Manuscritos

Um dia, numa arrumação do estúdio, encontrei uma caixa com as fitas k7 onde eu alinhavava os “demos” de inúmeras fases, e uma sacola com vários cadernos antigos, muitos com espiral enferrujado, pastas com papéis soltos amarelados pelo tempo, versos datilografados com garranchos de correções… Nos cadernos, sucessivas versões de letras ainda em fase de criação…
Por coincidência (ou não…) por esses mesmos dias ganhei de uma fã um livro contendo as letras dos Beatles, em fac-símiles dos manuscritos originais, e contando como é que foram criadas as muitas obras-primas dos fab-four… Um puro deleite de se ler!
Ah! A memória é tudo …especialmente quando se tem lendas pra contar…Então essa minha seção-museu também poderia ser um tesouro …
Resolví, então, agregar esse meu material nas comemorações da minha carreira de 40 anos. Pois aqui está.
Nesse conjunto, o motivo das lacunas de alguns períodos é que se perderam, por exemplo, os cadernos do “A Cara e A Coragem”, e vários outros, com muitas mudanças de casa e de modo de vida… Outro motivo é que, uma vez gravadas em disco, as letras e fitas-demo não tinham porque serem guardadas. E eu não sabia que a carreira iria durar o que durou, e nem exatamente o que eu iria significar, com o tempo…O fato é que esses dois pacotes, o de fitas-demo em cassettes e o de cadernos e papeladas soltas de letras, ficaram guardados por puro acaso. Houve vários períodos em que eu, acometido por raivas e revoltas, joguei muita coisa fora, são os meus “incêndios de Alexandrias”…não sei como este material sobreviveu…Aliás, pensando bem, não sei como a gente sobrevive, porque uma coisa inerente à memória, é ela ser apagada, mais dia, menos dia…
Hoje, eu não tenho como “fakear” e fazer de conta que um papel, ou um “demo”, é de uma época em questão… Seria feio da minha parte “inventar rascunhos originais” – a beleza desse material é a “minha descoberta” deles, 40 anos depois… Juro que eu relutei por muito tempo, em abrir esses baús, porque a gente fica mais e mais envolvido com o presente e com o futuro, e a revisitação de “outras vidas” muitas vezes é dolorosa, há um transporte no tempo e nem tudo são flores lá atrás – apesar do passado estar confortavelmente ( e situado seletivamente ) numa zona de prazer e “segurança”. Mas ao olhar minha letra e ouvir minha voz, algo me causa um estranhamento, não sei o que é.
Parece que foi outra pessoa que passou por ali…
O fato é que muitas estátuas de nosso passado estão mesmo sem braço, sem cabeça, mutiladas pela ignorância do tempo.
Também houve um período, com a entrada dos PCs e Macs nas nossas vidas , que a gente passou a fazer tudo no computador…e esse efeito é devastador, porque só permanecem os produtos finais, em sucessivos “salvamentos” que soterram o caminho : resta apenas o “produto”.
Mas eu redescobrí, depois de 2007, o prazer de fazer cadernos, a princípio esparsos, e já em 2013 voltam a ser sistemáticos, com a feitura do Condição Humana.
Hoje eu sei profundamente que o bom mesmo não é a paisagem da chegada, mas a experiência do caminho.