Só quero tempo

Eu já vinha percorrendo a saga de contar todas as minhas peripécias na música, fazendo o documentário em vídeo e turbinando a caixa de 40 anos, com todos os meus discos, ambos produtos que estão pra sair ainda neste 2016…com a data redonda da minha estreia como cantor/compositor solo, em 1976…

Contar as histórias é quase tão prazeroso – e doloroso também – quanto ter vivido tudo aquilo, ter criado tudo aquilo, ter levado adiante um sonho, e querer amarrar esse sonho em relatos consistentes e ricos em detalhes, num mundo tão antrópico ( no qual é sempre muito mais fácil dissipar a energia nobre da luz e da eletricidade, deixá-las degradarem no calor do esquecimento )…

Ganhei um livro excelente, “As letras dos Beatles”, (A história por trás das canções) de Hunter Davies, editora Planeta… Muito bom, principalmente pra mostrar a importancia do tempo na construção do conteúdo.

No caso dos Beatles, a química entre os componentes foi magistral, e é de se admirar o quanto havia um caldo de cultura naquela época, para a criação do novo. É fascinante entrar nos meandros da usina de arte de John, Paul, George, três companheiros de adolescência que mais tarde, com Ringo, com Epstein ( o quinto Beatle) levariam os delírios criativos dos anos 60 ao paraiso da perfeição. Mas também é fascinante observar a rotina extenuante dessa carreira, e os danos causados por ela.

Fica claríssima a contraposição do “show business” à produção criativa. Há um momento em que Paul declara que um homem com mais de 60 anos deve ficar no estúdio criando, e que jamais ele ficaria na estrada fazendo shows e se repetindo…É engraçado…logo ele que, dos quatro, se tornou o mais disciplinado à repetição e à consagração na cultura de “arena”…Se tornou exatamente o que apostava que jamais aconteceria.

John se apresenta, a princípio, como o chefe, o “guru” da banda, o ímã atrativo, com o “drive” exato que impulsionaria os Beatles, mas depois, com a vinda de Paul, se revelou a face metódica e determinada, e nessa competição, desde cedo se estabeleceu uma dinâmica mortal de criatividade na fabricação de canções. Ambos se superavam na genialidade, e essa genialidade era baseada no prazer e no divertimento da atividade criativa. Eis o segredo… e ainda mais, com a participação de um terceiro (George) com ainda mais habilidade instrumental, com seus mistérios e profundidades, era um trio incomum de criadores ( jovens, muito jovens). Ringo caiu como uma luva, com sua humildade e generosidade, passando a estabelecer as levadas fundamentais pra que aquela “guig” se tornasse uma coqueluche que o mundo tanto desejava…

Mas é bom observar a batalha – e a disciplina da genialidade.

Melhor ainda analisar o processo de degradação que essa disciplina, mantida à base das expectativas de um mundo explosivo , com o tempo foi minando a centelha do prazer .

O sonho, de tão veloz e alucinado, se transformando em traquitana desagradável dentro das mentes e corações…

Hoje, num tempo em que o “show business” venceu, é quase incompreensível esse laboratório.

E é nele que eu estou preparado, pronto, pra mergulhar.

Que privilégio.

O colapso das estratégias

Comemorando os 400 anos de Shakespeare…

A Comédia dos Erros
Muito além da discussão polarizada, empobrecida, e a estigmatização até de quem procurar relativizá-la, muito além de se estar ou não “em cima do muro…etc..”, devo dizer que, com os impostos que eu pago, que você paga, que todos nós carregamos como uma “canga” obscena sem receber nadica-da-silva de volta , qualquer um de nós tem o direito de se postar de um lado ou de outro, e até mesmo não se obrigar a aderir a qualquer discurso imediatista – a situação no País já é de um ridículo total, virou um fla-flu, um corinthians-palmeiras, um gre-nal, um cruzeiro-atletico, um ba-vi absolutamente infantil e histriônico..

Não sei não se tudo isto que estamos vivendo não passa de brincadeira de um povo brincalhão ! Palhaçada ? nem tanto. tem gente passando necessidades, não é comédia, é drama.

Prefiro falar das estratégias, do fracasso de todas elas, e questiono mesmo se houve alguma estratégia fora do precário amadorismo e da improvisação. A meu ver, o Brasil de hoje é “peba” : os dois lados da moeda apresentam estratégias muito falhas pra que se leve a sério.

Sinistra : Da parte da “esquerda”, tudo bem, está claro que houve uma arquitetura pra contrabalançar o poder secular das oligarquias , foi traçada uma operação historicamente de curto prazo, e faz sentido que isso fluiria naturalmente no aparelhamento dos setores de grandes obras, dependentes de decisão política – tradicionalmente nas mãos da velha elite… e onde a movimentação de grana é estratosférica. Mas acho que a maior falha estratégica foi, ao final do segundo mandato de Lula, não ter tido a sabedoria e a temperança do “respiro” tático : ter estudado o melhor momento para a alternância de poder. Deixar levar, saber jogar o jogo, mesmo tendo as cartas na mão. A vida é feita de respiração : inspira, expira . A vida real é como as marés : sobe, desce, enche, esvazia … No ponto em que estava, com a aprovação popular e o reconhecimento generalizado, e tendo “superado” cambalachísticamente o baque do mensalão, isso teria gerado uma massa crítica tão favorável quanto duradoura. Criadores do terremoto, deveriam ter previsto as marolas enganosas da crise que se aproximava, com a cobrança das faturas de toda a gastança e do estímulo ao consumo popular … Um governo “socialista” mandando o povo consumir, não parar de comprar, é o que se viu na virada para Dilma…Que estratégia é essa ? Isso era pura improvisação ! Todos lembram desse pedido patético de uma líder legítima da esquerda, solicitando que o povo se endividasse, torrasse impiedosamente as suas poupanças na 25 de março, porque a nova matriz econômica havia descoberto o caminho das pedras…O consumo. O povão adorou : muito churrasco, muita cerveja, TVs de led , linha branca completa em todos os lares, carro em 60 meses. Isso demonstrou de vez que o povo não é socialista. O povo quer consumir, “consumo , logo existo”. Socialismo de verdade, já postulava Gramsci, depende da educação . Educação que traria temperança, espírito crítico e desconfiômetro afiado desse povão contra as armadilhas do capitalismo selvagem, justamente contra esse consumismo incentivado… A presidente não pode reclamar, porque o povo respondeu ao chamado. Mas e se não desse certo essa jogada ? Pois não deu… mas também porque se contava com outros artifícios…da providência…

A armadilha do petróleo :

Aqui, neste ponto nevrálgico, entra a “descoberta do pré-sal” como fator primordial para o engodo se instalar, como um parasita assassino – vendeu-se a ideia ( inclusive internamente nas áreas do Poder os neo-burocratas se convenceram da descoberta de um tesouro tão fenomenal, que transformaria em trocados quaisquer desmandos numa operação de aparelhamento : foi por isso que a porteira se abriu…escancarou de uma vez ! ) só que o pré-sal foi uma aposta precipitada ( talvez desesperada, de quem precisa de algo providencial, prodigioso, algo maior em que acreditar…) e aqui devemos conjecturar porque pessoas que se deixam engabelar por teorias sociais que nunca deram exatamente certo… esses amados crentes também são tão permeáveis a mitos como esse, o totem do pré-sal….! O Brasil poderia se tornar uma potência-corrupta-perfeita, como são os milionários do ouro-de-tolo negro…Ah, o petróleo ! Quanta trapalhada com esse nome no mundo !

Certamente os estrategistas lá em Harvard, no MIT, no Lago de Genebra, sabiam disso. Parte de um pacote que incluiria a Copa, os Jogos Olímpicos, o que aconteceu com a Petrobrás obedece à engenharia de uma demolição… Prestem atenção se não é isso mesmo… Detonações em sequência que se assemelham à teoria da conspiração do 11 de Setembro….Como dizia o Imperador em Star Wars, “tudo corre de acordo com o plano…eh…eh…eh…. ) …aliás, é bom lembrar que nas redondezas do Lago de Genebra estão a FIFA, a F1, todas as sedes-de-maracutaia, os bancos, até mesmo onde estão as contas escondidas dos patetões “envolvidos”…

Mas vamos lá, há outras sutilezas…Se há um plano ( “Who´s in charge?” perguntaria Hobsbawn… ), esse plano contaria com preciosas colaborações – os operadores de esquema…e os vaidosos políticos.

Essa máquina precisaria ser desativada, entrar em hibernação, para sobreviver em outro estágio. Mas não tinha como parar…

Qualquer leitor medianamente atento aos historiadores e teóricos das mais diversas correntes ideológicas jamais descuidaria do fato de que a política consistente se faz ao longo de várias décadas, e que qualquer desenho de poder precisa considerar o recuo estratégico como elemento primordial para um futuro de poder… Direto e reto não existe, só para o abismo . Não adianta nada um poder que hoje se apresenta consolidado , mas que não tem futuro. Claro que sabiam que a sangria das contas públicas tinha data marcada pra estourar. Porque não deixar estourar tudo no colo dos adversários ? Não é uma boa pergunta ? A princípio, teria sido tão mais fácil implementarem este plano maligno…Uma onda neoliberal vinha se levantando… era só “sair da mesa” e confiar no taco , deixar um poder que voltaria sozinho para as mãos do PT , e melhor ainda – deixando o inimigo levar o racumin da crise pra dentro das tocas da rataiada… mas a vida real não é como no poquer…Resta saber se o Governo podia sair da mesa… ou já estaria sob o abraço estrangulador das Empreiteiras, era uma presa indefesa no abraço de tamanduá do “big business”, e a roda não poderia parar de girar. O esquema estava montado, era pra não ser descoberto, mas uma série de acasos, de amadorismos, de imprudências pôs tudo a perder. A Lava-Jato. Um fato recorrente nos esquemas de drenagem financeira da esfera pública é que mais e mais pessoas, aproveitadores, vão se agregando , fora de controle : sempre é um esquema com alto potencial suicida. Deu no que deu. Se hoje pudessem voltar na História, todos os operadores do esquema e o lulopetismo teriam preferido dar um tempo na sanha , já que um dia a casa ia cair… mas com a impunidade tradicional, quem poderia imaginar que desta vez seria diferente ? Caso tivesse tido um mínimo de sagacidade, o petismo e seus parceiros ( vira-casacas que hoje estão em grande frenesi, na tomada do Poder ) teriam “passado a bola”, e o abraço de tamanduá teria se voltado para a oposição na hora exata…o que daria ao petismo uma condição de similaridade total nas tramóias e perdão permanente para todos os desmandos…

Hoje, não adianta reclamar e ficar voltando na História pra uma outra década remota, pra argumentar que o esquema sempre existiu… Tivessem saído da mesa na hora certa, 2018 estaria marcado pra ser um ano de Royal Straight Flush… Uma Canastra Real para Lula… No entanto, poderá ter sido exatamente das hostes adversárias que viria a solução !

______________________________________________________

2. “A Tempestade” ( mais Shakespeare…)

Destra : Em país de “tempestade perfeita”, todos estão sujeitos a errar (ainda) mais do que de costume. Na minha opinião discutibilíssima, de quem olha de fora, há uma estratégia desastrada em dobro, desta vez partindo da oposição, e que pode ser exatamente este impeachment…

Muito mais prudente seria aguardar com a fé inabalável focada no desastre final e total do atual governo. Afinal, esse desastre não seria tão líquido e certo assim ? …E o temor de uma reversão do quadro não poderia ser um dos componentes desse “açodamento”, deste “afogadilho” para desfenestrar a Presidente…???

Bem, eu não acredito um níquel que algo desse certo do jeito que vem, e nem do jeito que vai… Todos sabem que crescer, mesmo, só lá pra perto de 2020 – isso, se nenhuma cagada for cometida no caminho…Mas tá difícil de não ser cometida, heim ?

Dois anos não são nada, sequer pra frear esse descomunal transatlântico, desgovernado rumo ao abismo. A probabilidade de algum acerto efetivo, neste tempo que resta até as eleições de 2018. é baixíssima até para os mais otimistas. Aliás, não serão nem dois anos de prazo para tão urgentes milagres , pra um país que já não apresenta fé em mais nada…

Se com fé já é dificil, sem fé, então…Em 2018, uma vez havendo-se entrado na reta final ( e decisiva ) de novas eleições presidenciais, as tão ansiadas “novas eleições” depois de tanto quiprocó… qualquer um vira o tal “lame duck”…

Pior : feroz e barulhenta oposição. Com o impeachment, o PT – que ainda é grande e tem uma “seita” resiliente – deixa de ser vidraça, voltando a ser estilingue – seu papel histórico, preferencial na sua ascensão meteórica. Nada mais conveniente para quem alimenta ardentemente o retorno triunfal do “Carisma” de Lula.

Os “movimentos sociais” no Brasil, curiosamente, só são referidos à esquerda… Os movimentos a favor deste impeachment, ou seja, contra um governo “popular, sindical, vermelho”…, esses protestos não são considerados “sociais”, mesmo quando dão vários milhões nas ruas… então são movimentos “o que ? ” … movimentos de robôs ? O mais curioso é que as mídias replicam esse pre-conceito à exaustão. É o hábito do discurso hegemônico em ação sobre o senso comum.

Mas vamos lá… Dentro de alguns meses, os “movimentos populares de inclusão” estarão em posição bem mais confortável do que estão hoje… Hoje, seu maior incômodo é haver um poder contraditório, que é mas não é, que fala uma coisa e faz outra, que vai-e-vem, perdido entre o politicamente correto e o politicamente factível, uma gosma amorfa e pegajosa , indefensável, mas também inabandonável…. Em breve, dando graças-a-Deus, terão como judas um governo evidentemente “almofadinha”, levando as simbologias polarizadas às últimas consequências…

A meu ver, este controvertido impeachment, fruto da impaciência da classe média-liberal, queiram ou não queiram, prepara o retorno de Lula em condições ideais.

Principalmente por não construir um “carisma” com força e explosão que possa se contrapor – eis a grande lacuna. Em política, especialmente em paises com o nosso perfil, não basta adequação : é fundamental a explosão no discurso – e isso por hora não existe. Décadas se passaram, e não surgiu ninguém. Que as forças populares escolham as linguagens e candidatos com esse perfil populista, é compreensível e natural. Que os desassistidos, os relegados, os desempregados, os excluídos, os oprimidos sem casa, sem teto, sem terras, sem acesso, se alinhem à esquerda – no mundo inteiro, ontem, hoje e sempre – isto é absolutamente óbvio. Quem elegeu Lula, quem fez o diferencial desse ciclo “socialista” foi a classe-média impregnada pelo processo cultural do gramscismo. Hoje ela tenta pendular para o outro polo, e a intensidade dessa pendulação pode ser desastrosa, porque cria uma energia, que, se estiver no momento errado, gera uma contrária que pode beneficiar quem está no bagaço , como estão as esquerdas. Então o Destino poderá se mostrar implacável com quem não soube esperar. É a mesma história, dando voltas, e causando estragos no outro lado da moeda…

Olímpia !

Há que se considerar o risco de um país tão irracionalmente ( e ridiculamente ) polarizado estar mexendo nesse vespeiro de derrubar uma esquerda exatamente a poucos meses de seus Jogos Olímpicos, com toda a vulnerabilidade para a segurança de um evento mundial – pura propaganda, para o bem e para o mal…

O mundo está perigoso, e o Brasil se tornou um agar-agar, um caldo de cultura para o Espetáculo da Violência.

Oremos.

Brasilia

Pela dimensão monumental do tapume divisório (o muro do impeachment ),

depreendia-se que as autoridades se preparavam para a possibilidade de um comparecimento de pelo menos 50 vezes mais gente na Esplanada.

muro Muro-Brasilia Snap1 Snap2 esplanada-muro-drone 4193169Pra nós, que somos da “geração BossaNova”, que assistimos toda essa história, com JK, Janio, Jango, 64, AI5, Diretas, Tancredo, Collor, FHC, Lula, etc…nada é novidade : Brasília se reafirma como uma capital-fantasia, um projeto magnífico de integração nacional, ( que até deu certo ) um sonho delirante tornado realidade a um custo estratosférico , ( o que inclui, até hoje, o seu funcionamento perdulariííssimo ) mas eternamente um mausoléu deplorável de desintegração de participações populares : manifestações sempre pífias, deixando muito a desejar pra um povo que precisa “ver a Roda da História” se mover, sair finalmente de sua habitual catatonia….
Fosse uma capital convencional, como Paris, Madrid, Londres, Tóquio, ou mesmo Buenos Aires ou Santiago, não teríamos sempre a mesma participação popular anódina, irrelevante, insípida, porque não dizer asséptica : manifestações populares em locais assim parecem coisa de laboratório . E são.
Foi essa a minha surpresa, uma “descoberta” quando entrei na FAU-USP , um sonho maravilhoso que eu acalentava desde o tempo dos Festivais, uma busca remanescente da velha Rua Maranhão, então transportado para um projeto incrível de Villanova Artigas, mas que havia sido despejado de propósito em uma Universidade urbanisticamente totalitária : grandes gramados de prudente distensão social/ideológica entre as escolas Politécnica, a Geografia, a Economia, as Comunicações, etc..
Eu começava a descobrir que nada disso jamais foi sem querer, ou ao acaso… Tudo armado.
Projetos político-paisagísticos de distensão em intermináveis gramados de platitudes neutralizadoras.
O espaço físico denuncia, assim, sua finalidade : ser palco de um teatro do real, mera representação imanente às funções pomposas escritas nas placas de suntuosos palácios…
O que se vê nessas cerimônias, nessas solenidades, os discursos, as pantomimas e deblaterações inflamadas, é tudo teatro, tudo de mentira, farsantes “jogando para a patuléia” , emoções de araque.

Por um instante, me veio um pressentimento estranho ao contemplar aquele muro interminável em frente aos 3 poderes…
Mas logo as minhas inquietações se aplacaram : o projeto de Brasília é infalível.
Tudo ali sempre serão gatos-pingados.
Os cidadãos comuns,como eu, como você, ali, não somos nada !
E sempre haverá uma segunda-feira em que o cotidiano recomeça, sem nenhuma novidade.

Medieval Times

Quando minha irmã estudava na St Paul´s School
eu tinha doze anos, e já achava curiosa uma rivalidade interna dos alunos, nos jogos, nas gincanas…
Ou a criança era “York” ou era “Lancaster”. Claro, uma estrutura de torneios medievais…
Os Yorks eram “vermelhos” e os Lancasters eram azuis…
Isso remonta às históricas disputas pelo Trono da Inglaterra, e faz parte
de um “lúdico” que nunca vai deixar de existir.

No Brasil de hoje, ou você é “York” ou você é “Lancaster”, e o propósito dessa divisão é basicamente LUDICO : estamos “nos distraindo” num jogo.
Medieval Times.
O que me preocupa muito mais é a perda de tempo : os anos dispendidos nessa “refrega” , nessa “procela”, serão anos perdidos para quem perdeu o fio da meada só protestando na rua e se esquecendo da “individuação”, se afastando do questionamento interior, que é uma refrega muito mais difícil de se resolver…
Há uma geração aí que poderá ficar de lado pela História.
A minha geração, dos anos 70 e começo dos 80, tinha herdado uma impossibilidade técnica de se manifestar: era a ditadura.
Com essa impossibilidade, nossa geração partiu para um tipo mais insidioso de “manifestação” : a revolução de costumes. Muito do que foi criado naqueles tempos de Nuvem Cigana, Clube da Esquina, Circo Voador, Asdrúbal, Lira Paulistana, num tempo de doidões delirantes, gerando uma nova realidade a partir da estética e do lúdico nas artes, perdurou de forma incrível, e está aí até hoje.
Não foi uma geração em vão.
A bem da verdade, as gerações anteriores também foram muito férteis e perduraram bravamente.
A Geração Samba-Canção , da “fossa” do pós-guerra, uma geração “gauche très chic” , logo sucedida pela Geração Bossa-Nova , com cinema novo, concretistas, os grandes arquitetos, o Brasil Designer do futuro…uma geração de ouro. Desta geração surgiria a geração Jovem Guarda e seu “corolário cult”, a Tropicália : eu costumo incluir o Tropicalismo na mesma prateleira da Jovem Guarda : é um apêndice politizado, culto, instigador da nova estética.
Com a repressão e o desabamento do AI5,em 68, que coincide com Woodstock, o Sargent Peppers e a onda lisérgica, surgiria no Brasil a geração Pasquim, uma geração mais “pesada”, “barbuda”, amarga (como deveria ser), reacionária contra o desbunde, mas progressista na “praxis” ,alinhada com a nova ordem gramsciana ( publicação dos Cadernos do Cárcere ) , uma geração revoltada, do contra, 100% etílica, e dentro dessas características, aparentemente careta. Esse período coincidiu, pra mim, com o tempo de entrar na Fau, Arquitetura da USP , no ano de 72. Congresso da Une em Ibiúna, prisões… Nas faculdades, era uma profusão de “grupos de estudos” ( que eu classifico como uma “moda” mesmo, uma coqueluche como as calças boca-de-sino… Tinha grupos Trotskistas, Leninistas, Stalinistas, e eu, que não levava nada daquilo a sério, era mais um “alienado”… Era classificado como “filhinho-de-papai” , ( hoje seria coxinha ) mas eu estava em OUTRA. Minha Revolução era PESSOAL , e só eu saberia disso…. Apesar da caretagem geral, aquela foi uma geração valorosíssima, com produtos de alta qualidade e um apelo mais do que legítimo. As marcas dessa geração estão presentes até hoje, nos cartazes, nas camisetas, nos palanques, e foram convenientemente incorporadas nas linguagens anti-liberalismo.

A meu ver, muitos dos herdeiros dessa linguagem, dessa “linhagem”, e que são da nova geração ( a geração dos nossos filhos, a geração Baixo-Augusta) vão pra rua principalmente movidos por uma CAUSA ANARQUISTA.
São CONTRA A ESTRUTURA EMPRESARIAL, são CONTRA o Capitalismo, CONTRA a “nova ordem neoliberal”, enfim, são CONTRA O “‘SISTEMA”.

Mas vejam, aqui está o paradoxo : Todas as gerações aqui descritas foram contra o “Sistema”.
A Geração 50 “gauche-chic” Samba-canção, a Geração Bossa Nova, a Jovem-Guarda-Tropicália, a Geração Pasquim, e a minha geração, a do Desbunde-80.

Todas contra o ‘SISTEMA”. E daí ?

E daí que, hoje, o discurso é um discurso aprisionado pelo utilitarismo, aliás, como tudo.
Será que os jovens estão ( como as demais gerações aqui descritas sempre estiveram… ) “voltando” pro mundo interior da individuação, será que estão realmente conseguindo gerar uma produção duradoura – aquela que NÃO se produz ali no meio das massas, na confusão confortavelmente comodista e enganadoramente ativista…das ruas, na empulhação do “coletivo” ?
Claro que não dá pra generalizar, e tem, sim, muitos jovens hoje gerando o futuro no recôndito de suas vidas, de suas lutas pessoais. Queremos ver isso. A História verá isso. Só que não “aparece”.
O revolucionário é silencioso e cava “na calada das Grandes Noites”…
Esses jovens revoltados de hoje podem nem ter consciência disso…
Podem até não acreditar um níquel no palavrório de palanque, podem até se render às evidências de êrros e descaminhos de uma certa casta que se apropriou da linguagem e montou uma estrutura similar à da uma facção: o SINDICALISMO .
O Sindicalismo não necessariamente traduz o discurso dessa juventude (já quase) perdida.
Mas é a opção que lhes é oferecida…
Até porque, do outro lado, o que se levanta pela polarização, pelos aproveitadores de ocasião, é exatamente a tonalidade neoliberal…
Quiçá até mesmo as “teias das vivandeiras” estejam se armando…
Mas tudo é muito confuso. Parece claro – e isso é muito pior…
Não tem “tu”, vai “tu mesmo”.
De ambos os lados.

Quem sabe surja nesse ínterim algo realmente revolucionário…
Uma coisa eu aposto : não será nem da Política , e nem das convulsões enganadoras desse Jogo Lúdico… Nunca foi.
Medieval Times Forever.

Obs : não me venham com impropérios, pois aqui sou apenas um observador….
Igualzinho ao Guilherme aos 12 anos…

E você, é “Lancaster” ou é “York” ?

A Semiotica nas encruzilhadas politicas e sociais

Manhã de domingo, tempo de encruzilhada ( ou não ? )

Vejo à distancia a Paulista toda lambida de cartazes com a foto antiga de um lider sindical barbudo que não existe mais : o tempo passa para todos, como passou pra mim, e as pessoas vira-e-mexe me vêm com a frase : Eu lembro de você com aquele cabelão, etc… É a semiótica em ação. Paro pra refletir na imagem muito reproduzida daquela moça de óculos, presa num interrogatório político, fichada no DOPS, e que se tornou residente no Alvorada. Quando convém, abrem a gaveta e lá vem aquela foto nos cartazes, nas camisetas. Semiótica em ação. Lembro ainda dos caras-pintadas depondo um presidente: a força dos signos é maior do que qualquer discurso, e os teóricos estrategistas sabem disso. Líderes históricos são danados em truques e artimanhas com signos. Muito do fascínio das convulsões totalitárias do Século XX repousa na atração mórbida que a Humanidade apresenta em relação aos signos. Quanto mais elaborada a simbologia, mais o Mito se estabelece, e os Mitos são fabricados, são perpetuados em direta proporção com a eficiência de sua codificação semiótica.

Vejo que o “movimento” dedicado a este domingo tem uma semiótica indefinida, senão inexistente.

Não há movimento socio-político efetivo sem os devidos signos.

Talvez seja mesmo como a Revolução Francesa : de uma massa amorfa, com sua miséria em ignição, seu signo final foi a Guilhotina. Qual será o signo que ficará desta era no Brasil ? O Verde-Amarelo da bandeira iluminista e aristocrática basta ?

O velho Hino parnasiano é belo, apesar do rococó-de-salão de um “Grand Monde” que também não existe mais.

É isso mesmo ? Ou estou enganado ?

“Recessão”

Congresso Natalino !!

Retrato do País :

nunca o Recesso Parlamentar, as férias de final de ano, foram tão ardentemente desejados, tão convenientes.
O País agora ficará meses sem nenhuma solução, e como diz o ditado : “o que não tem remédio, remediado está…”
Sinuca de bico, não vai nem pra um lado, nem pra outro, fica ruim pra todo mundo,

mas se ficar todo mundo igual nesse pântano, então estará bom : o importante é ficar todo mundo igual…

Cabe então um trocadilho…
A Recessão da Economia faz pano de fundo para “o Recessão” da Democracia.
Já é Natal. Já é Reveillon. Férias.
Preocupação, agora, só depois do Carnaval.

 

Dormentes

Às vezes parecemos dormentes.

Adormecidos sobre um leito de pedras, como se o mundo nos passasse por cima com todo seu som e fúria….
Dormentes,
sob os trilhos de aço de um destino inexorável.

Mas de dormentes não temos nada…
Nada impossível, nada improvável, tudo factível e insondável,
imprevisível,
A dor em nossas mentes opera em silencio.
Em todo o som e toda fúria dos silentes.
Toda ópera dos insurgentes.

Não se enganem se às vezes parecemos dormentes.
Estamos tramando a subversão,
a insurreição mortal e infecciosa contra todas essas correntes,
contra todas as insanidades vigentes…
Estamos gestando os ovos de todas as legiões de serpentes
Que devorarão cobras engolindo cobras e engolindo cobras
eternamente…
todas condenadas, nesse fosso da morte

às vezes, sim, parecemos,dormentes…
E eles estão todos mortos, tecnicamente…
Se o que vemos é um espetáculo deprimido e degradante,
às vezes comédia, mas quase sempre o mesmo drama recorrente.
Ratos e baratas arrastando correntes, como pesadelo
representando não “um” povo,
mas sim “para” um povo assistir…
pensar que ainda estão lá, viventes, mas são na verdade cadáveres.
Um teatro do absurdo, reino da fantasia de espectros.

Arderão nas labaredas de suas próprias vaidades,
consumindo a madeira barata de suas estratégias sem fim,
seu “modus operandi”.

Ouviremos, ouviremos, aqui do populacho, o estertor lancinante…
aqui, da massa ignara que nada apita, nada tem a criticar…
aqui, da galera manobrada, desinformada, desprotegida, insignificante
aqui da arquibancada comum, do público pagante, incauto e imprudente
Aqui da Geral, de onde ao otário só cabe assistir a todo enredo indecente
Assistiremos à morte gloriosa de todos os Salvadores das Pátrias,
e de todo herói que se levante.
Porque…
mesmo dormentes…
a nossa descrença é irreversível,
e tem mais força do que todos os jargões.

Em busca do tempo perdido

Um jovem, às vezes nem tão jovem assim…já que a velocidade vai se tornando uma ilusão real…Descrente com qualquer conversa furada de ideologia ou processo social, tem como única certeza o ceticismo…Seu tempo é escasso e fragmentado para a individuação, raramente, ou mesmo jamais, caminha sozinho recolhendo pensamentos e sensações, que ajudem a elaborar uma visão particular… peculiar…  Muito pelo contrário, se vê atirado às ruas fervilhantes das cidades, que a tudo oferecem de feérico, sumariamente coletivo, no hedonismo que visa preencher o vazio interior e o questionamento, com o ruído supostamente “transgressor”, mas que é pura entropia neutralizada e sem significado. Manipulação total de uma mídia dirigida ao esmagamento.Seu tempo é escasso e fragmentado para o silêncio, a leitura, a assimilação de qualquer estudo, nada escreve, nada cria, nada tem de mais profundo ou substancial, que o ajude a promover sua virada face às dificuldades, ou mesmo que argumente algum conteúdo que propicie transformação  efetiva à sua volta, e que dê algum resultado concreto…Cético quanto a qualquer ambição realizadora, entrega-se à negação de qualquer encaixe nas frágeis estruturas oferecidas pelo mundo. Tudo é falso, tudo é enganoso, não há discurso persuasivo que o motive a lutar. Lutar para quê, para quem, por quê, se tudo é ruína e não vai dar em nada.Nos poucos lampejos de criação, motivados por um trago de empolgação qualquer, uma tragada de delírio qualquer, resolve não ir para a festa sensórea das ruas e dar tratos à bola.Liga uma tela eletrônica e tem a tentação da rede para puxar outra vez sua atenção para o coletivo brutal, a feira moderna.

Um jovem, às vezes nem tão jovem assim..

 

Ser Pai

Ser pai

Chega uma data dessas, o Dia dos Pais, em que a gente quer homenagear o pai da gente.
Mas eu quero homenagear a própria Paternidade, a minha condição de pai, os ensinamentos e o sentido para a vida que ela me proporciona. Vou então homenagear cada filho que a vida me deu, em agradecimento supremo à vida.
Sobre meu pai, o Dr Gelson, seria um capítulo à parte, já sobejamente homenageado não só em cada momento que faço musicas, mas também em várias oportunidades, em particular, e em cena aberta também,até em Shows : me lembro de ter confessado meu amor abertamente, para o público saber, e para êle ver isso perante o mundo.Houve uma vez, no Parque do Ibirapuera,num show com orquestra,que eu o chamei pra ficar do meu lado no palco, inesquecível. Outra vez, no Palace, eu o convidei para ficar nos camarotes, com colegas médicos, e ele não aguentou: no intervalo de duas músicas, no silêncio do intervalo, ele chamou : “Meu filho!….” Não aguentei, e às lágrimas, pedí para o canhão de luz apontar para ele, e expliquei que tudo que eu fui, era, sou, e serei, sempre foi por causa dêle que me ensinou,com 5 aninhos, a “tocar de ouvido” o cavaquinho, o bandolim. E deu no que deu : tudo que êle mais queria evitar, que eu fosse artista, compositor, era também seu desejo mais secreto, e que êle demorou para admitir. Papai, eu te amo, e isso eu disse centenas de vezes em particular, olhos nos olhos, sem subterfúgios nem válvulas de escape. Sei que você está ouvindo, aí do outro lado da Vida !
Mas a paternidade que eu quero homenagear, hoje, se manifesta nos meus filhos.
Marietta, quando você nasceu a minha vida deu uma cambalhota metafísica. Durante a sua gravidez, eu fiz “EXTASE”, um diálogo com o Sobrenatural, que fica aqui consignada em sua homenagem. Nunca vou me esquecer de voce bebê, em Petrópolis, de você pequenininha, sempre doce, mamava e dormia numa boa, sem dar trabalho… Um bebê maravilhoso, uma paz. Seu signo é esse : da Paz. Lembro de levar você, bebezinho, para o palco no SESC Vila Nova, e mostrar para o público, todo orgulhoso, babão. Lembro de voce de óculos,de voce arrumadinha quando eu te pegava para visitas e te levava para o Maksoud pra ficar comigo, voce adorava a piscina quente, o hamburger gigante com fritas do Maksoud… De voce mais tarde brincando com os meninos que foram nascendo, da nossa bagunça na sala, voce era a “Change Mermaid”. De voce curtindo os anos dos especiais infantís, o Lindo Balão Azul, de voce adolescente já aprendendo a tocar musica, piano, bateria. De voce se transformando numa moça linda e alto-astral, sempre com seus desenhos e criações maravilhosas, de voce fazendo parte de uma geração muito privilegiada, criativa, fazendo parte do Afetos, dos Rockers, de suas sinapses musicais com o mundo, de seus toques, sua generosidade, sempre seu amor, não só comigo, mas com a vida, com a humanidade. Lembro do incêndio na sua casa, que lambeu furiosamente com voces dormindo,e que voces não sofreram nada, escaparam por um fio ! Proteção divina ! Lembro de voce no Coaxo, sonhando junto com este pai tão batalhador quanto alucinado. De voce cantando comigo, nos shows, que grande honra !
Sem voce, Marietta, eu não seria o que sou.
Gabriel, quando voce nasceu minha vida deu outra cambalhota metafísica. Voce estava pra nascer durante o Festival do Planeta Água, e nesse astral de eu ter você se somando à Marietta, eu fiz um montão de músicas, dedico pra você “O MELHOR VAI COMEÇAR”, que tem a cara daquela época em que fomos morar no Alto da Lapa. Lembro de você nenê aprendendo a engatinhar no carpete, perseguindo a própria sombra no chão, uma sombra forte porque a gente não tinha nem lustre no teto. Voce achava graça de não conseguir alcançar a propria sombra… Eu te ninei muito, porque voce era duro na queda pra dormir, era um chorão,um chatão ranzinza, mas eu desenvolví a técnica do “cone do sono”, em que, com voce no meu colo eu “adormecia” junto, pra depois eu “voltar” e voce embarcar…Sem o seu sono, eu não conseguiria compor noite adentro… Lembro de voce em suas lutas intermináveis com os irmãos, ( e comigo também ) você era o “Change Pegasus”. Lembro de voce no programa “Balão Mágico”, com Marietta, cantando e dançando o Lindo Balão Azul e o Xixi nas Estrelas… Lembro de você quando a gente tocou o “Tema da Vitória” do Ayrton Senna, voce num teclado, eu em outro,no Clube Naval, na festa de fim de ano da Chave….Todo mundo chorando…Lembro de voce na Disney, e depois nos “programas de TV” que voce produzia quando comprei uma câmera de vídeo…Lembro da explosão de um “vulcão” de fogos, que você foi acender no São João da fazenda de amigos, graças ao bom Deus nada aconteceu…Lembro do assalto a mão armada, em São Paulo, quando o bandido crackeado colocou um 38 na sua têmpora, querendo minha carteira, meu relógio…A vida por um fio… Lembro de você sendo o primeiro a acreditar na minha mudança pra Bahia, e vindo morar comigo pra fazer sua faculdade. Lembro de você voltando de um serão/virote de faculdade, entrando na caixa de areia com o carro, passando a centímetros da pilastra do viaduto de Itapoã… Proteção divina! Lembro que eu não conseguí ir na sua formatura, e que tenho muito orgulho de você. Que sinto um alívio enorme ao saber que voce ficou “bem criado”, uma pessoa do bem, trabalhador, cheio de esperanças neste Brasil de tanta provação.
Sem você, Gabriel, eu não seria o que sou.
Pedro, quando você nasceu, foi a terceira cambalhota metafísica. Lembro que voce era um nenê bochechudo, que o Gabriel pegava no seu pé com ciúme. Lembro de voce engatinhando e tomando uma picada de marimbondo na mão ( deve ter tentado “comer” o marimbondo, coisa de nenê. ) Lembro da gente na praia, no Posto 6, eu, Marietta, Gabriel, e você de fralda. Por essa época, fiz “Cheia de Charme”, “Fã numero 1”, mas dedico pra você a musica “OCEANO”, que marca muito a nossa passagem pela paisagem do Rio, aquele marzão nas janelas, aquele espetáculo ! Lembro de você de botas ortopédicas, pois tinha pé chato , igualzinho a mim…Eu usei botas ortopédicas até os 14 anos… E que, por minha experiência, fiz você abandonar as botas pra só andar descalço, e rapidamente a natureza corrigir sozinha… Lembro também de voce quando eu montava , com peças de sofá de espuma da Tok Stok, um labirinto para nosso “pega-pega”, eu e os (já) três filhos…Eu era o mais criança de todos ! Você sempre foi o “Change Dragon”. Mais tarde, lembro de voce brincando com as crianças do predio na Patápio, a casa cheia de toda a criançada, um verdadeiro playground…Lembro de voce quando um cavalo disparou com voce montado, e que por proteção divina voce se inclinou para trás, passando em alta velocidade,rente a um galho enorme de árvore. Foi por um triz ! Outra vez a Proteção ! Lembro de voce ao final do Colegial indo se aventurar em Tarifa, na Espanha, trabalhando no “Vesúvio”, uma pizzaria…Lembro das preocupações de voce ir para a Inglaterra trabalhar como operário, em trabalho de alto risco… Lembro de pedir pra voce voltar para o Brasil e estudar Áudio pra vir me ajudar pois eu estava montando um estúdio, o embrião do Coaxo…Lembro de voce voltando e fazendo jornalismo aqui na Bahia, vindo se juntar a mim e ao Gabriel na nossa aventura. Lembro de você rapidamente assimilando o negócio da música, e de tudo que voce tem feito por mim e pelo meu sonho ! E também pelo sonho de tantas pessoas ! Lembro também que voce já é papai pela segunda vez, e um pai maravilhoso, amoroso, responsável, exemplar em todos os sentidos. E já posso lembrar de você, Davi, um menino lindo e muito esperto, muito especial. E também de Ester, uma coisinha de menina, um presente que a Vida nos deu !
Sem você, Pedro, eu não seria o que sou.
Tiago, quando você nasceu, foi a quarta cambalhota metafísica. Um ursinho. Voce sempre foi, pra mim, como um menino de pelúcia. Recém nascido, teve bronquiolite e ficou internado, naquela noite eu chorei porque nosso nenê não estava em casa. Mas tudo correu bem, logo você estaria na praia também, pegando sol, de fralda, brincando no Posto 6, junto com Marietta ( já com 6) , Gabriel ( já com 4) Pedro ( já com 2 ) . Voce era a coisa mais fofa do mundo, com seu cabelo cor de mel encaracoladinho. Eu levava todos no Parque do Arpoador , pra voces brincarem nos balanços, nas gangorras, fazer castelinho de areia na primeira ondinha. Nas brincadeiras, voce era o “Change Gryphon”…Lembro de voces andando de bugginho na barra, eu mandando voces “brecarem”, “brecarem”, era pra eu mandar voces “freiarem”, e Pedro não entendeu, ficou me olhando distraído: voces foram com tudo no meio-fio, o bugginho virou e vocês dois foram arremessados no tufo de espinhos… Graças a Deus, nada aconteceu…Me lembro que você era o nosso “Topo Giggio”, um ratinho que morava num buraco na parede da casa, que eu desenhei com pincel mágico, com a inscrição em cima : “GIGGIO”. Fiz uma música nessa época, que eu dedico a você, Tiago – a música “IMAGENS”, feita para o Gabeira, na sua candidatura para prefeito do Rio. Era o berço do ambientalismo explícito.Lembro que voce quase foi levado pelo mar, em Fernando de Noronha, nua praia traiçoeira.Voce foi acudir Marietta, que estava se afogando. Você já havia desaparecido nas ondas bravíssimas e eu ouvi a gritaria, entrei no mar desesperado, um vagalhão me afundou, quando então, lá no fundo do mar, UMA MÃOZINHA PASSA NA MINHA FRENTE : agarrei com força, era você. Fomos acudidos por mais de 11 guarda-vidas heróicos que tiraram Marietta, Tiago, e eu do mar. MILAGRE, MILAGRE, MILAGRE, Gratidão eterna, Proteção. Me lembro de voce na Disney, no Busch Gardens de Tampa, chorando revoltado, porque não tinha altura para passar no gabarito da “Kumba”. Fomos ao banheiro, coloquei um tufo enorme de papel higiênico fazendo uma “palmilha” grossa dentro do seu tênis. Resultado : Passou no gabarito, e lá foi na montanha-russa gigantesca, totalmente proibida para a sua idade. No seu aniversário, fomos à Jacuzzi do hotel, fazer “guerra de bolo”, uma aprontação irresponsável… A temperatura na Florida estava 04 graus, a Jacuzzi estava a 38 graus. Resultado : pneumonia grave, tive que chamar um médico, e ficar dias a fio de “molho” no apartamento, junto com você. Lembro sempre do seu carisma, sempre achando graça de tudo. Lembro de voce, lider estudantil na Unirio, indo de bicicleta para a Urca. Lembro de voce e seus malabares. De voce aqui na Bahia terminando a Biologia na UFBA, e o quanto a Bahia te fez bem.
Sem você, Tiago, eu não seria quem sou.
Paola, quando voce nasceu, foi a minha quinta cambalhota metafísica. Voce veio para transformar tudo em mim. Lembro o quanto amamentei e te coloquei pra dormir. Lembro de voce, pequeninhinha,andando de cavalinho nas minhas costas.. De voce vir morar comigo, das tartaruguinhas no Tamar, você arremessando os bichinhos no mar…Lembro de eu te arremessar na cama, fazendo uma montanha com os edredons e travesseiros, com se fosse uma “modalidade olímpica”… Lembro de voce dormindo no banco de trás da Land Rover. Lembro de voce na escola, eu fingir que era um “Lagarto” e apavorar a criançada…De eu fazer gira-gira com toda a sua classe… e todos pedindo : “Agora eu…Tio…Agora eu…” Voce não pegou a época dos ChangeMan, por isso, voce é outra espécie de personagem mítica..Teletubbie. Lembro de eu pegar uma foto sua e depois fabricar no PhotoShop uma foto dos Teletubbies, onde você era a quinta dos Tele-Tubbies…Tinky Winki… Gipsy…Lala…Paola…Pô….Lembro de voce chegando aqui na Bahia e indo pela primeira vez na praia…dedinho na água, provando..e dizendo “é sagada”…Lembro de voce na Escola Panda e seus temores na mudança para o Mendel… lembro de nossas viagens, para Brasília, Cuiabá, Florianópolis ( ainda nenê ) depois Porto Alegre, Caxias do Sul, Natal, Maceió, São Luiz e os Lençóis, Belo Horizonte, João Pessoa, muito Rio de Janeiro… muita Foz do Iguaçú… lembro do quanto o seu carisma a todos conquista, por onde voce vai…e do quanto todos te amam… lembro de nossa primeira Disney, em que eu chorava tanto, de nossa segunda Disney, junto com Letícia – uma espécie de irmã que a vida te deu… Lembro de seu talento nas coisas, dos nomes que você deu à cachorra Cristal, à tartaruga Cintia , aliás “O” Cintio…, e ao gato “Caramelo”. Lembro do quanto você é vitoriosa, e sabe superar todas as dificuldades. Pra voce, Paola, eu dedico a música “PÃO”, que é explicitamente sobre a PATERNIDADE,expressa o que é esse CRESCIMENTO que a paternidade representa na vida da gente.
Paola, sem você, eu não seria quem sou.

Concluo fazendo esta homenagem à PROTEÇÃO.
Obrigado !
Feliz dia dos Pais !